segunda-feira, 10 de setembro de 2018

A Era Barbieri

Foto: Staff Flamengo
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Salve, Buteco! E aí? Suave? Depois do “Agosto Azul”, com seis confrontos diretos contra Cruzeiro e Grêmio por três competições diferentes, o Mais Querido terá mais uma “semana daquelas”, até aqui comuns no insano calendário “pós-Copa” do futebol brasileiro, com o confronto de ida contra o Corinthians pela Copa do Brasil, no Maracanã, e a 25ª Rodada do Campeonato Brasileiro, contra o Vasco da Gama, no Mané Garrincha (mando de campo cruzmaltino). Uma superficial comparação já é suficiente para percebermos que tanto o Cruzeiro, como o Grêmio são adversários bem mais fortes do que Corinthians e Vasco da Gama. Com melhores elencos, treinadores e situação financeira, não é à toa que os azuis de agosto são os atuais campeões e fortes candidatos, um a manter o título da Copa do Brasil, o outro a manter o da Libertadores da América. Todavia, quando se trata dos alvinegros de setembro a rivalidade pesa muito. O endividado Corinthians, atual campeão brasileiro e campeão de tudo neste Século, muito embora desmantelado após a segunda janela de transferências internacionais, quando menos disputa espaço com o Flamengo como clube mais popular do país. A Copa do Brasil é a última oportunidade de disputar um título relevante e ter alívio financeiro em 2018. Já o Vasco da Gama dispensa apresentações. Mesmo vivendo o pior momento de sua importante e secular história, geralmente transforma-se quando enfrenta o maior rival, algo que nos acostumamos a fazer no período entre o final do Século XX e início do Século XXI, quando a relação de forças era proporcionalmente inversa. Vindo de quatro derrotas consecutivas no campeonato, o Mais Querido enfrentará um adversário no mínimo "mordido" no próximo sábado.

Típico jogo no qual o Flamengo "gosta" de se complicar. Como ressaltei no post da semana passada, as dificuldades da maratona de agosto a novembro/2018 não deveriam surpreender ninguém. E convenhamos, não era e não é racional imaginar o clube, no estágio atual de gestão de futebol, conquistando duas dessas competições, quanto mais três. Ocorre que a sequência de agosto e início de setembro está sendo marcada por uma vertiginosa queda de rendimento do time. Para tentarmos entender os motivos, é importante lançar luzes sobre o trabalho do nosso trabalhador e o histórico de Maurício Barbieri no comando técnico do Flamengo.

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A “era Barbieri” teve início 7 de abril, em Goiânia, quando o Mais Querido, recém-eliminado do Campeonato Estadual nas semifinais pelo Botafogo e em plena crise que culminou nas demissões de Rodrigo Caetano e Paulo César Carpegiani, derrotou, em amistoso, o Atlético/GO por 3x1 no remodelado Estádio Olímpico daquela cidade. A partir de então, o Flamengo só disputou jogos oficiais pelas três competições mais importantes – Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Copa Libertadores da América. Enquanto no Brasileiro e na Copa do Brasil Barbieri vem sendo o único treinador, desde o início, na Libertadores literalmente “pegou o bonde andando” e comandou a equipe nos dois confrontos contra o Santa Fé e nos jogos “de returno” do Grupo IV contra Emelec (Maracanã) e River Plate (Monumental de Nuñez). O início de trabalho foi marcado com uma campanha mediana e até certo ponto irregular, tendo como destaques as vitórias da classificação sobre o Emelec e a solidez defensiva no empate contra o River Plate no Monumental de Nuñez, partida que, na minha opinião, foi o marco inicial do melhor momento do treinador e da equipe na temporada.

Não é que tenha sido uma atuação memorável, e sim que, antes do Monumental de Nuñez, o Flamengo de Barbieri oscilava entre sólidas apresentações, como as vitórias sobre o Internacional (Maracanã) e Ceará (Castelão), e outras de grande instabilidade, a ponto de transmitir certa insegurança, como na derrota para a Chapecoense (Índio Condá) ou nos empates com Ponte Preta e Vasco da Gama (Maracanã). Mesmo algumas vitórias, como sobre o América Mineiro no Maracanã, foram recebidas com reticências. Ocorre que, a partir do Monumental de Nuñez, o Flamengo demonstrou pela primeira vez grande capacidade de resistir a uma forte pressão adversária. É curioso observar que, dois jogos antes, Juan disputou sua última partida (Emelec no Maracanã), e no jogo imediatamente anterior, contra o Vasco da Gama, Réver sentiu e precisou ser substituído por Rhodolfo, que jogou em Buenos Aires, mas também sentiu (após o jogo), motivo pelo qual, a partir de então, a zaga passou a ser formada pelos jovens Léo Duarte e Matheus Thuler.

O adversário seguinte era nada mais, nada menos do que o arquirrival interestadual Atlético Mineiro, no Independência. Por isso mesmo, a apreensão foi geral e irrestrita, como todo mundo se recorda. Apesar disso, o "Círculo Virtuoso da Era Barbieri”, que havia se iniciado em Buenos Aires, surpreendentemente teve seu momento mais marcante exatamente naquela partida, no Horto, quando o Flamengo suportou grande pressão e no finalzinho marcou o gol da vitória com Éverton Ribeiro, após a arrancada impressionante de Vinícius Jr. Do Monumental de Nuñez, última partida pelo Grupo IV da Libertadores, até o Allianz Arena, no empate por 1x1 com o Palmeiras, última partida antes da Copa do Mundo, o Flamengo viveu seu melhor momento em 2018, jogando a partir de então apenas pelo Campeonato Brasileiro, e chegou à parada para a Copa na liderança da competição, além de classificado para as oitavas de final da Libertadores e quartas de final da Copa do Brasil. Os números traduzem com grande precisão aquele especial momento.

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Até a Copa do Mundo (“Pré-Copa”) e sob o comando de Barbieri, o Flamengo disputou 18 (dezoito) jogos, alcançando 10 (dez) vitórias, 7 (sete) empates e 1 (uma) derrota, marcando 25 (vinte e cinco) gols e sofrendo 8 (oito). Na sequência ou “Círculo Virtuoso” entre o River Plate (Monumental de Nuñez) e o Palmeiras (Allianz Arena), com Léo Duarte e Matheus Thuler na zaga, o Flamengo jogou 7 (sete) vezes, 1 (uma) vez pela Libertadores e 6 (seis) vezes pelo Brasileiro, vencendo 5 (cinco) e empatando 2 (duas) partidas, marcando 10 (dez) gols e sofrendo 1 (um). Até então, sob o comando de Barbieri, e com pelo menos Réver ou Juan na zaga, o Flamengo havia jogado 11 (onze) vezes pelas três competições, vencendo 5 (cinco), empatando 6 (seis) e perdendo 1 (um) jogo, marcando 16 (dezesseis) vezes e sofrendo 7 (sete) gols.

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O Flamengo Pós-Copa” disputou 15 (quinze) jogos, com 6 (seis) vitórias, 3 (três) empates e 6 (seis) derrotas, com 15 (quinze) gols marcados e 16 (dezesseis) sofridos (!). Isto significa que, até a vitória de sábado contra a Chapecoense (2x0), o saldo era de três gols negativos (!!). A queda de rendimento, portanto, é vertiginosa e justificadamente preocupante.

O Flamengo Pós-Copa” é marcado por duas coincidências em relação à sequência inicial do trabalho, a qual antecedeu o que eu chamei de Círculo Virtuoso da Era Barbieri”: jogos por três competições simultâneas e a volta de Réver à zaga.

Ao mesmo tempo, e a despeito dessas inegáveis coincidências, a sequência Pós-Copa” também tem algumas importantes diferenças em relação ao início do trabalho, anterior ao período “Círculo Virtuoso” na sequência “Pré-Copa”: a) no formato “mata-mata” o Flamengo havia enfrentado apenas a Ponte Preta (dois jogos), enquanto no “Pós-Copa” jogou contra Cruzeiro e Grêmio (quatro jogos ao todo), e b) o time não contou mais com o (para mim) insubstituível Vinícius Jr. (minha opinião a respeito da saída da jovem estrela da base pode ser lida aquiaqui, aqui ou aqui).

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A análise do trabalho de Maurício Barbieri não dispensa considerações de ordem técnica e tática, como esta, o que, porém, não é objeto deste post. Contudo, vista a “Era Barbieri” dentro de parâmetros contextuais, constata-se que a melhor fase (“Círculo Virtuoso”) ocorreu durante uma sequência de jogos por praticamente uma só competição, no formato pontos corridos, ou seja, sem jogos no formato “mata-mata”, e com um time mais jovem e mais forte fisicamente, notadamente na zaga. Aquele contexto favoreceu a superação dos defeitos do time (limitações táticas inclusas) por suas qualidades positivas.

Já a pior fase, o período “Pós-Copa”, coincide o envelhecimento da zaga dentro de uma sequência muito mais intensa de jogos, incluindo o número de confrontos contra adversários de ponta, e com o enfraquecimento técnico do time, seja pela saída de Vinícius Jr., seja porque, na prática, os reforços vindos do exterior ainda não conseguiram render de acordo com a expectativa. O contexto atual maximiza as limitações do time, que igualam ou não raro superam as qualidades positivas.

Diante disso, surge a pergunta que não quer calar: demitir ou não Barbieri?

Ouso afirmar que o problema principal do Flamengo, hoje, passa longe do treinador, em que pese idealmente o clube precisar de um profissional melhor e mais experiente para a função. Qualquer um, por melhor que fosse, acaso submetido ao contexto “Pós-Copa”, teria dificuldades para manter o rendimento do período que aqui chamo de “Círculo Virtuoso”, dada a flagrante diferença entre as duas situações. Entretanto, mesmo pensando dessa forma, concordo com quem acha que um treinador de bom nível e mais experiente poderia lidar melhor com o atual momento e aumentar a performance em ambas as competições, especialmente as chances de classificação e posterior conquista da Copa do Brasil (não me iludo mais em relação ao Brasileiro).

Essa ideia, porém, esbarra em ao menos três obstáculos concretos: primeiro, não há profissional desse quilate disponível no Brasil, ou seja, atualmente não há profissionais disponíveis no mercado brasileiro que possam melhorar significativamente o trabalho do Barbieri. Percebam que falo em qualidade e não em experiência, bem como de profissionais disponíveis e não de quem está atualmente empregado. O mercado, hoje, oferece "alternativas" como Vanderlei Luxemburgo, Celso Roth, Vagner Mancini e Roger Machado. Melhoraria ou pioraria? Ou será que ficaria na mesma?

O segundo obstáculo é, supondo que esse profissional fosse encontrado e contratado, como lidaria com o poder que os jogadores mais experientes do elenco do Flamengo ainda possuem, a ponto de influenciarem na escalação dos titulares e até mesmo na escolha da função tática que cada um desempenha dentro das quatro linhas. Vale lembrar a pública reação de alguns atletas quando, ano passado, Reinaldo Rueda tentou revezar Diego e Éverton Ribeiro em algumas ocasiões, este último recém-chegado do Oriente Médio e apresentando dificuldades para jogar em alto nível na sequência de jogos. Cuida-se de problema até certo ponto comum no futebol, porém historicamente potencializado no Flamengo a partir do final da “Geração Zico” e reavivado com bastante intensidade no segundo mandato de Eduardo Bandeira de Mello. A questão é como cada clube lida com o assunto. No Flamengo de hoje, não é difícil perceber que a maratona de jogos sacrifica o meio campo que tem um só volante e três meias técnicos. Rodar o elenco é uma ideia intangível.

Por último, a Diretoria, desesperada por um título relevante, e apesar de todas as evidências em sentido contrário, permanece convencida de que a melhor estratégia é escalar preferencialmente os titulares em todas as partidas da maratona, o que, como visto, embora não seja a única causa, tem relação direta com a vertiginosa queda de rendimento do time, que, por aposta da própria Diretoria, possui, entre titulares e reservas, um número significativo de jogadores com mais de trinta anos de idade ou próximos disso.

Portanto, Barbieri ou um eventual sucessor não terão facilidades. Em um plano ideal, Barbieri seria até hoje auxiliar em treinamento de um treinador de ponta. No plano concreto, sua substituição, para ser efetiva, teria que superar todos os três obstáculos expostos.

E aí? Consideram possível?

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Tenho as mesmas dúvidas e muito do ceticismo que vários torcedores vêm externando ultimamente. Faltando menos de três meses de competição até o final do ano, e com tantos erros de planejamento cometidos, acho que não há muito o que ser feito e por isso estou tentando viver um dia de cada vez. Na Copa do Brasil, o Corinthians certamente endurecerá muito, mas o vejo muito longe de ser favorito, quanto mais um obstáculo intransponível. No Campeonato Brasileiro, no sábado farei a minha parte. Os ingressos já estão comprados.

A palavra, como sempre, está com vocês.

Bom dia e SRN a tod@s.