segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Identidade

Salve, Buteco! Convido vocês a voltarem comigo dois anos no tempo para o segundo semestre de 2015. Após demitir Vanderlei Luxemburgo no mês de maio, o Flamengo contratou, em sequência, [Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira, que finalizou a temporada no comando da equipe. Três técnicos em uma só temporada ou média de um treinador por a cada quatro meses. Com Oswaldo o Flamengo chegou a emplacar seis vitórias seguidas, atingindo um recorde histórico e dando a impressão que poderia disputar o título ou, no mínimo, obter uma vaga na Copa Libertadores da América/2016. Como todo mundo se lembra, nada disso aconteceu, para frustração geral. Era ano eleitoral e o pleito que culminou na eleição de Eduardo Bandeira de Mello se caracterizou pela polarização dos debates entre as Chapas Azul e Verde, que no pleito anterior eram uma só, que derrotou Patrícia Amorim em sua tentativa de reeleição.

Enquanto a Chapa Verde afirmava que tinha acordo com Jorge Sampaoli, então doido pra deixar a Seleção Chilena, a Chapa Azul fechou com Muricy Ramalho. O discurso era importar o conhecimento tático e de treinamentos implantados em grandes e vitoriosos clubes europeus como o Barcelona. O clube deveria ter uma identidade traduzida por um mesmo esquema tático e uma mesma forma de jogar desde as categorias de base. A expressão da moda era "reciclagem na Europa". Muricy, em quatro meses e meio no comando do clube, conseguiu fazer o time render em bom nível contra adversários de maior porte apenas duas vezes: 2x0 sobre o então "bicho-papão" Atlético/MG no Mineirão, pela Primeira Liga, e 2x1 no Fla-Flu de Brasília, no Mané Garrincha, pela Taça Guanabara. Derrotado nas semifinais do Estadual pelo Vasco da Gama (Manaus) e na semifinal da Primeira Liga pelo Atlético/PR (Juiz-de-Fora), Muricy dirigiu o Flamengo em apenas uma partida no Brasileiro: 1x0 sobre o Sport (Volta Redonda). Vitimado por problemas de saúde, pediu demissão e encerrou a carreira. Esteve bem longe de implementar o futebol moderno que se propôs.

No lugar de Muricy veio Zé Ricardo, que aos poucos direcionou seu trabalho em direção oposta. Mais efetivo entregando a bola para o adversário e jogando principalmente à base de lançamentos longos e cruzamentos, definitivamente Zé Ricardo apostou no estilo de jogo que marca, com mais ou menos sucesso, o trabalho da esmagadora maioria dos treinadores brasileiros. O resto dessa historia já conhecemos: insucesso na disputa do título Brasileiro/2016 e classificação direta para a Libertadores/2017, transformada em grande frustração com a eliminação ainda na fase de grupos, sentimento que aumentou em razão da campanha decepcionante no Brasileiro/2017. Com a demissão de Zé Ricardo, Reinaldo Rueda foi contratado após a recusa de Roger Machado.

Com Reinaldo Rueda o Flamengo tem uma oportunidade concreta para implementar aquilo que Muricy se propunha, mas tudo indica que não tinha condições de fazer. Contudo, diante de tantas idas e vindas da Diretoria, é justo perguntar: ainda existe a meta de criar (ou resgatar) uma identidade para o futebol do clube?

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Reinaldo Rueda tem em seu trabalho características que inevitavelmente levarão a uma espécie de "choque cultural" no Departamento de Futebol do Flamengo. Vejamos algumas delas: rodízio de jogadores, mudanças de posição, escalação do time titular segundo critérios de mérito e não do prestígio (interno ou externo), treinamentos buscando aprimoramento das condições físicas e intensidade de jogo, valorização da posse de bola pela troca de passes verticais com qualidade, saída de bola com participação dos volantes e compactação tática no setor defensivo.

Não é que Rueda seja uma espécie de Rinnus Mitchel, Pep Guardiola ou Jorge Sampaoli. Se fosse, estaria na Europa! Trata-se de como se joga e trabalha hoje em dia no primeiro mundo do futebol e o nosso novo treinador é estudioso e praticante desses conceitos. Se conseguirá executá-los com sucesso no Flamengo só o tempo dirá; certeza é de que esse sucesso depende, dentre outros fatores, dos jogadores acreditarem e se engajarem no trabalho.

É neste ponto que se torna relevante responder a pergunta que fiz logo acima. Seja qual for a resposta, tenho certeza de que tanto a nova Comissão Técnica como a própria Diretoria terão trabalho com resistências como as demonstrações de insatisfação de Everton e Rafael Vaz, respectivamente, por substituição e escalação em posição diferente da qual jogava. Os jogadores do Flamengo estão acostumados a trabalhar em um ambiente no qual a "relação de lealdade" (palavras de Zé Ricardo) entre eles e o treinador têm um peso maior do que deveriam em contraste com o critério de mérito. Estão acostumados com a dinâmica do mercado brasileiro, até porque foram formados nela, na qual os atletas formam "grupos internos" que influenciam em escalações e até nas trocas de comando técnico, em contraste com o poder de decisão que deveria ter o treinador.

O Flamengo acertou ao contratar um treinador (e comissão técnica) muito experiente, com passagens por duas Eliminatórias e Copas do Mundo, campeão da Libertadores e colombiano, e que, portanto, já viu e viveu muito no cenário futebolístico. Todavia, se não bancar a proposta de trabalho que contratou, arrisco afirmar que as chances de sucesso não serão maiores do que as de retroceder a 2015.

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A semana será cheia com duas pedreiras: quarta-feira, jogo de volta pela semifinais da Copa do Brasil contra o Botafogo no Maracanã, e no domingo, pela 22ª Rodada do Brasileiro, o confronto contra o indigesto visitante Atlético/PR na Ilha do Urubu.

A palavra, como sempre, está com vocês para que mandem sugestões de escalação e suas impressões sobre os próximos desafios.

Bom dia e SRN a tod@s.

sábado, 19 de agosto de 2017

Mucho gusto, me llamo Vinícius

Foto: Gilvan de Souza
A estreia no profissional foi em maio, ainda com 16 anos, em meio a uma turbulenta negociação com o Real Madrid, fechada uma semana depois. Desde então, o menino de €45M havia iniciado três partidas, entrado no decorrer de outras doze, e marcou seu primeiro gol no confronto de volta contra o Palestino, pela Copa Sul-Americana. Hoje, contra o lanterna do Campeonato Brasileiro, pela 21ª rodada, Vinícius Jr. completou, pela primeira vez, noventa minutos em campo e foi o grande destaque da vitória por 2 a 0 sobre o Atlético/GO. Marcou os dois gols e teve ótima participação, principalmente no segundo tempo, quando o time inteiro melhorou.

Poupando jogadores para a decisão da semifinal da Copa do Brasil, as novidades foram as adaptações de Rafael Vaz na lateral esquerda e Lucas Paquetá no comando do ataque. Não foram bons quarenta e cinco minutos. Já vi esse mesmo time do Flamengo jogar muito pior, é verdade. Mesmo com muito pouco tempo de trabalho, já se vê algumas diferenças na forma de jogar depois da chegada do Reinaldo Rueda. Pressão para recuperar a bola, linhas de passes mais esticadas, luta para evitar cruzamentos sem sentido, tudo isso já começa a ser visto no jogo rubro-negro, mesmo que ainda falte um acerto na recomposição defensiva.

Por mais bizarro que possa parecer, no entanto, a primeira grande chance de gol foi com o Marcinho. Houve mais uma oportunidade, numa cabeçada do Vinícius Jr. mas o grande lance do primeiro tempo foi um belo chute do Walter que Diego Alves espalmou. Voltamos do intervalo com Renê no lugar do Vaz que, se não comprometeu improvisado, fez com que forçássemos o jogo pelo lado direito com Pará e Geuvânio, bem mal também na partida. Logo aos dois minutos, a bola na trave do Arão deu o tom da melhora. O primeiro gol saiu aos dez, um passe improvável em profundidade e Vinícius saiu muito atrás do zagueiro, chegou na frente e bateu de esquerda, entre o goleiro Felipe e a trave. Depois, um gol de Romário, extremamente semelhante ao feito pelo Baixinho contra o Uruguai, nas Eliminatórias para a Copa de 94.


O ponto negativo ficou por conta da lesão do Renê. O lateral será avaliado amanhã mas a imagem foi feia, uma forte torção no tornozelo pode forçar a reabertura da avenida Trauco na quarta-feira. Além disso, ainda não sabemos se poderemos contar com Guerrero e Vizeu, além dos já conhecidos quatro desfalques gerados pela imbecil regra de inscrição de jogadores na Copa do Brasil. Nada, entretanto, pode servir de desculpas. Teremos Maracanã lotado para eliminar os alvinegros e chegar à sétima final da competição.

Flamengo x Atlético/GO



Campeonato Brasileiro/2017 - Série A - 21ª Rodada

FLAMENGO: Diego Alves; ParáRéver, Rhodolfo Rafael Vaz; MárciAraújo e Willian Arão; Geuvânio, Everton Ribeiro e Vinicius Jr.; Lucas Paquetá. Técnico: Reinaldo Rueda.

Atlético/GO: Felipe Garcia; Jonathan, Gilvan, Willian Alves e Bruno Pacheco; Igor e Paulinho; Andrigo, Jorginho e Diego Rosa; Walter. Técnico: João Paulo Sanches.

Data, Local e Horário: Sábado, 19 de Agosto de 2017, as 19:00h (USA/ET 18:00h), no Estádio Luso Brasileiro ou "Ilha do Urubu", no Rio de Janeiro/RJ.

Arbitragem - Rodolfo Torski Marques (FIFA), auxiliado por Bruno Boschilia e Victor Hugo Imazu dos Santos, todos da Federação Paranaense de Futebol. Quarto Árbitro: Rafael Trombeta (PR). Assistentes Adicionais: Paulo Roberto Alves Junior (PR) e Fábio Filipus (PR). 

 

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O Flamengo é o mundo







Irmãos rubro-negros,


Sobre a estreia do Rueda no comando técnico do Mais Querido, muito já foi dito. Não tenho nada a acrescentar. O trabalho está no início e minha torcida fervorosa é para que o Rueda faça história no Flamengo.

Quanto aos desafios que se avizinham, sem desmerecer a disputa do Brasileiro, muito pelo contrário, até porque nossa situação não permite relaxamento, o fato é que teremos um jogo decisivo na próxima quarta-feira.

É difícil não pensar nessa partida tão importante.

E em véspera de jogo importante, o melhor é falar pouco.

É o que farei neste post.

Vamos lotar o Maracanã e empurrar o Mengão para a vitória e a classificação para a final da Copa do Brasil.

Diferentemente do adversário, que vive do ódio e protagonizou atos lamentáveis, mostremos a nossa grandeza dentro e fora de campo, em paz. 

Sinto um orgulho imensurável de ser Flamengo e fazer parte da Nação Rubro-Negra.

O Flamengo é universal, amigos, e isso é parte fundamental da essência do clube.

Nossa torcida cobra, discute, xinga, mas quando a instituição é ofendida, quando o Flamengo é atacado, ou um dos nossos, todos deixamos as diferenças de lado e nos unimos pelo clube.

Orgulho de ser Urubu. Orgulho de ser rubro-negro.

O Flamengo é o mundo.






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Abraços e Saudações Rubro-Negras.

Uma vez Flamengo, sempre Flamengo.


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Botafogo 0 x 0 Flamengo. A estréia de Rueda com cenas lamentáveis

E finalmente, após um longo e indesculpável inverno, o Flamengo tem um técnico à altura do clube e do elenco contratado. Rueda estreou. Aleluia, irmãos. Glória a vós Senhor pela graça alcançada. Desculpem o tom religioso, mas é assim que me sinto após o Depto de Futebol do Flamengo ter deixado de ser tão miserável e tacanho em relação a condição tática do time, cujo elenco se paga muito caro para manter.

A partida em si, mostrou um Flamengo mais controlado. Sem aqueles espasmos idiotas que geralmente davam em cruzamentos infrutíferos, marca registrada do Zé "Estagiário" Ricardo. Rueda passou bom impressão inicial. Já começou colocando o Capir8 na reserva. Aleluia. Cuellar, que jogador, dominava o meio de campo. E pensar que pela agonia tática de um técnico ruim e paneleiro, o Flamengo atrasou um ano da carreira dele. Enfim, não foram por falta de n avisos de minha parte e de outros que viam a mesma coisa. Mas a "torcida não sabe nada", dizem os dirigentes de futebol no alto de suas montanhas de merda de erros. Juan, também fez partida impecável. Outro que agonizou da reserva para um jogador tacanho e medíocre como Rafael Vaz, por graça do Paneleiro. Desculpem a reiterada menção ao "defunto", mas a raiva ainda me domina. Vai passar.

Mas não foi uma partida muito emocionante de se ver. Botafogo esperava erros do Flamengo e batia à vontade nos jogadores do Flamengo com a permissão do juiz bombado e arregão. Flamengo. como escrevi, controlado. Enquanto isto, o Botafogo, clube e torcida, davam vazão ao clima de ódio que o presidente do Botafogo faz questão de manter, numa irresponsabilidade até diria social, que deveria ser combatida pela CBF, pelo Ministério Público e pela imprensa. Que adora citar EBM em alguns gestos de hostilidade mas se cala de forma irresponsável perante este descalabro.

A torcida do Flamengo foi agredida, sufocada. E isto se torna pessoal. Milhares de pessoas, que pagaram seus ingressos, foram agredidos pelo promotor do evento, que mandou fechar os portões causando sério tumulto. Ele tem a responsabilidade de tratar bem os visitantes. Futebol não é guerra. Só psicopatas ou calhordas pensam o contrário. O ônibus do Flamengo também foi apedrejado na entrada. A família de Vinicius Jr sofreu injúrias raciais de um senhor podre, da torcida do Botafogo. Um clima de hostilidade a qual o infeliz presidente do Botafogo faz questão de promover, não bastando o clima de violência que já impera no país.

Também faço aqui a minha indagação a PM do Rio de Janeiro e Bombeiros, de como eles, tão rápidos em investigar entradas e saídas da Ilha do urubu, permitem a canalhice do Botafogo de fazer a torcida do Flamengo ter que passar por portão estreito que não atende a demanda de entrada? Cabe a eles coibir loucuras e cafajestagens de promotores de quaisquer tipos e eventos. A quem o público atingido pode apelar? Aos espíritos? É a polícia. Aos bombeiros. Que se não têm vontade ou não sabem fazer seu dever então mudem de profissão.

Voltando ao jogo. Diego também se movimentou bem. Fez uma belíssima cobrança de falta digno de Zico e mesmo do comentarista Juninho Pernambucano, cujo talento em campo é inversamente proporcional ao seu talento como comentarista. Vítima da síndrome do caramujo, acha o jogador um craque e toda partida faz questão de invocar o pereba. Chegando ao ponto de não ver diferenças entre Cuellar e Marcio Araujo.

Flamengo tentando algo, ainda que insípido e o Botafogo esperando falha a batendo. Berrio sofre falta criminosa do tal Pimpão. Juiz arregão dá amarelo em um lance que o sujeitinho foi de sola, propositalmente para tirar do jogo, no tornozelo do jogador. Era para vermelho direto. Mas o Daronco tem "issues" contra o Flamengo. Deve ser outro que caiu na narrativa da imprensa que o Flamengo "é muito ajudado pela arbitragem". Marcio Araujo entra em campo. Como nos tempos de Zé Ricardo, livre e leve solto para fazer merda pelo campo. "Gesuis, até quando?", o Flamengo, claro se desorganiza. Vinicius então entra em campo. Faz a reza, mal corre pelo gramado e ocorre o  lance mais escroto. Muralha em bola levantada na área, levanta os joelhos até como proteção pois jogador adversário correu para dividida. Reação natural, diria. Lance normal. Os dois se chocam e o jogador do Botafogo, no clima de violência peculiar a este time, dá um pisão no Muralha. Clima pesa. Aí o Daronco teria que dar amarelo ao jogador do Botafogo e expulsar. Mas parece ter sido proibido de dar vantagem numérica ao Flamengo, visto a tal entrada criminosa do Pimpão antes, que ele viu e acompanhou. Aí, expulsa os dois. Muralha leva cartão vermelho direto. E isto torna a partida bem morna até o fim. Rueda substituiu Vinicius pelo Thiago, até para tirar velocidade do time. Pro Botafogo foi bom. Partida terminou 0 a 0. E se tiver disputa de penaltis no Maracanã, é o franco favorito pela qualidade indiscutível dos goleiros que tem.

Boa estréia do Rueda. Mostrou ao menos um time mais controlado. Sem aquele clima de bundalelê. Com o tempo se verá mais compactação, melhor organização das linhas e melhores trocas de passes. Agora temos treinador.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Botafogo x Flamengo


Copa do Brasil 2017 - Semifinais - 1º Jogo (Ida)

Botafogo: Gatito Fernandez; Luiz Ricardo, Carli, Igor Rabello e Victor Luiz; Matheus Fernandez e Rodrigo Lindoso; Bruno Silva, João Paulo e Rodrigo Pimpão; Roger. Técnico: Jair Ventura.

FLAMENGO: Muralha; Rodinei, Réver, Juan e Renê; Cuéllar e Willian Arão; Berrío, Diego e Everton; Felipe Vizeu. Técnico: Reinaldo Rueda.

Data, Local e Horário: Quarta-feira, 16 de Agosto de 2017, as 21:45h (USA/ET 20:45h), no Estádio Olímpico João Havelange ou "Engenhão", no Rio de Janeiro/RJ.

Arbitragem - Anderson Daronco (FIFA), auxiliado por Rafael da Silva Alves e Élio Nepomuceno de Andrade Júnior, todos da Federação Gaúcha de Futebol. Quarto Árbitro: Michael Stanislau (RS). Assistentes Adicionais: Daniel Nobre Bins (RS) e Márcio C. Brum Coruja (RS). Analista de Campo: Almir Alves de Mello.

 

Alfarrábios do Melo

O ÚLTIMO GRINGO

E Coutinho se foi.

Um estranho e mal explicado vazamento de uma suposta lista de dispensas sela o destino e finaliza o trabalho de um dos mais relevantes treinadores da história do CR Flamengo. Uma passagem de quatro anos (intercalada por licenças para treinar a Seleção), que resultou na montagem do time Tricampeão Estadual e Campeão Brasileiro. Mas que sucumbiu ao desgaste do tempo.

Substituir Coutinho é o primeiro desafio da nova Diretoria, eleita para assumir o clube no próximo biênio. Ainda tomando pé das coisas do clube (tarefa facilitada pela continuidade proporcionada pela manutenção do mesmo grupo político no comando), opta-se pela efetivação de um velho conhecido. O paraguaio Modesto Bría.

1 – QUEM É

Pode-se dizer que Bría é um estrangeiro “da casa”. Brilhante centro-médio (volante) da equipe tricampeã em 42-43-44, jamais se desvinculou do Flamengo após pendurar as chuteiras, sendo utilizado na Comissão Técnica dos profissionais ou das Divisões de Base, onde se radicou. Com esse perfil, tornou-se a indicação natural para assumir o comando técnico da equipe em momentos de hiato. Foi treinador, efetivo ou interino, do rubro-negro em 1959/60, 1967 e 1971. Assim, surge como a perfeita “solução-tampão” para a função, enquanto o clube define suas diretrizes.

2 – CONTRATO E OBJETIVOS

Modesto Bría assina por quatro meses, até 30 de abril. A idéia é mantê-lo no comando da equipe durante toda a disputa do Campeonato Brasileiro, cujo objetivo, naturalmente, é a conquista do Bicampeonato. Caso desenvolva um bom trabalho, a Diretoria acena com a possibilidade de extensão do vínculo, aí já tendo em vista os desafios do Segundo Semestre, no caso a Libertadores e o Estadual.

3 – ELENCO À DISPOSIÇÃO

Bría dispõe basicamente do mesmo plantel que terminou a temporada anterior. O ponta de lança Lico, pouco aproveitado por Coutinho, é emprestado ao Joinville e retornará apenas em junho. Para seu lugar o Flamengo traz Peu, revelação do CSA de Alagoas, que já chega com a responsabilidade de emular a trajetória de um antigo ídolo, Dida. Peu vem por empréstimo de um ano.

No entanto, o rubro-negro terá três importantes baixas nas duas fases iniciais da competição. Os três principais jogadores da equipe, Zico, Júnior e Tita, estão servindo à Seleção, envolvida com a preparação e disputa das Eliminatórias para a Copa. Sem suas estrelas, o Flamengo pensa em aproveitar a Primeira Fase (em que os jogos são mais fáceis) para dar mais jogo a alguns jovens da base, como os volantes Vítor e Lino, o ponta-esquerda Edson e os centroavantes Anselmo e Ronaldo.

Mas há jogadores de saída, ou quase. Enfrentando severas dificuldades para manter os salários em dia, a Diretoria vê com bons olhos a venda de algum jogador. O primeiro a ser assediado é Adílio, que interessa ao Los Angeles Aztecs-EUA (novo clube de Coutinho, que o indica). O negócio quase sai (Adílio chega a se declarar “sentindo-se nos States”), mas uma divergência quanto ao pagamento das luvas aborta a transação. O zagueiro Marinho também é tentado pelo clube americano, também balança com a proposta, mas recusa sair do Flamengo por um motivo aparentemente prosaico: sua esposa não quer deixar o país. Por fim, o ponta-esquerda Júlio César, o “Uri Geller”, que inicia o ano fazendo bons jogos, é procurado pelo Talleres-ARG. Dessa vez o negócio acontece, e o irrequieto atacante encerra sua passagem pelo Flamengo, para alívio de uma Diretoria preocupada com as contas do clube.

Outro desafio de Bría é recuperar alguns jogadores de bom nível que encerraram 1980 em péssima fase, chegando inclusive a serem barrados por Coutinho. É o caso de Carpegiani, Rondinelli, Nunes e Fumanchu. E Luís Pereira. Mas, irritado por ver o experiente zagueiro se reapresentar oito quilos acima do peso, avisa à Diretoria: “Esse podem vender. Não conto com ele”. Mas o zagueiro é mantido no elenco. E, em princípio, segue na reserva.

4 – CARACTERÍSTICAS E PERFIL

De semblante sério mas de bom diálogo, Bría segue a linha “boleira” e intuitiva. Não costuma inventar muito nas escalações, embora às vezes opte por algumas improvisações extravagantes. Precisa que os jogadores “corram pra ele”, para que seus esquemas, normalmente pouco sofisticados, funcionem. Um ponto fraco de sua linha de trabalho é a disciplina, o que o faz ter dificuldades com jogadores rebeldes.

5 – NÍVEL DE INFORMAÇÃO E ATUALIZAÇÃO

Bría acredita que, tendo sua equipe adestrada a executar o que foi treinado, a imposição pela capacidade técnica se dará naturalmente. Gosta de fazer o time entrar mais cauteloso no início das partidas, para “estudar o adversário”, soltando-o depois de uns vinte ou trinta minutos, agora mais ambientado com a movimentação da outra equipe.

É adepto da tese, “os outros que devem se preocupar com o Flamengo”, o que gera situações inusitadas e mesmo pitorescas. Antes da estréia no Brasileiro, contra o Santos no Maracanã, é perguntado sobre o adversário: “Dizem que está em um mau momento. Tomara que seja verdade”. Em Manaus, antes de uma partida contra o Nacional local, exibe desconcertante sinceridade, “Eles ganharam do Cruzeiro, não é? Então devem ter um bom time”. Antes do encontro com o Itabaiana, em Aracaju, crava: “Não sei nada sobre o time deles. Mas não estou preocupado. Meu amigo Dequinha é de lá, quando chegar a Sergipe eu vou pegar informações com ele”. Por fim, sobre o Uberaba, já na Segunda Fase, disserta: “Disseram-me que o zagueiro, o meia e o centroavante deles são bons, de certa categoria. Vamos ver isso na hora”.

6 – OS PROBLEMAS

A passagem de Bría é conturbada, marcada por diversos problemas na gestão do elenco. O primeiro deles estoura na zaga. Bría, como já indicara, inicia o Brasileiro com Rondinelli e Marinho formando a dupla titular. No entanto, o Deus da Raça é expulso em um jogo em Belém. Com isso, Bría pretende utilizar Luís Pereira no compromisso seguinte, contra o Sampaio Correa, no Maracanã. Luís Pereira, que já vinha reclamando nos jornais (“Sou um zagueiro consagrado, de Seleção. Não vou aceitar ficar na reserva, não condiz com um profissional da minha categoria”), aproveita para capitalizar o momento. “Veja bem, eu preciso ver com o Professor essa situação. Porque tenho outras propostas, estou inclusive negociando com uma equipe grande. Se entrar em campo e assinar a súmula, não poderei mais me transferir. Mas ficar aqui como reserva, como tapa-buraco, também não vai ser. O clube também precisa ver o meu lado. A coisa precisa ficar ajeitada para todos.” Sabe-se lá o que é resolvido, mas Luís Pereira entra em campo. E não perde mais a vaga até o fim do Brasileiro.

O outro zagueiro, Marinho, também resmunga. Liberado de uma partida para resolver sua situação com o Los Angeles Aztecs, é reintegrado após o fracasso das negociações. Mas volta atirando: “Saí daqui como titular, quero voltar como titular. Não vou aceitar perder a posição no grito”. Para “sorte” de Bría, Rondinelli se lesiona e fica de fora por algumas rodadas. E, experiente e sabedor das coisas flamengas, volta quieto, sem reclamar da momentânea reserva (vai recuperar a posição poucos meses mais tarde).

Resolvido o problema da zaga, estoura outra crise. Após a magra vitória contra o Sampaio Correa (2-0), em que o time joga muito mal, Nunes, que desperdiça uma carreta de gols, é ostensivamente vaiado. Irritado, explode em uma entrevista bombástica a uma revista. Dizendo-se perseguido, avisa que quer sair do Flamengo, ser negociado. “Há uma panela aqui dentro me boicotando”, “os jogadores 'da casa' não me suportam”, “eles me jogam contra a torcida”, entre outras declarações fortes. “Isso é paranoia dele. Está nervoso com as vaias”, contemporizam alguns líderes do elenco. A revolta de Nunes é recebida com naturalidade pela Diretoria, que já tem o diagnóstico: “quando ele voltar a fazer gols, isso passa”. De qualquer forma, o ambiente segue longe de apresentar leveza.

O caso de Nunes é resolvido com surpreendente rapidez e de uma forma inesperada. Em uma inusitada goleada de 8-0 contra o Fortaleza, no Maracanã, partida em que os cearenses enfrentam o Flamengo com uma postura inacreditavelmente aberta e ousada. Nunes marca cinco tentos e enfim encontra sua paz, como previra o dirigente.

Há outros casos menores. Adílio falta a um treinamento, não avisa e, localizado, informa estar com um problema de saúde na família. Bría minimiza a situação. Tita, ao retornar da Seleção, decide não aceitar mais jogar como falso ponta, fazendo questão de retornar à sua posição original, a de ponta de lança, mesmo que isso signifique se tornar reserva de Zico. Mas, como “gesto de boa vontade”, admite seguir fazendo a função até o final do Brasileiro.

7 – DESEMPENHO E RESULTADOS

O Flamengo de Modesto Bría apresenta notável irregularidade, e em nenhum momento sinaliza que irá de fato engrenar. A equipe se caracteriza por momentos de apatia e falta de imaginação. Os pontas, muitas vezes improvisados, afunilam em excesso, travando a movimentação ofensiva. O sistema defensivo, por outro lado, sofre com problemas de cobertura e proteção à zaga, que é lenta, e a equipe tende a sofrer muitos gols. No decorrer da competição, Peu é efetivado, o que lubrifica a armação e a criação de jogadas (o jogador, em ótima fase, dá velocidade e contundência ao ataque), mas agrava os problemas na defesa, pois o meia-atacante não se notabiliza pela disciplina tática.

Após uma vitória contra os reservas do São Paulo por 2-0, em um amistoso no Morumbi, o Brasileiro. A Primeira Fase é cumprida sem brilho. Na estréia o Flamengo se arrasta sob um domingo de verão no Maracanã e empata um preguiçoso 0-0 com o Santos. A seguir, vence a duras penas o Nacional em Manaus (1-0), jogo que Bría invade o campo para abraçar os jogadores após o triunfo. Logo depois, o primeiro vexame. O rubro-negro, lento e apático, é atropelado pelo Paysandu em Belém, não resistindo à alucinante correria do adversário. A derrota por 3-0 sai barata, graças à atuação exuberante de Raul. “Foi um acidente, coisas do futebol”, limita-se a comentar um resignado Júlio César, vivendo seus últimos dias no clube. Logo depois, o Flamengo derrota por 2-0 o Sampaio Correa no Maracanã, em mais uma fraca atuação. Os primeiros traços de bom futebol aparecem em Aracaju, quando o Flamengo, movido pelo entrosamento entre Peu e Nunes, faz convincentes 2-0 sobre o Itabaiana. Os estrondosos 8-0 sobre o Fortaleza no Maracanã trazem a ilusão de que o rubro-negro enfim irá deslanchar. Mas um opaco 0-0 contra o Cruzeiro no Mineirão e os sofridos 3-2 sobre o CRB em Maceió (em que novamente Peu, com um gol de placa, e Nunes são os destaques) devolvem o time à realidade. A participação na Primeira Fase é encerrada com um silencioso 2-2 contra o Santa Cruz, no Maracanã, em que o Flamengo cede o empate nos minutos finais com um bizarro gol contra de Adílio (foi cortar um cruzamento rasteiro e acabou colocando com “classe” no contrapé de Raul), O Flamengo termina a Fase em segundo lugar no seu grupo, atrás do Santos.

Antes da fase seguinte, o Flamengo viaja ao Uruguai, onde disputa um torneio caça-níqueis. Alinha um punhado de juniores e reservas contra o Peñarol, que vem com vários titulares. De forma surpreendente, o time passa por cima dos uruguaios, naquela que talvez é a melhor exibição sob o comando de Bría. Abre 3-0 e, conforme esperado, o jogo descamba para a pancadaria, com vários expulsos. A decisão do torneio, no dia seguinte, contra o Grêmio, é adiada devido ao mau tempo. Mas a atuação contra o Peñarol traz, enfim, ânimo e confiança ao grupo.

8 – A SEGUNDA FASE E O EPÍLOGO

“Não dá mais, Doutor. Preciso ir embora. Estoy muriendo”

Sete quilos mais magro, abatido e tragado pela insônia e movido à base de tranqüilizantes, Modesto Bría, pela segunda vez, apresenta seu pedido de demissão ao Presidente. Na ocasião anterior, logo após o fiasco de Belém, o dirigente minimizara, por ser início de trabalho: “Tire um dia de folga, vá descansar e volte revigorado”. Mas dessa vez o Presidente parece disposto a aceitar o pedido. Com efeito, o Flamengo simplesmente não parece sair do lugar. E, pior, acaba de protagonizar mais um vexame, ao ser goleado em Curitiba pelo Colorado-PR (0-4). O rubro-negro, que não sofria um placar elástico há mais de um ano, já sofre a segunda goleada em apenas três meses de trabalho. É algo inaceitável, que precisa ser estancado.

E dessa vez Bría, desnorteado, abusou do direito de errar. Improvisou o lento Rondinelli na lateral-direita. Barrou Peu, justamente o melhor jogador do Flamengo no campeonato. E, para completar, promoveu o retorno de Carpegiani, gordo e completamente fora de forma, à equipe. Como o que inicia errado normalmente se agrava, Rondinelli ainda saiu lesionado durante o jogo, o que fez Bría recorrer a nova improvisação, dessa vez com o novato Mozer. Completamente desfigurado, o time foi presa fácil para os paranaenses. Massacrado pelas críticas, Bría resolve dar um ponto final à sua participação como treinador.

Acertam que Bría seguirá no comando até que o clube encontre um substituto. E o caso não vaza à imprensa. Dias depois, o Flamengo anuncia a contratação de Dino Sani, renomado treinador que vem de vitoriosos trabalhos no Uruguai e no México, e acaba de se desvincular de seu clube, o Puebla-MEX. Dino é apresentado e iniciará seus trabalhos na Terceira Fase. Antes disso, Bría precisa classificar o Flamengo em uma chave que, com a goleada em Curitiba, ameaça se complicar.

O Flamengo já havia vencido o Atlético-MG no Maracanã (2-1, em outra rara boa atuação) e empatado, fora de casa, com o Uberaba-MG (1-1, com um controverso gol de Nunes). Após o desastre contra o Colorado, um festejado empate com o Atlético no Mineirão (0-0), já com os jogadores da Seleção de volta. Para depender de si, o rubro-negro precisa vencer as duas partidas que restam no Maracanã, contra Uberaba e Colorado. Parece simples.

Mas os dois jogos se revelam dramáticos. O Flamengo não vê a cor da bola no primeiro tempo contra o Uberaba e desce pro vestiário com um humilhante 0-2 luzindo no placar. Todos os onze jogadores, sem exceção (Zico inclusive), são vaiados. O time volta mordido, voando, clamando por sangue e, em apenas 25 minutos, já está vencendo por 4-2, placar que se mantém até o final. Agora é vencer o Colorado e ratificar a vaga.

Mas o Flamengo é atrapalhado por um infantil desejo de vingar a goleada no Paraná. Nervosos, os jogadores perdem oportunidades fáceis e caem na armadilha do matreiro time paranaense, repleto de jogadores rodados e manhosos. Num contragolpe no final da Primeira Etapa, o Colorado abre o placar. Tranca-se num ferrolho. A classificação está ameaçada. O time precisa ao menos empatar. Mas o goleiro Joel Mendes começa a defender sistematicamente tudo. O relógio vai correndo, célere, até que, a pouco menos de 15 minutos do fim, Zico, em duas jogadas relâmpago e assustadoramente semelhantes, vira o jogo a 2-1, para alívio da torcida.

Após o apito final, o torcedor, talvez querendo demonstrar um reconhecimento ou mesmo revelar-se cruel em sua ironia, grita entusiasticamente o nome de Bría, que ali se despede. Emocionado, o treinador acena em retribuição. Vai voltar às Divisões de Base, seguir seu emprego fixo no clube, onde permanecerá até se aposentar. Sua passagem terá sido errática, plena de intempéries, infestada de obstáculos, muitos dos quais custaram sua integridade física, mas, ao frigir dos ovos, o paraguaio entrega ao seu sucessor um Flamengo classificado e em primeiro lugar. Cumpre sua obrigação.

Ao paraguaio e, por que não, ao torcedor, é o que, no fim, interessa.