quarta-feira, 17 de abril de 2019

Alfarrábios do Melo

É difícil conter a euforia.

Agora apenas uma hecatombe de proporções bíblicas é capaz de tirar esse título do Flamengo. O adversário precisa devolver a chinelada de 3-0 aplicada no primeiro jogo da Final, um chocolate tão contundente que fez registrar torcedores do rival abandonando o Maracanã ainda na primeira etapa (em que o placar foi construído), ao som de “il, il, il, silêncio no canil”. Uma atuação de gala, que provocou reações entusiasmadas de público e crítica, unânimes em constatar a tibieza do escore, que por pouco não se revestiu de uma goleada de almanaque.

“O Flamengo já é campeão”.

A opinião é compartilhada como mantra por personalidades como Carlos Alberto Parreira, Zagalo, Sócrates que, mais do que reconhecerem o favoritismo rubro-negro, já cravam a decisão como encerrada. “Próximo jogo será mera formalidade”. Posição endossada até mesmo por torcedores ilustres do rival, como o Prefeito do Rio de Janeiro, que, resignado, vaticina: “Já era”.

Mesmo a imprensa, que ao longo dos últimos meses tem se referido aos comandados por Carlinhos com notável má vontade (“esse time não está à altura da torcida”), negando aos rubro-negros os elogios que escoavam fartos a outros clubes da cidade, mesmo a crônica, enfim, parece se render, oferecendo ao Flamengo comparações com a Holanda de Rinus Michels ou o Milan de Arrigo Sacchi. Os jornais dedicam páginas e mais páginas com perfis das principais peças flamengas, já documentando algo que parece sem volta. O Flamengo é o campeão e pronto.

O retrospecto também não traz boas notícias ao rival, que não consegue derrotar o Flamengo por três gols de diferença há nove anos. Pior, não vence o rubro-negro há OITO partidas (o que torna incompreensível o amplo favoritismo a ele dedicado antes da decisão).

E, como uma espécie de cereja na torta, ainda há a pesada crise interna que rebenta no vestiário adversário, depois que o seu principal jogador participa de um churrasco de confraternização com o centroavante do Flamengo no dia seguinte ao chocolate, à guisa de pagamento de aposta. A coisa não cai nada bem na cidadela contrária, o jogador é afastado e o caso racha o vestiário. É um time desunido e desmotivado que o Flamengo irá enfrentar no domingo próximo.

Difícil conter a empolgação.

A Diretoria do Flamengo “sente o golpe”. Começa a programar com detalhes as festividades do título. Quer abrir o Sambódromo para sua torcida. Pensa em promover, ainda no gramado do Maracanã, “algo inesquecível”. Alguns dirigentes já projetam nos jornais o que irão fazer com o prêmio do título. Contratações, renovações de contrato, essas coisas.

Naturalmente, os jogadores mais jovens entram na onda. “Acho que torcedor deles no Maracanã domingo só vai ter quem acredita em Papai Noel”, o centroavante crava. “Nada, eles têm que ir em peso. Aí aumenta a renda e o nosso bicho também”, o outro zagueiro atiça. Mesmo o experiente e vencedor goleiro, que tem procurado manter a prudência, escorrega em uma ou outra declaração exaltando “o segredo da nossa conquista”. Há relatos de ligeiros excessos de jogadores que teriam “exagerado” nas festividades da folga.

Treino na Gávea. Final das atividades, um torcedor se aproxima. Carrega uma faixa. Nela, a celebração do título ainda por conquistar. Sorridente, o fã aborda Júnior, o Maestro Júnior, o craque, a referência do trabalho de reconstrução rubro-negra. Quer um autógrafo no cintilante pedaço de tecido vermelho. Júnior esquiva-se, contrito. E, num tom de voz mais grave e elevado que o normal, vocifera, para que todos ouçam:

“Aqui não, parceiro. Ninguém aqui ganhou nada. Não tem motivo nenhum pra festa. Faz o favor de jogar isso fora e respeitar nosso trabalho. Valeu.”

Alguns jogadores se entreolham.

Certos títulos se ganham, principalmente, fora de campo.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Um domingo qualquer...


SRN, Buteco.

No nosso cotidiano, existem certas coisas que acontecem com razoável frequência e se tornam quase certezas.

Por exemplo: digamos que você perdeu algo, um documento, u,a chave, qualquer coisa que precise naquele momento.Abrimos gavetas, reviramos caixas e envelopes e nada daquilo aparecer.

Até o momento em que nos damos por vencidos e procuramos outro modo de resolver a questão.

Eis que, passado algum tempo, sem sequer se lembrar mais do assunto, você encontra o que 
procurava com tanto afinco e precisão , geralmente num lugar inusitado, como o forro do sofá ou o quebra sol do seu carro...

E o que isso tem a ver com o Flamengo?

Desde, digamos, 2015, sonhamos, perseguimos, desejamos que o clube se torne hegemônico.

Bons resultados financeiros e estruturais que não se espelharam dentro de campo.

Sequer conseguíamos  suplantar os rivais regionais com autoridade e sem contestação.

Até que, num domingo qualquer, sem maiores expectativas, aconteceu.

O Flamengo disputou um jogo, uma final de campeonato, com o seu maior rival regional.

E dominou a partida em TODOS os aspectos.

Foi superior taticamente, tecnicamente a diferença é abissal, fisicamente se impôs com sobras.

Superou a clamorosa arbitragem pró aliados da Federação,e nem mesmo no jogo mental, das provocações, houve alguma altercação adversária, tão comum em um passado recente.

O que se viu foi um jogo em que o Flamengo não foi ameaçado em nenhum momento, não se viu em qualquer parte do jogo algum resquício de pressão adversário.

Em que se pese o adversário alquebrado pela sua própria soberba e incompentencia, foi bom, foi prazeroso assistir tamanha superioridade.

Que siga aumentando daqui pra frente.






                     Se já não fizemos, ainda iremos fazer gol no seu time. Por favor, aguarde sua vez....

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Finais de Estadual x Libertadores: Dados e Fatos

Salve, Buteco! No primeiro confronto entre o time A do Flamengo e o Vasco da Gama em 2019, o Mais Querido se impôs sem dar chance a questionamentos, interrompendo uma incômoda série de seis empates consecutivos entre as equipes. No primeiro tempo, repetiu-se a estratégia dos 45 minutos iniciais da semifinal contra o Fluminense, e mais uma vez o time desceu para o vestiário sem movimentar o placar, a despeito de sua nítida e acachapante superioridade em relação ao adversário. Gosto muito da ideia, mais uma entre várias boas ideias que Abel Braga tenta implementar no Flamengo, porém ainda pecando na execução. Por sinal, foi o próprio Abel que reconheceu na entrevista coletiva pós-jogo que as "opções" do time na primeira etapa, referindo-se à última jogada antes da finalização, vinham sendo "horríveis". Apesar disso, acho que a movimentação entre Everton Ribeiro, De Arrascaeta, Bruno Henrique e Gabigol é promissora. Gosto tanto do Everton Ribeiro, como do uruguaio centralizados no meio de campo, porém acho que Gabigol ainda não se encontrou pela ponta. Tenho a impressão que renderá melhor jogando preferencialmente no comando do ataque.

No segundo tempo, o Flamengo melhorou e novamente teve acachapante percentual de posse de bola, dessa vez conseguindo ser efetivo na construção das jogadas e na finalização. Foram três gols legitimamente marcados, porém apenas dois valeram, e isso sem contar a polêmica do pênalti não marcado sobre Diego. No frigir dos ovos, o Vasco da Gama pode agradecer ao VAR amigo por não ter tomado uma goleada. Foi a atuação mais convincente do Flamengo do ano (ao menos para mim), a ponto da crônica esportiva afirmar que Abel "achou o time", ou seja, o que todo mundo via, mas ele relutou um bocado para admitir. Os fatos e a lógica finalmente vão se impondo.

Dificilmente o título escapará no próximo domingo. Abel, na entrevista coletiva pós-jogo, disse ter alertado o grupo que nada está ganho e pediu cuidado com as redes sociais. Contudo, o que mais me preocupa não é qualquer risco à iminente conquista do 35º título estadual, e sim o rendimento do time na quarta-feira seguinte, em Quito, contra a LDU.

***

A tabela abaixo mostra o que aconteceu em todos os anos do Século XXI nos quais o clube conquistou o título estadual intercalando os jogos com competições eliminatórias, quais sejam, Copa do Brasil e Copa Libertadores da América. Vale lembrar que, como o Mais Querido ainda não perdeu uma final sequer do Estadual neste século, estamos falando do que aconteceu todas as vezes nas quais o clube chegou à final desse torneio (e foi campeão, portanto). Logo, pela evidente diferença de contexto, não foram considerados os anos de participação na Libertadores nos quais o clube não disputou finais do Estadual, quando os jogos da Libertadores se alternaram com outras fases do próprio Estadual ou de outras competições: 2002 (Rio-São Paulo e Taça Guanabara), 2012 (Taças Guanabara e Rio) e 2010 e 2018 (Taças Guanabara e Rio e Campeonato Brasileiro).

Eis a tabela:

Ano
MDS
FDS
MDS
FDS
MDS
2000
Sem jogo
11/6 
Vasco da Gama
3x0
1º Jogo
Final Estadual

Sem jogo
17/6
Vasco da Gama
 2x1 
2º Jogo
Final Estadual
Bicampeão
21/6
Santos
0x4
Copa do Brasil
4ªs de Final (Ida)
Maracanã
Eliminado no segundo jogo (2x4 - Vila Belmiro)
2001
16/5
Coritiba
2x3
Copa do Brasil
4ªs de Final (ida)
Curitiba
Couto Pereira
20/5 
Vasco da Gama
1x2 
1º Jogo 
Final Estadual

23/5
Coritiba
1x1
Copa do Brasil
4ªs de Final (volta)
Maracanã
Eliminado
27/5
Vasco da Gama
3x1
2º Jogo
Final Estadual
Tricampeão
(gol do Pet)
Sem jogo
2004
Sem Jogo
11/4
Vasco da Gama
1x2 
1º Jogo 
Final Estadual


14/4
Santa Cruz
1x0
Copa do Brasil
3ª Fase (Ida)
Recife
Arruda
18/4
Vasco da Gama
3x1
2º Jogo
Final Estadual
Campeão
21/4
Grêmio
0x0
1ª Rodada
Campeonato
Brasileiro
Porto Alegre
Olímpico
2007
Sem jogo
29/4
Botafogo
2x2
1º Jogo
Final Estadual
2/5
Defensor
0x3
Libertadores
8ªs de Final (ida)
Montevidéu
Centenário
6/5
Botafogo
2x2 (4x2 Pênaltis)
2º Jogo
Final Estadual
Campeão
9/5 
Defensor
2x0
Libertadores
8ªs de Final (Volta)
Maracanã
Eliminado
2008
23/4
Cel. Bolognesi
2x0
Libertadores
Fase de Grupos
6ª Rodada
1º Colocado
27/4
Botafogo
1x0
1º Jogo 
Final Estadual
30/4
América
4x2 
Libertadores
8ªs de Final (ida)
Cidade do México
Azteca
4/5
Botafogo
3x1
2º Jogo
Final Estadual
Bicampeão
7/5
América
0x3
Libertadores
8ªs de Final (Volta)
Maracanã
Eliminado
2014
2/4
Emelec
2x1
Libertadores
Fase de Grupos
5ª Rodada
George Capwell
Guayaquil
6/4
Vasco da Gama
1x1
1º Jogo 
Final Estadual
9/4
León
2x3
Libertadores
Fase de Grupos
6ª Rodada
Maracanã
Eliminado
13/4
Vasco da Gama
1x1
2º Jogo 
Final Estadual
Campeão
Sem jogo
2017
26/4
Atlético/PR
1x2
Libertadores
Fase de Grupos
4ª Rodada
Arena
da Baixada
Curitiba
30/4
Fluminense
1x0
1º Jogo
Final Estadual
3/5
Univ. Católica
3x1
Libertadores
Fase de Grupos
5ª Rodada 
(1º Lugar)
Maracanã
7/5
Fluminense
2x1
2º Jogo
Final Estadual
Campeão
10/5
Atlético/GO
0x0
Copa do Brasil
8ªs de Final (Ida)
Maracanã


Como se vê, o retrospecto na Libertadores e na Copa do Brasil, quando os jogos são intercalados com a final do Campeonato Estadual, não é favorável ao Flamengo. Contudo, cada temporada tem sua peculiaridade. Apesar de 2007 e 2008 trazem na memória os títulos em cima do Botafogo, neles ocorreram, na minha opinião, as eliminações traumáticas no Maracanã e nos piores contextos possíveis, eis que, na teoria, os jogos de oitavas-de-final da Libertadores são ainda mais desgastantes do que os da fase de grupos, e naqueles dois anos houve longas viagens entre as duas partidas da final do Estadual.

Mas nem tudo deu errado, pois há exatos 15 anos, em 2004, quando nosso atual treinador, Abel Braga, estava no comando da equipe, o Flamengo passou muito bem por Vasco da Gama e Santa Cruz (Copa do Brasil), para em seguida empatar por 0x0 com o Grêmio no Olímpico, pelo Campeonato Brasileiro de pontos corridos, o que está longe de ser um mau resultado.

O exemplo mais próximo é 2017, que considero ser bastante peculiar. Houve até uma vitória (3x1 sobre o Universidad Católica) entre as duas partidas da final, levando o clube à liderança de seu grupo na Libertadores. Contudo, o empate por 0x0 no Maracanã contra o Atlético/GO, que sucedeu o título em cima do Fluminense, não pode ser considerado um bom resultado, embora deva ser ressaltado que, na ocasião, Zé Ricardo escalou um time misto. O time titular só veio a jogar uma semana depois, contra o Atlético/MG, no Maracanã (1x1), e em seguida embarcou para Buenos Aires, onde ocorreu, nos últimos minutos, o desastre do Nuevo Gasómetro, de triste lembrança para a Nação Rubro-Negra. Naquela altura, porém, o Estadual já havia acabado dez dias antes.

***

Voltemos então a 2019. Fui negativamente surpreendido pela fraca atuação da LDU no Maracanã, quando o Mais Querido venceu por 3x1. Cambaleando no Campeonato Equatoriano, parece que a Liga, que despontou como favorita, não está com a mesma força que demonstrou em outras temporadas, inclusive em 2018, quando conquistou o título nacional. Contudo, Libertadores é Libertadores, e a competição está repleta de exemplos de clubes que se recuperam nas rodadas finais da fase de grupos. Além disso, o Flamengo parece que "adora" ser uma espécie de "viagra alheio". Portanto, até para evitar o perigoso "salto alto", vale a pena dar uma olhada no retrospecto dos equatorianos como mandantes no Estádio Rodrigo Paz Delgado (Casa Blanca ou La Maravilla de Ponciano).

Edição
Vitórias
Empates
Derrotas
Algoz
Gols Pró
Gols Contra
1999
4v.
-----
-----
-----
9
2
2000
----
1e.
2d.
Olimpia
2
5
Corinthians
2004
3v.
----
----
----
12
3
2005
3v.
1e.
----
----
6
3
2006
4v.
----
1d.
Vélez Sarsfield
16
4
2007
2v.
1e.
----
----
7
3
2008
Campeã
4v.
3e.
----
----
17
5
2009
1v.
1e.
1d.
Sport Recife
6
6
2011
3v.
----
1d.
Vélez Sarsfield
10
2
2013
1v.
----

----
1
----
2016
1v.
----
2d.
Toluca
5
5
Grêmio
2019
1v.


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2


Total
41j.
27v.
7e.
7d.
93 gols pró
38 gols sofridos

Muita seriedade, Senhoras e Senhores. O Flamengo não terá moleza e o histórico nos anos de título Estadual recomenda muito foco e estratégia.

***

Nossos adversários nas decisões das próximas duas semanas terão calendários bem diferentes, se comparados entre si. Enquanto a LDU, tal como o Flamengo, jogou ontem um clássico (El Nacional, 2x2), folgará no meio de semana e disputará outro clássico no próximo final de semana (Emelec, em Guayaquil), o Vasco da Gama alternará as finais do Estadual com os confrontos contra o Santos de Jorge Sampaoli pela 4ª Fase da Copa do Brasil. O primeiro jogo será na Vila Belmiro, na próxima quarta-feira (17/4), e a volta na quarta-feira seguinte, em São Januário (24/4), mesma noite em que o LDU e Flamengo se enfrentarão em Quito.

Ao menos dessa vez, o adversário da final do Estadual não levará vantagem por conta do calendário. Muito pelo contrário, está em nítida desvantagem. Já a LDU tem uma pequena vantagem em relação ao Flamengo por jogar no sábado contra o Emelec e não fazer viagem tão longa, tendo menos desgaste e mais tempo para se recuperar. Além disso, a altitude, para os equatorianos, é uma arma.

***

A estratégia (escalações, time A, B ou misto e em quais jogos) eu deixo para os estimados amigos do Buteco.

A palavra está com vocês.

Bom dia e SRN a tod@s.