segunda-feira, 23 de abril de 2018

Sorte

Salve, Buteco! Tenho certeza que ao menos uma vez vocês participaram de alguma troca de ideias envolvendo o fator sorte ou acaso nas campanhas dos títulos de 2009 e 2013, os dois últimos de grande envergadura conquistados pelo Flamengo. Mesmo a campanha de 2009, inobstante haver em parte coincidido com o final de um período de mais ou menos três anos de gestão do vice-presidente de futebol Kleber Leite, e portanto, em parte, ser resultado de um trabalho de longo prazo, teve uma indiscutível participação do acaso, e não apenas pela troca de treinador. Por exemplo: o então vice-presidente Marcos Braz tentar contratar o volante Corrêa, não conseguir e acertar em cheio na segunda tentativa, o chileno Maldonado, que, a rigor, que atingiu o ponto máximo da curva de desempenho exatamente nos primeiros meses de contrato, coincidentes com a arrancada pelo título. Mas esse é só um exemplo dentre vários outros: o "canto do cisne" das carreiras de Petkovic, Álvaro, Ronaldo Angelim e Zé Roberto, ou mesmo, em relação ao sérvio, a inusitada decisão do presidente em exercício Delair Dumbrosck, empurrando sua contratação goela abaixo de todo o Departamento de Futebol em troca da negociação de uma dívida antiga. Quem poderia imaginar?

E o que falar de 2013 e do súbito pedido de demissão de Mano Menezes? Quem foi Hernane Brocador antes e depois de 2013? E o Paulinho? E o Amaral? E o Luiz Antônio? E Jayme de Almeida, como treinador?

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Não é pequena a parcela da torcida que sonha com um grande trabalho de longo prazo no Departamento de Futebol, baseado em uma filosofia criteriosa que revele grandes jogadores e resulte em numerosos e importantes títulos. No Flamengo, porém, o sonho parece distante. Basta uma rápida olhada na frequência com que o clube troca seus treinadores do elenco profissional. É bem verdade que essa nada saudável prática é antiga e se tornou paulatinamente uma tradição nociva à medida em que a "Geração Zico" ficava para trás, mas também é verdade que a partir de 2013 o clube passou a ser muito bem gerido nos campos administrativo e financeiro, sendo que a própria estrutura do Departamento de Futebol cresceu extraordinariamente, a ponto de ser considerada de primeiro mundo, incluídos o centro de treinamento e o acesso a tecnologia.

O avanço administrativo e financeiro propiciou ao clube ter um elenco caro e acima da média para os melhores padrões nacional e sul-americano. Ainda assim erros colossais são cometidos com frequência indesejável e inesperada. A gestão de futebol no Flamengo continua amadora e incipiente, tal como nos piores anos da história do futebol do clube.

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O jogo de sábado me lembrou muitos outros dos tempos de "vacas magras", especialmente na primeira metade do século, em confrontos contra pequenos paulistas, paranaenses ou gaúchos pelas competições nacionais. Apesar de não faltarem exemplos rubro-negros, dessa vez como referência utilizarei um jogo ao qual assisti no Estádio João Alvalade, em Lisboa, em 2011, entre Sporting x Portimonense. O futebol alemão vinha de uma ótima campanha no Mundial de 2010, no qual apresentou um estilo de jogo surpreendente pela ofensividade, tendo como dois dos destaques os "pontas" Thomas Müller e Lucas Podolski. Em contraposição à objetividade alemã, o futebol de acachapante posse de bola da Espanha de Andrés Iniesta e Cesc Fàbregas. A Alemanha, quatro anos depois, meio que "fundiu" os dois estilos com o inesquecível meio campo composto por Khedira, Schweinsteiger, Kroos e Özil. Mas isso não vem ao caso. Vamos ao Portimonense...

Sabem a expressão "nó tático"? Pois é. O time da capital portuguesa, com um 4-4-2 engessado, literalmente não viu a cor da bola dutante boa parte do jogo. O modesto time da região de Algarve emulou o esquema tático alemão de 2010 e bateu na cara do gol lisboeta, arrisco dizer, por quase uma dezena de vezes. Adivinhem qual foi o placar final? Sporting 2x1. Venceu o time que tinha Matías Fernandez (Seleção Chilena, Colo Colo, Villareal, Fiorentina, Milan e Necaxa), Postiga (Seleção Portuguesa, Porto, Panathinaikos, Lazio, Valencia e La Coruña), Yannick Djaló (Benfica, Toulouse, Seleção Portuguesa) e um obscuro russo de nome Izmailov, endiabradamente habilidoso, porém instável e absolutamente imprevisível, que acabava de voltar de contusão e premiou o público com uma atuação individual muito boa.

À medida em que as memórias do jogo de Lisboa chegavam, passei a imaginar como deve ser mais fácil implantar uma filosofia tática em um time pequeno do que em um grande clube, com muitos recursos financeiros, casos de Flamengo e Sporting Lisboa. A pressão dos empresários é muito menor; a política interna, bem menos efervescente e com muito menos gente disputando interesses econômicos e políticos no departamento de futebol, além da quase inexistente pressão da torcida.

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Vamos nos concentrar apenas no Flamengo em 2018. Nos bastidores, trava-se uma verdadeira batalha de egos e poder entre o presidente e sua cada vez menor base de apoio. Após o desabafo pós-eliminação do Estadual, feito pelo vice-presidente de futebol, tornar insustentáveis as permanências do treinador e do gerente executivo, além de quase todo o restante do Departamento de Futebol, começou uma espécie de "limpa" que, a rigor, deveria ter ocorrido no final de 2017. Decisões como as saídas do útil, mas superdimensionado Everton Cardoso, e, dizem, do opaco Rômulo vão acontecendo devagar e no meio de mais uma tensa e dramática campanha na fase de grupos da Libertadores, e muito mais por força das circunstâncias (saída de Rodrigo Caetano) do que propriamente por mudanças no planejamento. Mas tudo em ritmo lento, a conta-gotas, porque mais importante, claro, é a sucessão na Presidência do Flamengo...

Cada qual enxerga as coisas sob seu ângulo, mas para mim o mais bizarro de 2018 é o auxiliar tomar o lugar do treinador e manter as mesmíssimas decisões, até mesmo quando o time é alternativo ou misto. Reparem que, além da escalação e do esquema tático serem os mesmos para  o time titular, o alternativo segue o mesmo padrão de mudanças: dois pontas abertos na goleada sofrida para o Fluminense, idem na vitória sobre o América/MG, com os desfalques de Diego e Everton Ribeiro.

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Eu diria que o Flamengo regrediu de um patamar baixo para um rasteiro ao deixar de ter a experiência e a ousadia às vezes inconsequente (e sem critério!) de Carpegiani e hoje contar com a inexperiência e a cautela indecisa de Barbieri. Porém, tal como no exemplo do Sporting Lisboa, o Flamengo também tem um elenco composto por atletas que podem fazer a diferença em um confronto contra pequenos pelo Campeonato Brasileiro, pela Libertadores, contra o Santa Fé em Bogotá, ou pela Copa do Brasil, contra a Ponte Preta em dois confrontos. É inegável, porém, que os atletas do nosso elenco são muito maiores do que o treinador, podendo-se dizer até mesmo que sua relação com o comandante é de criadores e criatura. No jargão popular, é como se o poste estivesse urinando no cachorro.

Em um quadro como esse, a margem de influência do fator "sorte" é muito maior do que deveria. E nada indica que teremos mudanças a curto prazo, já que até 2019 a política dificilmente cederá espaço para o futebol no Mais Querido do Brasil.

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Neste cenário de absoluta imprevisibilidade rubro-negra, acredito que seja possível dizer que o Santa Fé, também passando por uma crise extracampo no Departamento de Futebol, até aqui, nas atuações pelo Grupo 4 da Libertadores, contra adversários bem mais fortes do que os enfrentados nas fases anteriores da competição, demonstrou possuir um forte sistema defensivo, especialmente como visitante, porém alguma dificuldade para marcar gols, característica negativa minimizada pela grande fase vivida por seu centroavante Morelo.

Mal comparando, vejo Flamengo e River Plate com elencos equilibrados, com sistemas de jogo parecidos e seus times rendendo menos do que o esperado, mas ainda assim em um padrão superior aos dos dois outros adversários, devido à superioridade individual de seus atletas. O Emelec é o time mais ofensivo dos quatro e impressiona como joga com a bola no chão através de trocas de passe em velocidade no ataque. Taticamente é organizado, porém tem o elenco mais fraco dos quatro. É uma espécie de Vitória (clube de inegável tradição ofensiva) com trio elétrico e rodas de liga leve no Grupo 4. Já o Santa Fé é taticamente mais conservador e não exita em adotar uma retranca quando precisa. Só vimos o Emelec enfrentar o Flamengo e o River Plate como mandante, mas tomando por referência a partida contra o Santa Fé, arriscaria dizer que é mais perigoso como visitante. É possível que, como mandantes, os colombianos tenham muita dificuldade para enfrentar Flamengo e River Plate.

Ainda com base na partida entre Santa Fé x Emelec, penso que a chave para o Flamengo será jogar ofensivamente, incomodando sempre a defesa adversária, como no primeiro tempo e até vinte e poucos minutos do segundo tempo da partida de 2017 contra o San Lorenzo, no Gasômetro, e contra o Emelec, há poucas semanas, em Guaiaquil. O meu medo é Barbieri, no segundo tempo, optar pela "estratégia Zé Ricardo", adotada no segundo tempo no Gasômetro e, pelo nosso atual treinador interino, no Barradão, contra o Vitória, e no Maracanã, contra o América/MG.

Que a sorte seja rubro-negra...

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A palavra, como sempre, está com vocês.

Bom dia e SRN a tod@s.

sábado, 21 de abril de 2018

Flamengo x América/MG


Campeonato Brasileiro/2018 - Série A - 2ª Rodada

FLAMENGO: Júlio César; Rodinei, Réver, Léo Duarte e Renê; Cuéllar e Willian Arão; Geuvânio, Lucas Paquetá e Vinicius Jr.; Henrique Dourado. Técnico: Maricio Barbieri (interino).

América/MG: Jori; Noberto, Messias, Rafael Lima e Carlinhos; Christian e Leandro Donizete; Aylon, Serginho e Luan; Rafael Moura. Técnico: Enderson Moreira.

Data, Local e Horário: Sábado, 21 de abril de 2018, as 19:00h (USA ET 18:00h), no Estádio Mário Filho ou "Maracanã", no Rio de Janeiro/RJ.

Arbitragem: Leandro Bizzio Marinho, auxiliado por Rogério Pablos Zanardo e Daniel Luis Marques. Quarto Árbitro: Bruno Salgado Rizo. Assistentes Adicionais 1 e 2: Douglas Marques das Flores e Ilbert Estevam da Silva, todos da FPF/Federação Paulista de Futebol.

* Escalações do site Globo Esporte.


Qual o seu Flamengo?

No twitter: @alextriplex

Eis o meu Flamengo:

Tem um atacante sinistro. Já jogou em alguns lugares desse mundo, campeão mundial de clubes, chuta de qualquer lugar, manda muito bem nas bolas paradas, é o dono da bola. E quando resolve que vai botar a bola embaixo do braço, complica pra geral. E é um cara muito família.

E o meu outro atacante? Comemora de um jeito meio diferente. Não nasceu no nosso quintal, mas ali, naquela área dele, ninguém pode com o cara.

Ah, tem uns gringos. Um faz uma graça no ataque, mas a parada dele é marcar, destruir e distribuir o jogo. Eficiência pura.

E tem um que chegou não faz muito tempo. Craque. Craque craque. Come a bola.

Não podemos esquecer de dois outros jogadores. Escola Nacional de Rubronegrismo nato. Comemoram até vitória em par ou ímpar.

O meu Flamengo estava numa noite meio complicada. Mas ao contrário do time de futebol, tirou uma diferença de 15 pontos, levou pra prorrogação e fez 3x0 sobre a equipe do Minas. Sim, estamos falando de basquete.  Sim, estamos falando de um TIME  que tem um objetivo, que pode ou não alcançar, mas que se doará como se numa guerra.

Esse é o meu Flamengo. É o time de Marquinhos, Pecos, Varejao, Marcelinho, Olivinha e tantos outros.

Atletas, jogadores, homens que honram o Manto que vestem. Que são exemplo para muitas crianças e adultos.

Jogadores que não nos irritam a cada 72-96 horas.

Jogadores que nos fazem sentir orgulho de ser Flamengo.

É tão complicado assim, Flamengo?

Qual vai ser a parada?
SRN

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Reconhecer os erros










Irmãos rubro-negros,



confesso-lhes que minha animação para escrever sobre o futebol do time é quase nenhuma.

Toda sexta-feira repetir críticas à essa diretoria é cansativo.

Em toda minha vida de rubro-negro, nunca vi um momento como o atual: estrutura de primeira, salários em dia e uma das maiores folhas salariais do país. Mas a tônica do nosso futebol tem sido os vexames sucessivos e as crises constantes causadas pela péssima gestão que o presidente Eduardo Bandeira de Mello e o seu grupo político de apoio, SóFLA, promovem no futebol profissional do Clube de Regatas do Flamengo.

Neste ponto, eu gostaria de tecer algumas considerações.

Embora seja o mandatário-mór, o presidente Eduardo Bandeira de Mello não está sozinho. Ele é apenas mais um integrante do grupo político que resolveu assumir a gestão do clube.

O Bandeira de Mello, porém, tal qual pára-raio, tem atraído para si todas as atenções e todas as críticas.

Isso não é justo com ele, e tampouco com os fatos.

O projeto de futebol profissional do Flamengo é um projeto do Bandeira de Mello e, também, do SóFLA.

Isso precisa ficar claro para que a big picture não seja vista apenas pela metade.

O que o presidente Eduardo Bandeira de Mello faz ou deixa de fazer, supõe-se, passa pela aprovação, se não de todos, ao menos de parte da cúpula do grupo.

Não há mal algum nisso. Muito pelo contrário. O grupo político se sentiu em condições de fazer o planejamento e tocar o departamento de futebol. Ótimo. Que se assuma claramente isso.

O problema é que a coisa não funcionou como em outras áreas nas quais a atuação redundou em ótimos resultados, como, por exemplo, no futebol de base  (e não me refiro apenas aos resultados dentro de campo, pois o trabalho de formação no Flamengo foi efetivamente elevado a outro patamar).

Na parte estrutural do departamento de futebol, há de se reconhecer, o trabalho também é sensacional.

No futebol profissional, todavia, a gestão tem sido um fiasco.

Os resultados e as vergonhas falam por si.

O que dizer, por exemplo, apenas para ficar num episódio recente, do presidente se reunindo com os jogadores para pedir-lhes “apoio”? Não porque o Flamengo, a sua sagrada camisa vermelha e preta e a torcida mereçam que cada um entregue algo a mais pelo clube, mas, segundo noticiado, “porque é o último ano dele como presidente e ele quer sair bem”.

Ou seja, a preocupação não é com a instituição, mas com a imagem política dele e do seu grupo de apoio.

Tudo é política para essa gente, amigos. Política, poder.

Eu, como rubro-negro, agradeço de coração os relevantes serviços prestados em muitas searas por abnegados, que dedicam, ou dedicaram, seu tempo a trabalhar pelo clube. Falo com toda a sinceridade. Eu sou Flamengo e sou grato a vocês pelo trabalho voluntário em prol da instituição.

Dispenso, contudo, a verborragia debochada e cínica.

Seria muito mais sensato ter a humildade necessária para reconhecer que a gestão do futebol profissional, em cotejo com a da base, por exemplo, que é um sucesso, tem sido um retumbante fracasso. 


...



Nesta altura do campeonato, acho desnecessário debater escalação, má fase de jogador ou nome de técnico.

Demitiram todo o departamento no final de março; passados vinte e um dias, com uma bela oportunidade de mini-temporada no período, o auxiliar que chegou em janeiro para se preparar para o futuro se viu alçado ao posto de treinador, com o indispensável beneplácito dos atletas, que, ao fim e ao cabo, mandam no futebol do clube, tal qual épocas recentes, com grande desvantagem para a atual, porque antes pelo menos não se enchia a boca para vomitar que “o regime é profissional”, como se faz agora.

Este é o resultado da blindagem, da proteção excessiva e do paternalismo adotados pela gestão em relação aos profissionais do departamento de futebol.

Eu realmente não tenho mais paciência para analisar os reiterados equívocos desta diretoria, uma das piores da nossa história no lidar com o futebol profissional do clube.

Flamengo tinha a obrigação e o dever moral de vencer na quarta-feira passada.

Mas o que se viu foi um bando em campo.

Nossa torcida lota estádios Brasil afora, faz "AeroFla", leva cinquenta mil rubro-negros ao Maracanã para torcer num simples treino.

E nem a alegria de uma vitória por meio gol contra um adversário em crise, desfalcado de vários titulares e com uma folha salarial que deve ser um décimo da nossa, nós obtivemos.

Triste, irmãos, muito triste o momento vivido por nós, rubro-negros.

Apesar da crise, eu confio na nossa classificação. Vamos vencer pelo menos dois jogos e nos classificarmos.

Venceremos na Colômbia, semana que vem, e venceremos o Emelec, no Maracanã lotado de rubro-negros.

Torçamos por um milagre, ainda que este milagre, embora eles tenham feito de tudo para jogar o ano no lixo, venha a ser usado de maneira oportunista pela diretoria, seu grupo de apoio e bajuladores: “e agora? Onde estão os críticos?”.

Que seja; lambuzem-se. Eu quero o Mengo campeão.



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Amanhã haverá a despedida do goleiro Júlio César, diante do América-MG, no Maracanã, que mais uma vez estará lotado de rubro-negros.

Uma página se encerrando na nossa história.

Que o Flamengo conquiste uma grande vitória. Por nós e pelo Júlio César também. Ambos merecemos. É jogo que vale três pontos. No Campeonato Brasileiro por pontos corridos, empate é derrota e derrota é desastre.

Obrigado pelos serviços prestados, Júlio César!

Rumo aos três pontos!







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Cometi omissão indesculpável e faço aqui a devida correção, ainda que tardia.

Minha muito singela homenagem à equipe que, durante mais de dez anos, tem encarnado, em todas as disputas, a alma rubro-negra.

Falo evidentemente do basquete do Mengão, que ontem obteve uma vitória espetacular, após improvável reação diante de um adversário dificílimo.

Vamos para a nossa nona semifinal do NBB em dez edições. Sensacional!

A vocês, meu muito obrigado.







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Abraços e Saudações Rubro-Negras.

Uma vez Flamengo, sempre Flamengo.


quinta-feira, 19 de abril de 2018

Flamengo 1 x 1 Santa Fé. Levanta-defunto às ordens

E o Flamengo, em estádio totalmente vazio, empatou com o Santa Fé . Um time em crise no campeonato colombiano, que demitiu o treinador na véspera, enfim, prato cheio para o "serviço de recuperação de times em crise" do Flamengo.

Vieram aqui para empatar. Missão cumprida. Só precisaram de um lance para isto. Flamengo precisa de pelo menos 10 chances de gol para marcar uma, suada e sofrida. É um time que há tempos apresenta este enorme problema. Cria situações de gol, mas a bola não entra por acaso. O que não deixa de ser uma ironia com a filosofia implantada por esta gestão, apostando que um elenco de alto nível, estrutura, e boas condições, traria, com o tempo, um time vencedor. Este tempo nunca chega. E a bola, então, não entra nem por acaso. Como mostrou os dois lances que a zaga do Santa Fé tirou em cima da linha.

Tivemos um bom início de primeiro tempo. Time em cima, criando boas jogadas em série. Ceifador marcou logo um gol. Parecia que estávamos enfrentando um Nova Iguaçú tal o domínio. Mas aí a característica premente do Flamengo, o arame liso, entrou em campo. As situações de gol não eram convertidas. E todos nós, torcedores calejados, sabemos como isto termina. O adversário em seu primeiro ataque com perigo vai fazer seu gol. E não deu outra. É quase que científico isto. Diego foi tentar um passe de primeira, não é seu forte, definitivamente. Falhou miseravelmente com a zaga saindo pro jogo. Santa Fé avançou rápida pela direita. Rever deixou de acompanhar o atacante mais perigoso dele. Falta gás em suas pernas. A bola foi cruzada, claro, exatamente para ele e gol.

Flamengo bem melhor em campo 1 x 1 Santa Fé.

Aí o Flamengo implodiu em campo. Santa Fé se fechou. Mesmo assim Dourado me perde uma chance incrível sozinho diante do gol. Depois até o final do primeiro tempo o jogo transcorreu com o Flamengo perdidaço, sentindo demais o empate. O que mostra a falta lideranças em campo que ponham a bola no chão e façam o time retomar o foco.

Veio o segundo tempo. Nosso neo-estagiário, Barbieri, tira Dourado e Everton Ribeiro, para colocar Lincoln e Arão. Uma mudança que piorou ainda mais o time. Dourado tem a bola aérea que Lincoln não tem, e a zaga do Santa Fé é especialmente ruim nesta especialidade. E Arão, é o atual espirito-que-anda no Flamengo. Perdido, parecia o David Luiz no fatídico 7 a 1 da Alemanha, e não é de hoje. Santa Fé se fechou bem, o que dificultou ainda mais.

Vinicius Jr, que não fez boa partida, sai para entrada de Geuvânio. E, coincidência ou não, o time apresentou mais volume no ataque, chegando a criar chances de bola parada, em que duas quase que resultaram em gol, em jogadas do Juan.

Um jogo sem torcida. E isto, convenhamos, tem um peso também. A torcida motivaria o time. Sem ela, o Flamengo não é o mesmo em situações adversas. Mas continuamos com velhos problemas. Não podemos mais ter uma zaga tão lenta. Rever não dá mais. Não acompanhar o centroavante deles foi uma falha inadmissível. Flamengo tem que se livrar desta submissão ao dito "caldeirão" da panelagem, que de caldeirão não tem nada, porque o mapa de calor deste time é muito frio.

Agora vamos torcer para que no jogo da volta contra o Santa Fé, na Colombia, o Flamengo faça os pontos que não fez aqui. O time deles jogando em casa irá se expor mais. Precisamos ganhar lá e depois ganhar do Emelec em casa, já com torcida. Não podemos ir para o último jogo precisando de resultado. Já sabemos como isto termina.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Flamengo x Independiente Santa Fé


Copa Libertadores da América/2018 - Grupo 4 - 3ª Rodada

FLAMENGO: Diego Alves; Rodinei, Réver, Juan e Renê; Cuéllar; Everton Ribeiro, Diego, Lucas Paquetá e Vinicius Jr.; Henrique Dourado. Técnico: Maricio Barbieri (interino).

Santa Fé: Zapata; Giraldo, Javier López, Tesillo e Gil; Perlaza, Salazar e Gordillo; Morelo, Plata e Pajoy. Técnico: Agustín Julio.

Data, Local e Horário: Quarta-feira, 18 de abril de 2018, as 21:45h (USA ET 20:45h), no Estádio Mário Filho ou "Maracanã", no Rio de Janeiro/RJ.

Arbibragem: Andrés Cunha, auxiliado por Mauricio Espinosa e Nicolás Taran, todos da Associação Uruguaia de Futebol.



Alfarrábios do Melo



E eles vieram.

Muitos não acreditavam, mas eles atenderam ao chamado.

Chegaram de todo lado, cantando, batendo palmas, assobiando, soltando fumaça, empunhando suas bandeiras, munidos de pouco mais que os pulmões plenos de vontade de soltar suas vozes.

Eles não vão às boutiques oficiais. Eles não são associados. Eles não se engalanam com as vestes de alto padrão. Eles se bastam com qualquer trapo em negro e vermelho.

Eles não tomam cerveja artesanal, não comem coisas gourmetizadas, não sabem o que é “otimizar experiências”. Eles desconhecem os lounges, os espaços restritos, nunca ouviram falar em “Fla Experience”.

Eles não pagam pay-per-view, eles não usam streaming, eles não recorrem a tablets ou outras engenhocas eletrônicas. Eles ainda são do rádio e da tevê.

Eles não sabem o que é mapa de calor, oferta de linha de passes, diagonal de cobertura. Eles desconhecem futebol reativo, eles ignoram a saída lavolpiana, eles mal ouviram falar de Klopp e Mourinho.

Mas eles estão aí. Promovendo um alarido infernal, abarrotando aquele que um dia foi o Maior Estádio do Mundo, aquele que outrora se revestia num gigante de concreto que os recebia de braços abertos, pronto a balançar e a reverberar cada grito, cada urro, cada canto de incentivo ao Mengo, transmudando-se em uma irresistível panela de pressão que transformava aqueles onze soldados flamengos em algo próximo a entidades invencíveis.

Vivemos tempos de “entertainment”. De futebol-business. De mais dinheiro girando no negócio, de estádios que fediam a mijo, infestados de baratas, hoje arenas confortáveis e mesmo luxuosas. Do churrasquinho de origem duvidosa que deu lugar a sushis e burgers gourmet. Da cerveja quente que virou “Pale Ale com notas de coentro e lima da pérsia”. Do público que vai pra ver e ser visto. Que tira selfie e posta no insta. Dos serviços melhores (em tese), e dos custos a eles inerentes. Da captação de clientes com poder aquisitivo suficiente para fazer girar o negócio. E o Flamengo mergulhou nesse contexto. E, aparentemente, com gosto e afinco.

Sem romantismo ou hipocrisia: Em regra melhorou. Ficou mais confortável. Ficou menos penoso. Mais profissional. Ficou, é verdade, mais caro. Mas o saco de urina, a lata triscando na orelha, o selvagem aperto pra entrar e sair, a nesga de cimento disputada a tapa com mais três ou quatro, isso ficou pra trás de um modo geral. Clamava-se no passado por isso. “Torcedor não é gado”, dizia-se. E chegou o pacote. Europeizou-se. Alcançou-se o Hemisfério Norte. Mas nada se dá sem consequências. E o que ficou mais ameno, mais organizado, mais afável, mais sistematizado, também ficou mais chato. Futebol de plástico.

Porque, depois de desfrutar de todo o conforto, a tranquilidade, as facilidades, os mimos e mesmo a eventual sofisticação de alguns aspectos secundários, de repente se descobriu que eles ficaram de fora. Eles. Justamente eles, os que trazem o colorido, a pulsação, o ritmo, a vida a uma partida de futebol.

Justo eles, que trazem o amor.

Eles cantam ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro. Avisam que “onde estiver” querem estar, profetizam que “vamo ser campeão”, levantam poeira, soltam fumaça, gritam o nome de todo e qualquer um que esteja ali dentro representando o bastião inexpugnável flamengo.

Eles não se revestem da renitente neurastenia dos baluartes das redes sociais. Eles não problematizam. Eles torcem. Se está bem, cantam e festejam. Se está mal, vaiam e apupam. Mas sempre estão prontos a estender as mãos, a fazer a secular diferença que sempre fez do Flamengo a mais expressiva instituição esportiva do território nacional.

Eles não querem camisa bonita, eles não querem comida de griffe, eles não querem estádio padrão FIFA, eles não querem tirar selfie, eles não querem ir a museu. Eles só querem uma coisa. Uma e apenas uma. Eles querem estar perto. Eles querem ver. Querem tocar. Querem dar as mãos. Querem empurrar. Querem jogar junto. Como sempre foi e sempre deveria ser.

Eles querem que o Flamengo volte a se deixar amar, como sintetizava Mário Filho. Não querem ser “off-Rio” no Rio de Janeiro.

O Flamengo vive um momento de incertezas, de crise de identidade. Não por acaso, de escassez de glórias. E eles estão aí, em massa, urrando a todo o mundo qual é o caminho. Suplicando que os ouçam. Que os deixem se fazer presentes. Porque eles são a Maior e Melhor Torcida do Mundo. Eles são a diferença. Eles são todos menos alguns. Eles são, em essência, o próprio Flamengo.

Eles somos nós.