sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Vai começar...


Eu confesso que quando escrevi o título do texto de hoje, pensei no início do CD dos Mamonas Assassinas em que o vocalista abria com um honestíssimo "Vai começar a baixaria!" ao lembrar das últimas estripulias da federação. Mas os amigos do Buteco podem completar o título do texto como acharem melhor, afinal estamos no começo do campeonato, da temporada oficial, etc etc.

E o que esperar deste espectro decrépito daquele que já foi o torneio mais importante do Brasil? E mais importante, o que esperar do Flamengo neste arremedo de campeonato? Do campeonato em si, não creio que teremos nenhuma grande diferença em relação aos últimos anos. Os times menores com muita disposição, impondo correria aos grandes especialmente nas primeiras rodadas e sempre tentando armar fortes retrancas. A grande dúvida ficará fora das quatro linhas, envolvendo os preços dos ingressos e sua conseqüência provavel, a não utilização do maracanã durante a maior parte do torneio.Especialmente para o Mais Querido, essa mudança pode causar uma perda técnica considerável, devido a notória má qualidade dos demais gramados do Rio de Janeiro.

Além dessa dificuldade, a pré-temporada rubro-negra nos aponta para uma outra barreira de ordem tática. A proposta de jogo armada pelo Luxa para este ano naturalmente encontrará dificuldades ao ser confrontada com defesas mais fechadas. Mesmo os times europeus que inspiram nosso treinador padecem para vencer em tais situações e acabam obtendo seus êxitos através do talento individual de seus principais jogadores. No caso rubro-negro, não apenas não dispomos de jogadores capazes de desequilibrar o jogo, como nossas melhores peças dependem de espaço para jogar em velocidade. Acrescentando nessa conta os gramados ruins, teremos um belo desafio para o time e seu treinador.

Por outro lado, o nível da maioria dos adversários é extremamente baixo e os rivais de outrora vem esfacelados como pudemos ver em seus jogos de pré-temporada. Sendo assim, se jogar o campeonato com seriedade, algo que ele não merece de forma alguma, o Flamengo deve, como de costume, se classificar em primeiro para as semifinais. Depois disso, veremos até que ponto a federação conseguirá levar o roteiro que vem construindo. Uma coisa porém é certa no final dessa história: o nosso final esperado não é o mesmo que o deles.

Abraços e SRN!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Comunicar é preciso

Salve amigos do Buteco,

Fui convidado pelo grande Rocco para substituir o Rúbio Negrão durante as suas merecidas férias. Neste período, o Buteco certamente perderá uma boa dose de humor semanal, já que a minha veia para comédia está próxima a piadas como “é pavê ou pra comê?”, mas tentarei trazer assuntos que considero importantes e carecem de atenção por parte da Nação.

Uma boa leitura a todos.

***


Desde que foi criado em 2013, o programa de sócio torcedor do Flamengo adotou as seguintes estratégias para aumentar o número de sócios:
  1. Atrelar o programa a chegada de reforços, como foi no caso recente do Cirino, mantendo a divulgação de que todo o dinheiro arrecadado está sendo investido no futebol.
  2. E o discurso de que: “nesse momento o programa tem que ser melhor para o Flamengo do que para seu torcedor” – palavras do Bap.



Depois de dois anos de existência o programa já permite que o torcedor comece a ter reais benefícios e não continue encarando-o somente como uma forma de “doação”, mas até o momento a diretoria ainda não descobriu a melhor forma de divulgar essas vantagens ao seu fanático torcedor. 

Para quem ainda não sabe (o que é não é difícil), o programa de sócio torcedor dá descontos no ingresso do Fla Experience (novo museu), em produtos das lojas oficiais, nos pacotes da FlaTour, além de descontos na mensalidade das escolinhas e colônia de férias oficiais do clube.

Além dos benefícios relacionados aos ingressos, o programa já possui uma série de parceiros fortes como Netshoes, Sky, Burger King, Walmart, Abril, Centauro, entre outros. Sem falar nas vantagens da parceira com o “Movimento - Por Um Futebol Melhor”.

Ao invés de prometer a chegada de um grande reforço ao atingir 80.000 STs, o Flamengo poderia começar a vender a ideia de que o programa é bom, mesmo que não chegue o prometido jogador.

Ano retrasado o Flamengo aumentou o preço dos ingressos na reta final da Copa do Brasil com o discurso de que o dinheiro ajudaria a garantir a permanência do Elias e no final o nosso destaque foi parar em um clube rival.

E se o mercado estiver escasso quando o Fla atingir 80.000 sócios e não vier ninguém? Vão devolver o dinheiro dos torcedores que se associaram em troca do reforço?

É evidente que há ainda muito a ser melhorado no programa e diariamente muitos colegas do Buteco dão ótimas sugestões para aumentarmos o número de sócios e arrecadarmos um dinheiro ainda maior. Mas, independente de mudanças no programa, acredito que o Fla esteja divulgando mal as vantagens que o ST já possui! E esse é o ponto que pretendo abordar.

Mesmo que o clube não queira nesse momento mudar de estratégia, entendo que ainda há oportunidades para valorizar melhor os jogadores e principalmente os novos reforços do futebol.

Exemplo: O amistoso contra o Shakhtar Donetsk foi o primeiro jogo oficial da temporada e o Flamengo poderia ter aproveitado para apresentar os novos contratados para a torcida antes da partida. 15 minutos antes do jogo começar, manda subir para o campo todos os reforços e pede para o alto falante do estádio anunciar o nome de cada um, se ainda por cima utilizar o momento para divulgar o ST, melhor ainda!

Quer outra forma barata de estimular a adesão dos torcedores? Faz um sorteio e convoca alguns STs de Brasília para conhecer os jogadores no vestiário após o jogo. Distribui brindes, tira um monte de foto e divulga a ação no site oficial e nas principais redes sociais.

O Zico foi para Brasília dar o pontapé inicial do jogo, certo? Custava nada pedir para o galinho vestir uma camisa divulgando o sócio torcedor do Fla.

Na manhã do jogo contra o São Paulo em Manaus foi realizada uma ação em uma das lojas oficiais do clube com o presidente Eduardo Bandeira de Mello, nada contra o presida, mas se utilizasse um jogador talvez a ação tivesse até mais apelo.

Pega um Paulinho ou Eduardo da Silva, que não participaram da partida e coloca para distribuir autógrafos ou, melhor ainda, presenteia o torcedor que se associar ao ST no dia com um item do clube autografado pelo jogador presente. Basta só ter um pouquinho de criatividade que dá para fazer uma ação legal.

Entendo que o Flamengo ainda passa por gigantes problemas financeiros, mas essas pequenas sugestões possuem um custo muito baixo e já ajudam o clube a divulgar melhor o sócio torcedor e ampliar a venda de produtos oficiais. Tanto Brasília quanto Manaus são praças repletas de rubro-negros, onde ainda não se sabe quando o clube voltará a jogar em um dos dois lugares, portanto já temos oportunidades perdidas.

O que me anima para 2015 é que o clube me parece ciente que precisa melhorar o seu departamento de comunicação e além de outros nomes, trouxe para a área o competente Arthur Muhlenberg, além da parceria com a boa agência Approach.

Não sei se já tem algum dedo dos novos contratados, mas achei muito bacana uma ação recente que presenciei no Twitter.



A inteligente ação interagiu com os torcedores, aproximou a torcida com a história do clube e ainda por cima aproveitou o momento para divulgar o Fla Experience. Bola dentro do Flamengo!

Ideias criativas não são exclusivas de 2015, no ano passado o Flamengo já havia surpreendido com as fotos virtuais autografadas pelo Zico durante o aniversário do galinho e mandou muito bem com o novo comercial do ST estrelado pelo Luxemburgo.

Prevejo, assim como para o futebol, um ano muito melhor para a área de comunicação do clube. Por tratar-se de um ano de eleição, a preocupação com este segmento precisa ser redobrada. A corja fará de tudo para manchar a imagem do Flamengo e se aproveitar de qualquer princípio de crise.

Novamente, sei que ainda há um mar de ações que precisam ser realizadas para melhorar o programa atual, mas sinto que ainda falta habilidade por parte do Fla em divulgar os benefícios que o programa já possui. Tenho certeza que aqui no próprio Buteco existem STs que frequentam lojas ou sites parceiros do clube e por falta de informação não usufruem dos descontos.

Passo a bola para os butequeiros:

Se vocês pudessem sugerir uma ação diferenciada para alavancar os STs sem mudar os benefícios atuais ou os valores dos planos já existentes, qual sugestão vocês dariam a diretoria?

SRN e espero uma boa vitória na estreia do Carioquinha 2015! 2x0 Everton e Nixon!


Boa quinta-feira a todos! Grande abraço!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Boas perspectivas


O ritmo de adaptação aos novos tempos é semelhante ao de uma velha carroça imperial, que resistia para sair da sombra de mordomias que a zona de conforto lhe oferecia, mas não há como negar o pequeno avanço em direção da qualidade do calendário do futebol brasileiro, neste início de ano, ao ser estabelecido um período de tempo racional para a pré-temporada de 2015;

Até então, as comissões técnicas e jogadores limitavam-se à preparação intramuros dos times realizando, no máximo, um ou outro jogo-treino com os portões fechados, tendo como sparring algum clube de aluguel formado para a disputa dos respectivos Estaduais. Com o adiamento de uma semana para o pontapé inicial dos campeonatos, abriu-se a possibilidade de realização de torneios e amistosos em âmbitos nacional e internacional, o que permitiu introduzir o fator competição nos preparativos;

Como se vê, nenhuma medida de caráter excepcional e de alta complexidade foi adotada para permitir maximizar o ganho nesse início de trabalhos, tendo em vista as competições que estão a caminho. Um passo apenas foi dado, de centenas que são necessários à racionalização do futebol brasileiro, já que somente ela o levará de volta ao pódio do esporte em nível mundial;

E o Flamengo como vai nesse contexto para a temporada que inicia no próximo fim de semana? Finalmente, vejo o Mais Querido bem estruturado dentro das quatro linhas, embora pudesse estar melhor se o problema do tal camisa 10 estivesse resolvido. Poucas vezes vi o elenco com um condicionamento físico bom a essa época, sem a lerdeza habitual antes de um Estadual começar, o que permitirá ao treinador Luxemburgo implantar um sistema de jogo que privilegiará a velocidade nos contra-ataques logo nas primeiras partidas. Será um recurso para a ausência do meia de criação, que tanta falta nos faz?;

O bom futebol me induziu certa fixação mental nos jogadores de meio de campo desde quando o velho Andrade desarmava e armava com a mesma categoria. O desarme era limpo, na bola, e a construção do novo lance surgia através de passes perfeitos, com raros erros. Hoje em dia, a falta de talento dos jogadores dessa zona de inteligência produziu o volante monotarefa cuja função é roubar a bola do adversário, mas incapaz de fazer algo de útil depois que o espaço abre-se à sua frente. Daí, a grande importância do criador que sabe como e onde colocar a redonda, conhece as manhas de uma cobrança de falta e de um escanteio, ou seja, chama para si o jogo, é a referência do time em todas as ações de ataque e de posse de bola;

Creio que esse tipo de meio-campista ainda chegará à Gávea antes do Campeonato Brasileiro começar. Sua existência é imprescindível para a formação de uma grande equipe, pois jamais vi uma que dispensasse a sua presença.

SRN!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Bem-vindo, 2015!

Salve, Buteco! Primeira taça do futebol profissional ano, conquistada em cima do São Paulo, vice-campeão brasileiro de 2014, de forma incontestável, sendo superior durante os noventa minutos, mesmo depois das substituições e entrada de vários reservas. A torcida está muito feliz e não é para menos, mas quais as conclusões que podemos tirar dessas três primeiras partidas? Bem, primeiramente, é bom ressalvar que Muricy Ramalho está internado no hospital com diverticulite (ficam aqui os votos para pronto restabelecimento) e, portanto, ele não esteve no comando da equipe. Nada que tire o mérito do Flamengo, porém, pois Muricy dirige a equipe paulista há cerca de um ano e meio e o time tem seu padrão de jogo e atletas que se conhecem e são muito experientes. Em tese, seria um adversário com time e elenco superiores, o que valoriza bastante a vitória e como ela ocorreu, especialmente no plano tático, onde o Flamengo foi o senhor das ações.

É sempre bom ter cautela nas avaliações em início de temporada e ponderar aspectos como eventuais diferenças que possam existir em níveis de estágio de preparação física e ritmo de jogo entre as equipes. Porém, pelo que se pôde notar desde a partida contra o Shakthar Donetsk, o time está muito melhor postado defensivamente e as prometidas saídas para o ataque em velocidade têm ocorrido. A entrada de um meia (Arthur Maia) melhorou sensivelmente a articulação das jogadas, embora ainda haja muito o que evoluir no quesito e também nas conclusões, até porque parece que o time titular tem poucos jogadores com a característica de finalizar. Além disso, percebe-se alguns erros de passe bobos e opções erradas de jogadas ofensivas, mas eu pelo menos penso ser mera falta de entrosamento com a entrada de novos jogadores na equipe.

Os ajustes virão, mas muitas coisas boas já podem ser destacadas, além das já ressaltadas franca evolução tática e postura ofensiva do time, como o soberbo início de temporada do Samir, a surpreendente evolução do Arthur Maia e a aparente recuperação do Luiz Antônio, que parece estar voltando à forma de 2013. Algumas observações e perguntas:

a) Marcelo Cirino pareceu mais a vontade quando jogou menos fixo e adiantado e pôde se movimentar pelo ataque. Acham válido insistir em escalá-lo centralizado? Se não, quem escalariam no comando do ataque?

b) Cáceres, embora não tão mal quanto nas partidas anteriores, ainda não foi bem. Falta de ritmo no início da temporada que pode ser corrigida ou incompatibilidade com o novo esquema tático e forma de jogar?

c) Arthur Maia já merece iniciar o Estadual como titular? Em caso positivo, em lugar de quem? E o Gabriel? Banco ou titular, quando voltar?

d) Pará ou Léo Moura como titular na lateral direita?

***


O outro assunto palpitante do momento é o preço dos ingressos no Estadual e qual atitude o clube deve tomar diante da absurda, autoritária e possivelmente ilegal medida da FERJ de tabelar os valores. Diz-se que se cogitou do abandono, porém não consigo enxergar a equipe disputando torneios como o de Manaus, dentro ou fora do Brasil, até maio, quando começa o o Brasileiro/2015. Penso que é o momento de aproveitar a alta de credibilidade da Diretoria junto a vários setores da imprensa e se aproximar dos principais protagonistas das decisões sobre o futebol brasileiro e planejar uma saída para 2015.

O que pensa @ amig@ do Buteco a respeito?

Bom dia e SRN a tod@s.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Flamengo x São Paulo


Torneio de Manaus

FLAMENGO: Paulo Victor; Leonardo Moura (Pará), Wallace, Samir e Anderson Pico; Cáceres e Canteros; Nixon, Eduardo da Silva (Arthur Maia) e Éverton; Marcelo Cirino. Técnico: Vanderlei Luxemburgo.

São Paulo - Rogério Ceni; Antonio Carlos (Denilson ou Luiz Fabiano), Edson Silva e Lucão; Bruno, Souza, Thiago Mendes, Maikon, Ganso e Carlinhos; Alexandre Pato (Luiz Fabiano). Técnico - Milton Cruz (interino).

Data, Local e Horário: Domingo, 25 de janeiro de 2015, as 17:00h (USET 14:00h), no Estádio Arena da Amazônia, em Manaus/AM.



Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos,

Voltando das “férias”, encaro com certa animação as perspectivas para o futebol flamengo em 2015, em que pese o fato de, a rigor, o elenco ter sido mais reforçado pelas peças que saíram do que propriamente pelas contratações. Por enquanto, seguimos com uma versão um pouco melhorada do mediano time que nos fez padecer em 2014, como atesta a atuação opaca na vitória de quarta-feira sobre o nosso rival (?). Aliás, o Vasco já vai chegando ao terceiro ano sem nos vencer. Se levarmos em conta que o Flamengo atravessou o período de 1984 a 2002 sem sua equipe principal ser derrotada pelo América, creio que essa escrita contra o cruzmaltino pode ainda prosperar um pouco.

Mas não é das chineladas sistemáticas sobre o nosso Español do Balneário que quero falar nesse texto que abre o ano. É que, há poucas semanas, andou ganhando certo vulto a possibilidade de o Flamengo tirar do Fluminense seu principal jogador, numa operação a meu ver inverossímil no momento (o clube ainda não está pronto para esse tipo de peripécia). De qualquer forma, a possibilidade me remeteu a um momento semelhante, que resgato agora nas linhas que seguem. Boa leitura.

1983.

Os anos 80 mal se iniciaram e já imprimem traços marcantes no cotidiano do carioca. Cresce a preocupação com o corpo, o bem-estar, jovens de espírito lotam academias de ginástica e barracas de sucos naturais e a prática de esportes, radicais ou não, cresce vertiginosamente. Em paralelo, muitos se voltam para a busca do crescimento individual e espiritual, recorrendo a práticas como tarô, tai-chi-chuan, astrologia. Nesse contexto, surge com força o conceito de inferno astral, que, passadas várias décadas, ainda não é consenso entre os especialistas da área.

Seja lá o que for, inferno astral é uma palavra que pode definir com razoável clareza o que vive o Flamengo na passagem de 1982 a 1983. Após dois anos conquistando rigorosamente tudo, o rubro-negro perde, no intervalo de dias, a Libertadores e o Estadual, reveses com os quais o clube, aparentemente, não está nem um pouco preparado para lidar.

E tudo começa a dar errado.

O primeiro alvo é o agora contestado treinador Carpegiani, muito criticado por algumas intervenções infelizes e substituições equivocadas nos jogos da reta final da temporada. Além disso, nenhuma das contratações por ele indicadas mostrou resultado (Popéia, Zezé, Jasson), salvo talvez o ponta Wilsinho “Xodó da Vovó”, (ex-Vasco) que, após bom início, sofreu uma lesão e não conseguiu retomar o nível inicial. Ademais, o temperamento difícil do treinador abre algumas fissuras na tão decantada união do grupo, e seu nome já está longe de ser uma unanimidade na Gávea.

Acuado, Carpegiani alega que o pífio desempenho rubro-negro decorreu de um equivocado trabalho de condicionamento físico, o que o faz angariar mais um desafeto, o preparador José Roberto Francalacci. O bate-boca entre os dois ganha os jornais e ribomba na demissão de Francalacci, que sai atirando pesado no treinador.

Sentindo a posição fragilizada de Carpegiani, o atacante Nunes dá uma contundente entrevista aos jornais, em que expõe todas as mazelas do vestiário. “Ele é desonesto. Muitos aqui não gostam dele, mas nunca vão falar. Sei que ele me persegue”, entre outras declarações fortes. As palavras de Nunes explodem outra crise e a situação do goleador (que também não anda em boa fase) se torna insustentável. Nunes é suspenso e treinará à parte até ser emprestado ao Botafogo, semanas mais à frente.

Como se não fosse o suficiente, a Gávea ainda sofre com a recente perda de Domingos Bosco, supervisor que com seu carisma vinha sendo uma das poucas unanimidades dentro do clube. Bosco, em seus últimos dias, conseguiu costurar a difícil renovação de contrato de Carpegiani, e vinha trabalhando na tentativa de amenizar o destroçado ambiente interno do clube. No entanto, foi surpreendido e vitimado por um coágulo alojado no cérebro, uma morte fulminante e extremamente sentida.

O Flamengo está devastado.

Naturalmente, as hienas e cassandras do jornalismo, boa parte composta de botafoguenses, apressa-se em anunciar a morte de um gigante. As páginas são encharcadas com termos como “decadência”, “agonia”, “triste fim”, "novo Botafogo", entre outros mal redigidos epitáfios. Com efeito, é grande a expectativa para o início de 1983. Entre os rivais.

Enquanto isso, o Flamengo, aos cacos, vai buscando uma pequena reformulação. Há uma base de juniores pronta para ser aproveitada (Élder, Júlio César, Ademar, Bigu, Vinícius, entre outros), mas que deverá ser utilizada aos poucos. Nomes como Antunes, Popéia, Jasson, Zezé, Peu e Ronaldo Marques estão fora dos planos e serão negociados. Além disso, alguns jogadores já desgastados com a torcida também não irão permanecer. É o caso de Tita, emprestado ao Grêmio em troca do goleador Baltazar, operação que, a princípio, durará um ano (ironicamente, a torcida não gosta da troca e protesta na frente da Gávea). O goleiro Cantarele, que se envolveu em vários atritos com Raul, aproxima-se do Náutico, mas a transação somente ocorrerá no segundo semestre. E há o caso de Nunes, definitivamente fora dos planos.

E assim, com Baltazar e o obscuro lateral-direito Cocada (trazido do Operário-MS) como novidades, o Flamengo parece ter fechado seu elenco para o Campeonato Brasileiro, e inicia os preparativos para a estreia, contra o Santos. Mas, a três dias da partida, nova bomba irá estourar na Gávea.

Noite. Uma reunião. Quatro horas de negociações. E o desfecho.

Robertinho, o melhor e principal jogador do Fluminense, é o novo jogador do Flamengo.

O ponta-direita Robertinho, revelado nas Laranjeiras, rapidamente ascendeu à equipe titular do tricolor, sendo peça fundamental na conquista do Estadual de 1980. Baixinho e extremamente arisco, caiu nas graças de sua torcida, despontando como um dos principais atacantes do futebol carioca. Desde as divisões de base figurou em convocações para a Seleção Brasileira (foi campeão no Torneio de Toulon em 1980 ao lado se seu grande amigo Mozer), tendo sido lembrado por Telê Santana em várias oportunidades. Após a venda de Edinho, passou a ostentar a condição de principal jogador do Fluminense, mas, diante da aguda crise financeira do clube, não conseguiu evitar que o clube passasse a patinar em posições coadjuvantes. Desgastado e caro, passou a integrar uma lista de “negociáveis”. Mas os tricolores não previam a agressiva investida do Flamengo.

A negociação, em definitivo, envolve a ida de Wilsinho para as Laranjeiras, mais uma gorda compensação financeira ao Fluminense, a maior parte à vista. Negócio irrecusável e Robertinho, ansioso, arruma as malas em direção à Gávea. Ágil, a diretoria flamenga consegue inscrever o jogador a tempo, e Robertinho está apto para estrear domingo, contra o Santos.

Após o jogo (vitória flamenga por 2-0), em que teve razoável atuação, Robertinho declarará, tom de exclamação, quase numa confissão, sua sensação de choque ao se deparar com a grandeza do Flamengo. “Tudo aqui é diferente, jogar é mais fácil, os jogadores se entendem, há uma estrutura, enfim”.

Robertinho se renderá à grandeza do Flamengo. E por ela será engolido.

Robertinho manteve-se como titular nas primeiras fases do Brasileiro e da Libertadores, com boas atuações e até alguns gols. Mas não resistiu à turbulência que derrubou Carpegiani, perdeu espaço e, com Carlos Alberto Torres, terminou o Brasileiro na reserva. Ainda recuperou a posição no Mundialito e no início do Estadual, mas foi soterrado pelos desastrosos resultados do Flamengo na Taça Guanabara. Com a contratação do ponta-direita Lúcio, que estava voando, perdeu definitivamente espaço no clube. Foi negociado com o Palmeiras no início de 1984 e, após perambular por alguns clubes, somente voltaria a se destacar já em 1987, defendendo o Sport que se tornaria finalista do inacabado Módulo Amarelo, a Segunda Divisão do Brasileiro daquele ano.


Pelo Flamengo, sua jogada mais marcante, sem dúvida, é o cruzamento que redundou no gol de cabeça de Adílio, o terceiro na final do Brasileiro de 1983.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

1 a 0

O encerramento da pré temporada trouxe ao Flamengo sua primeira grande vitória em 2015. Não me refiro à vitória no clássico, natural dada a diferença de qualidade entre os dois times, ainda que tenha sido mais difícil do que o esperado. A referida vitória foi o fato de o clube, talvez pela primeira vez em sua história, ter obtido lucros nesta parte do ano. É incrível constatar quanto tempo o Flamengo e vários outros clubes do Brasil demoraram para repetir práticas comumente utilizadas pelos europeus já há alguns anos.

Mais incrível ainda se pensarmos no tempo que foi necessário para alguém pensar em realizar simples torneios de verão entre os grandes clubes do Brasil, semelhantes ao que estamos jogando em Manaus. Ano após ano, vemos os clubes da Espanha, Alemanha e Itália excursionando para os Estados Unidos, Oriente Médio e até a China disputando torneios curtos e principalmente, se relacionando com a população local e atraindo novos simpatizantes. Estes por sua vez, podem ser convertidos em torcedores a distância e provavelmente vir a consumir produtos do clube, aumentando sua arrecadação se tornando novos disseminadores de suas marcas e de seus patrocinadores.

Mesmo com o nível do futebol brasileiro estando extremamente defasado tanto esportiva quanto administrativamente, é possível replicar o raciocínio em nosso mercado interno, gigantesco no universo do futebol. Ao participar de torneios de verão e realizar excursões para regiões nas quais não jogam com frequência, os clubes brasileiros podem encontrar situações e oportunidades semelhantes. Ainda que o calor e os níveis físico e tecnico estejam abaixo do normal, essas partidas representam a possibilidades destes clubes exporem suas marcar e receber o carinho de torcedores que não tem muitas oportunidades de ver seu time de perto ao longo do ano. No caso do Flamengo então, beira o absurdo que isso não seja uma prática recorrente.

É necessário ressaltar que por mais polêmicas que sejam as pesquisas sobre o tamanho das torcidas, elas trazem um dado importante ao revelarem uma enorme parcela da população que afirma não torcer para time nenhum. Isso significa simplesmente que existe um expressivo mercado potencial para os clubes  que melhor souberem explorar esse espaço, sejam brasileiros ou não. Hoje, é realista dizer que os grandes clubes daqui disputam a garotada não apenas entre si, mas com espanhóis, ingleses, etc. Afinal, para um garoto de João Pessoa ou Manaus, que diferença faz para ele torcer para o Flamengo ou para o Barcelona se ele só vê os dois pela TV? Mesmo no Rio de Janeiro, já é fácil encontrar crianças que se dizem Barcelonistas, Madridistas ou torcedores do Chelsea ou do Bayern.

Os alemães especialmente vêm demonstrando sempre ter atenção com o marketing de relacionamento, algo que ficou evidente na passagem da seleção alemã pelo Brasil durante a Copa do Mundo. Desde  a simpatia no trato com a população local até a sacada genial de homenagear o clube mais popular do país em seu uniforme, todas as ações são planejadas de maneira profissional para aumentar exposição da marca e crescimento da base de torcedores e consumidores em potencial.

A execução de uma pré-temporada bem planejada dentro e fora de campo nos traz um bom sinal de que as boas práticas administrativas que vem sendo aplicadas no Flamengo começam a chegar ao departamento de futebol. Se virão acompanhadas de resultados ao longo da temporada, só o tempo dirá. Mas tudo leva a crer que finalmente o futebol do Flamengo se encaminha para o século XXI.

abraços a todos e SRN!

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