segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Abel e a Fatalidade

"Beautiful Boy (Darling Boy)"
Double Fantasy; 1980, Geffen Records
Salve, Buteco! Outro dia por mero acaso escutei novamente, depois de muitos anos, essa música composta por Jonh Lennon em sua carreira solo. Como de costume, a maravilhosa letra continha ao menos uma frase daquelas para emoldurar e refletir bastante a respeito de nossas vidas. Traduzindo, quer dizer mais ou menos o seguinte: "Vida é o que acontece contigo enquanto está ocupado fazendo outros planos." Ah, a vida e sua imprevisibilidade... Ao me recordar de vários acontecimentos da minha vida marcados pelo imprevisto, acabei me dando conta que em muitos (quase todos) os casos o que aconteceu em seguida (de bom e de ruim) teve influência no que eu havia feito antes. Complicado para entender? Nem tanto. Um defeito inesperado no carro ou um vazamento imprevisto no apartamento terão maiores ou menores consequências em meu orçamento a depender do quão organizado e contido sou com minhas finanças. A oportunidade de emprego que eu nem imaginava poderá ser ou não aproveitada a depender do quanto fui persistente e cuidadoso com minha formação. Minha empresa terá maior, menor ou até nenhuma responsabilidade pela morte de um funcionário durante o serviço a depender das condições de trabalho que foram disponibilizadas.

***

Contratações de impacto do meio para frente e promessa de outros investimentos na defesa, ao que parece, dependendo apenas do novo patrocínio master, o qual, alguns dizem, estava bem encaminhado, em vias de ser fechado e anunciado. Apesar da defesa causar preocupação, o cenário era de otimismo, e não poderia deixar de ser diferente, até porque nesse início de ano o calendário é bem menos severo.

Mas aconteceu a tragédia e, com ela, como não poderia deixar de ser, veio a crise.

Administrativa e financeiramente, o clube parece preparado para lidar a crueldade do destino, tendo ou não sido (muito ou pouco) negligente. Já no futebol profissional, apesar do evidente desequilíbrio em investimento no elenco entre os setores defensivo e de criação/ofensivo, o plantel de jogadores está acima das médias brasileira e sul-americana. Um bom treinador não teria dificuldades para bolar um sistema de jogo que permitisse ao clube ser competitivo em todos os torneios que disputará na temporada.

Ah, o treinador... Tem esse pequeno detalhe...

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Desde 2016 o Flamengo tem por filosofia de jogo valorizar a posse de bola. É bem verdade que muitas vezes o "efeito arame-liso" se manifestou, prejudicando principalmente (na minha opinião) o desempenho em competições eliminatórias. É que também penso que, no Campeonato Brasileiro/2018, o Flamengo provavelmente teria conquistado o título se o houvesse priorizado.

Mas não se deixem perder na polarização sem sentido entre "jogo propositivo x jogo reativo". Até 2018, o Flamengo praticou as duas modalidades, a depender do contexto. Em 2017, por exemplo, os treinadores brasileiros adotaram curiosa estratégia tática de ceder a posse de bola ao adversário jogando como mandante, invertendo-se a equação como visitantes. Foi uma tendência, que ainda hoje tem várias ocorrências na prática. 

O Flamengo de Zé Ricardo cansou de jogar dessa forma e até mesmo em um único jogo pode-se encontrar exemplos exitosos da utilização de ambas as estratégias. O melhor exemplo está nos gols da vitória (2x1) sobre o Atlético/PR pela Libertadores/2017: no primeiro gol, Trauco pega a defesa paranaense desprevenida com um longo lançamento, bem aproveitado por Guerreiro; já no segundo uma troca de passes bem construída encontra Diego bem posicionado para ampliar a contagem.

São múltiplos os exemplos. Com Barbieri, o time decidiu jogos graças à esfuziante explosão de Vinícius Jr., em um jogo no qual foi muito pressionado por noventa minutos, como também com belíssimas jogadas construídas à base da troca de passes desde a própria grande área, como no Fla-Flu de Brasília. Ainda com Barbieri, na mesma partida o Flamengo conheceu o céu e o inferno, suportando massiva pressão do Grêmio e buscando o empate com grande percentual de posse de bola, até encontrar aquela jogada muito bem trabalhada que culminou na finalização de Lincoln.

Valorizar a posse de bola não significa abdicar do jogo reativo, muito menos da bola aérea. Sampaoli que o diga: em seu primeiro clássico, levou o São Paulo às cordas com a intensidade do jogo propositivo, mas o nocaute veio em dois lances, um de bola parada, outro de contra-ataque. Propor o jogo pode inclusive ser estratégia defensiva, como mostrou o Talleres na de Córdoba última quarta-feira, ficando com a bola e com isso impedindo o São Paulo de pressioná-lo. Saiu com a vaga após os noventa minutos, numa zebra para ficar na história das fases preliminares da Libertadores. 

Um time de ponta não precisa propor o jogo o tempo todo e nem em todos os jogos, mas em hipótese alguma pode abrir mão dessa estratégia, tanto mais no caso do Flamengo, que tem um elenco com jogadores de características muito mais propensas ao jogo ofensivo e propositivo. As circunstâncias de um jogo podem levar um time grande e forte a ser muito pressionado a maior parte dos noventa minutos, mas o ideal dificilmente será chamar o adversário para atacá-lo o jogo todo. Aliás, o Flamengo não tem sistema defensivo forte o suficiente para tanto.

O time que tem por filosofia valorizar a posse de bola tem muito mais condições de alterar circunstancialmente a estratégia e jogar de forma reativa do que o contrário.

***

Não deveria, mas ainda me surpreendo com o deslumbramento de profissionais que chegam ao Flamengo. É comum o sujeito encarar o contrato como a independência financeira e se considerar no topo da carreira, o centro das atenções. Acontece muito com atletas, mas acho mais pitoresco quando o fenômeno ocorre com treinadores, em tese pessoas mais experientes e menos suscetíveis ao deslumbramento. Atleta a comissão técnica e a diretoria podem enquadrar, mas e quando o próprio treinador viaja na maionese?

O que diabos pretende Abel? Não é minimamente defensável a ideia de migrar subitamente do Flamengo do último triênio para um time com as características do Palmeiras de Luiz Felipe Scolari. Ao tentar contrariar os fatos e retroceder no tempo, Abel piorou muito um cenário que só poderia ser negativo após a tragédia do Ninho.

É claro que dá tempo de resgatar o que foi feito entre 2016 e 2018 e é óbvio que, com o elenco atual, é possível, a partir desse marco, inclusive subir de patamar. Mas será que Abel enxerga o cenário da mesma forma? Pior: teria ele capacidade para executar essa ideia?

***

A palavra está com vocês.

Bom dia e SRN a tod@s.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Uma vez Flamengo, sempre Flamengo














Irmãos rubro-negros,




No jogo mais sofrido da história do Clube de Regatas do Flamengo, eu não poderia estar ausente. E o Buteco foi comigo.

Dez meninos, dez sonhos, dez rubro-negros. Os sonhos deles eram os nossos sonhos. 

Nossa torcida fez a mais linda homenagem possível.


Arthur Vinicius






Athila Paixão





Bernardo Pisetta






Christian Esmério






Gedson Santos






Jorge Eduardo






Pablo Henrique







Rykelmo de Souza Viana







Samuel Thomas Rosa





Vitor Isaías









Que Deus os tenha em sua Casa Celestial.




...




Abracos e Saudações Rubro-Negras.

Uma vez Flamengo, sempre Flamengo.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Flamengo x Fluminense


Campeonato Estadual/2019 - Taça Guanabara - 2ª Semifinal (Jogo Único)

FLAMENGO: Diego Alves; Pará, Rhodolfo, Rodrigo Caio e Renê; Cuéllar e Willian Arão; Everton Ribeiro, Diego e Bruno Henrique; Gabigol. Técnico: Abel Braga.

Fluminense: Rodolfo; Ezequiel, Digão, Matheus Ferraz e Marlon; Aírton e Bruno Silva; Luciano, Daniel e Everaldo; Yony González. Técnico: Fernando Diniz.

Data, Local e Horário: Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2018, as 20:30h (USA ET 17:30h), no Estádio Jornalista Mário Filho ou "Maracanã", no Rio de Janeiro/RJ.

Arbitragem: Rodrigo Carvalhaes de Almeida, auxiliado pelos Assistentes 1 e 2 Silbert Faria Sisquim e Michael Correa, bem como pelo Quarto Grazianni Maciel da Costa e pelos Assistentes Carlos Eduardo Nunes Braga (VAR), Diogo Carvalho Silva (AVAR) e Pathrice Wallace Correa Maia (Apoio VAR). Técnico: Cláudio José de Oliveira Soares.

Transmissão: Premiere FC (sistema pay-per-view) e PFCI (Premiere FC Internacional).

O Fla-Flu da dor

Não existe tragédia pior que esta. Meninos sendo mortos em um incêndio. Com o agravante traumático de ter acontecido com atletas do nosso clube. Não há nada que faça superar isto e o máximo que o clube fizer para as famílias destes adolescentes ainda assim será o mínimo. 

Poder público leniente, misturado com prática de uso do Centro de Treinamento bem inadequada na prevenção e combate de incêndio. Pode ser que o clube não tivesse consciência da facilidade que um container daqueles pega fogo. Eu mesmo confesso que não tinha. Mas sou um leigo, e não um profissional responsável por cuidar da integridade física dos jovens que acolho. Este olhar preventivo tem que abranger tudo. Segurança física, patrimonial, prevenção de incêndio, limpeza dos alojamentos, material de treinamento em ótimas condições, médicos, nutricionistas, transporte, escola, etc. Um complexo de atividades a serem exercidas sem descanso e com enorme critério.

A prevenção de incêndio falhou miseravelmente. Por mais que a causa do incêndio possa ter sido externa, por um suposto pico de energia que queimou um dos ar-condicionados. O fogo causado tinha que ser imediatamente combatido enquanto os nossos hóspedes fossem retirados rapidamente.  E seria se tivesse um adulto presente no alojamento com treinamento de combate a fogo, com extintor apropriado. Ou que, ao menos, algum sensor de fumaça tivesse causado um alarme que provocasse uma chegada rápida de adultos treinados ao local. Enfim, ficamos sabendo depois que as portas dos quartos travaram com o calor e as janelas eram fechadas com grade, o que também impediram o escape. Tudo isto, convenhamos, para um olhar treinado na prevenção de incêndio teria sido sanado anteriormente, ao menos com a inclusão de procedimentos técnicos de prevenção.

Mas o Flamengo não o fez. Embora todos (ou a maioria) os demais clubes parecem apresentar condições se não iguais, piores que a do Flamengo em termos de alojamento, a tragédia aconteceu conosco. Nas vésperas destes containers deixarem de ser utilizados como alojamentos. O que mostra o risco prévio que passamos.

Mas isto aconteceu agora. Verificou-se que os procedimentos técnicos do Flamengo eram inadequados, assim como os dos órgãos públicos, muito bem remunerados com nossos impostos extorsivos, que não cuidaram como deviam dos cidadãos presentes, e sim se bastavam a comunicar reservadamente ao clube eventuais multas que eram pagas e tudo ficava por isto mesmo.

Nesta roda de erros, de todas as partes, ficamos nós, arrasados e ligados a estes meninos para sempre.


Mas hoje tem jogo. A torcida, traumatizada, irá a partida também para prestar homenagens aos meninos. Em meio a isto, o Flamengo de Abel se prepara para enfrentar o Fluminense, treinado por Fernando Diniz, que é uma espécie de Sampaoli "wanna be" ainda. Honestamente, tudo para mim ainda é dor e tristeza. Não sei como os jogadores terão cabeça para este jogo pois treinam no Ninho do urubu onde a tragédia teve seu endereço. Tomara que vençam como parte desta homenagem aos garotos. 


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Alfarrábios do Melo


Uma tarde qualquer no Centro do Rio.

Arandir caminha apressadamente em direção a uma agência bancária, onde irá penhorar uma joia. Subitamente, presencia o atropelamento de um desconhecido. Corre em direção à vítima, que agoniza. Tenta socorrer o moribundo, que somente encontra forças para sussurrar um derradeiro pedido.

E, atendendo à última vontade do morto, Arandir o beija.

A cena é presenciada por Amado Pinheiro, repórter policial de um desses jornais popularescos e sensacionalistas, que vê no incidente uma oportunidade. Amado convence o Delegado Cunha, velho parceiro, a interrogar Arandir. A seguir, conta em letras garrafais a história do beijo, enfatizando que ambos se conheciam. “Não foi o primeiro beijo. Não foi a primeira vez”. Pontua o aspecto lascivo do ato, afirmando que ambos mantinham uma relação homossexual.

Tem início um massacre. A notícia se alastra por toda a cidade. Arandir é achincalhado por todos, sendo defendido apenas por sua crédula e apaixonada esposa, com quem mantém um feliz casamento (em TODOS os aspectos) há menos de um ano. Ao lhe contar sobre os impropérios que escutou, Arandir ouve da esposa: “Por favor, quebre a cara de seus detratores. Vá lá e lhes dê na cara”.

As paredes de sua casa e o vidro de seu carro são pichados com letras garrafais: “VIADO”. Percebendo que o caso está rendendo, Amado Pinheiro prepara novos desdobramentos. Descobre que a viúva do atropelado tinha um amante, e a chantageia. Arranca dela um depoimento incriminando Arandir (“Eles estiveram lá em casa e tomaram banho juntos”). O sogro de Arandir, que lhe nutre um ódio irracional, afirma ter visto a cena, e carrega no suposto erotismo do ato.

No dia seguinte, o jornal “noticia” em sua primeira página: “Foi um crime passional. Arandir brigou com o amante e o empurrou em direção ao ônibus. Temos um pederasta assassino que deve ser justiçado.”

A barbárie se mostra conveniente a muitos. A Cunha, que vê a chance de desviar o foco de um recente escândalo em que teria maltratado tanto uma testemunha que a teria feito abortar. Amado vê a tiragem do jornal explodir (“claro que tenho provas. Digo, não tenho. Mas isso não importa.”). O sogro, que dá vazão a sua aversão por Arandir. E ao público, que encontra um bode em quem expiar suas frustrações. Catarse. (“o povo não quer perguntas. O povo quer um culpado”).

A história termina quando Arandir, após perder o emprego, a reputação, a credibilidade e a esposa, enfim perde a vida, depois de uma desconcertante reviravolta no enredo.

Essa é, em linhas gerais (abstraindo detalhes que, aqui, são irrelevantes), a história da peça “O Beijo no Asfalto”, escrita por Nelson Rodrigues em 1960.

Há certas obras que são atemporais.
* * *

Já vi vários desastres envolvendo o CR Flamengo. Assustado, vi o Plantão da Globo anunciar, num final de tarde, a morte de Coutinho. Ouvi de meu pai, tom grave, as notícias das mortes de Bosco e Figueiredo. Presenciei a cobertura da mais triste das Finais de Brasileiro, com torcedores despencando da marquise do Maracanã. Mas nenhuma, absolutamente nenhuma tragédia foi mais devastadora e mais cruel do que esse incêndio no Ninho do Urubu. Crianças.

Sou torcedor do Flamengo. A paixão pelo clube me ferve o sangue. Evidentemente, isso forma um viés de se posicionar ao lado dos “meus” em alguma lide. Flamengo Uber Alles, pregava Bastos Padilha. Eu juro que vou te apoiar no pior momento, canta nossa gente. Então, desde já me declaro privado de todo e qualquer átimo de isenção em qualquer assunto que diga respeito ao Flamengo. Como se fosse alguém da família.

Porém, a solidariedade não deve ser confundida com fanatismo. É preciso, diante de uma desgraça de tamanha amplitude, enxugar as lágrimas e buscar serenidade. Auto-crítica. Capacidade de entender, absorver, assimilar e, principalmente, aprender com os tombos e as quedas que se interpõem em nosso caminho.

É natural temos orgulho de nossas conquistas. No entanto, seja pelo nossa índole fanfa, seja pela grandiloquência que é afeta às coisas flamengas, gostamos de aumentar. De apregoar. De papagaiar. Treinávamos em um barrão, de repente temos o “melhor CT das Américas”. Que, dois anos depois, descobriu-se que não servia. E lá se vai erguer o “CT melhor que o do Chelsea”. Lá atrás, foi a “melhor piscina do Brasil”. Outro dia, a “academia mais moderna”. E coisa e tal, e tal e coisa.

Outro dia, o Ginásio Cláudio Coutinho pegou fogo. A Ilha do Urubu teve duas torres derrubadas. E agora, os garotos.

Atingimos mesmo esse tal nível de excelência?

* * *

Muita gente muito boa já tratou do assunto. Levantou, com seriedade, hipóteses e caminhos possíveis, linhas de investigação coerentes e afetas ao caso, com o qual se lidou com o cuidado e a sensibilidade requeridas em uma tragédia que suscitou, e ainda traz, tanta dor. Gente da imprensa e mesmo nas redes sociais. Não é difícil encontrar referências positivas na cobertura e na discussão desse desastre.

No entanto, é nas situações extremas que se depara com o que as pessoas têm a oferecer de pior. Mostrando que o espírito de Amado Pinheiro permeia, cada vez mais forte, nas almas de muitas redações, tem-se deparado com as mais estapafúrdias, delirantes e inverossímeis demonstrações de ódio, rancor, busca pelo caminho fácil do linchamento e do sensacionalismo que, ao nivelar por baixo, cobre com o véu da hipocrisia e da covardia a incompetência, o despreparo, a falta de aptidão para o exercício da profissão de informar.

O Flamengo é um culpado útil. Desvia o assunto. Tira a luz de outras questões potencialmente inquietantes. Enquanto se aponta o dedo para o Flamengo, que, por sua grandeza, naturalmente muitos amam odiar, alguns elementos e atores dessa e de outras tragédias vão sendo convenientemente ignorados.

E se segue desinformando. Deformando. Transformando a realidade ao bel-prazer de hienas, abutres e chacais que se banham no sangue, nas lágrimas e nos despojos das vítimas, aplacando a sanha de uma sociedade doente. Que pede mais e mais.

Antes de sair apontando o dedo ao sabor de preferências, amores e ódios, é necessário entender, apurar, buscar o que aconteceu. E isso dá trabalho. Requer esforço. Caráter. Espírito investigativo e ético. Respeito.

O que se quer de uma apuração, de uma investigação séria, é a resposta a uma e uma só pergunta. Respondida, emitamos os juízos de valor que se fizerem pertinentes. Sanada, que se puna e se responsabilize a quem de direito. Mas, enquanto essa pergunta chave não é superada, que retenhamos nossas ilações ao nosso íntimo. Por respeito às crianças que se foram.

Por que e como um incêndio em um alojamento no Ninho do Urubu matou dez pessoas?

Boa semana a todos,

PS – Não podia deixar de externar uma reação de gratidão às manifestações de solidariedade de clubes de todo o País e do Mundo. Em especial, a Vasco, Fluminense e Botafogo. É certo que, voltando a rolar a bola, tornarão as brincadeiras, as ofensas, o recalque, tudo de bom e ruim que nos move há décadas. Mas essa tragédia nos mostrou que, diante de algo maior, existe o respeito e o reconhecimento de que, acima de tudo, estamos irmanados dentro desse troço maluco que é o jogo de bola. Mostraram-se grandes. Como sempre foram em essência.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Reflexões em Luto

Tragédias como a da última sexta-feira costumam levar a reflexões a respeito do que somos, de onde viemos, para onde iremos após a morte e, por que não dizer, se existe algo pré-traçado por algum ente ou força. Sempre encontrei na palavra de Cristo, para mim o ser mais iluminado que já andou por esse planeta, o norte para as pessoas se inter-relacionarem. Ainda assim, nunca consegui me encaixar na maneira pela qual a maioria das pessoas a interpreta e aplica a religião em suas vidas. Há alguns anos tive a oportunidade de conhecer melhor as filosofias orientais. O taoismo explica o universo de uma maneira que pacificou muitas dúvidas que me inquietavam. A mim, é o que até hoje fez mais sentido. Tento esvaziar minha mente sempre que me percebo abraçando alguma premissa inquestionável, dos menores detalhes ao que para mim é mais complexo ou às vezes definido. Aprendi que a suprema euforia e a profunda tristeza são sentimentos próximos, irreais. De uma certa maneira, deixa a gente "menos emotivo", para o bem e para o mal. Mas o que são o bem e o mal senão a interpretação de fatos segundo as nossas próprias lentes, os nossos dogmas, a nossa visão, individual e restrita, de algo que é maior, multidimensional e infinito?

Desenvolvi a capacidade de ceder. É como dizem: o galho que não verga se quebra. Porém, mesmo convicto de que o certo é saber se renovar e que as certezas podem ser as paredes de uma prisão psicológica, mesmo achando que nada começa ou termina por aqui, e que esta vida é uma passagem, minhas limitações dificultam a compreensão da tragédia que vitimou os meninos. Talvez o sentido não seja compreender, mas aprender a superar e se posicionar diante do todo. Onde enxergo sofrimento, pode existir a libertação. Porém, as lágrimas definem o momento, e nem a mais bonita e profunda filosofia supera o pesar por ter sido tão curto, entre nós, o caminho daqueles dez jovens atletas rubro-negros.

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Tenho o futebol como uma válvula de escape. É como se fosse uma guerra simulada, com regras de disputa, na qual ninguém deveria se machucar. Uma permissão para darmos vazão a sentimentos às vezes primitivos, embora o propósito, talvez contraditório, seja o de promover a convivência sadia entre as pessoas. Na prática, contudo, atletas, dirigentes, torcedores, jornalistas e outros profissionais se desviam da proposta original e muitas vezes se ferem de maneira egoísta, disparando ódio e intolerância uns contra os outros.

Até que a tragédia nos une novamente.

Era pra ser apenas diversão, mas o futebol se tornou uma mera repetição de outros setores da vida. Superado o luto, as pessoas voltam a enxergar apenas o que querem, com os medos e feridas determinando suas ações.

Deveria acontecer o contrário.

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O torcedor do Flamengo aprendeu a ter zelo pelo clube; a valorizar vetores como uma gestão cidadã, saneada e profissional, assim como a relação sadia com funcionários e atletas. Voltou a ter orgulho do desempenho e das revelações da base, a sentir o gosto de disputar os títulos mais importantes. Puro DNA rubro-negro. O Ninho do Urubu é o hoje o maior símbolo da nossa autoestima. Com certeza queremos mais e criticamos certa hesitação do clube em adotar postura mais competitiva dentro das quatro linhas, mas ninguém o imagina retrocedendo ao cenário do início do Século XXI.

É difícil aceitar que logo o clube que consolidou essa fantástica mudança cultural, infelizmente não reconhecida como deveria pela confusa imprensa esportiva brasileira, passou nos últimos doze meses por situações como o desmoronamento de uma torre de iluminação do estádio da Ilha do Urubu e, nos últimos dias, a tragédia do Ninho do Urubu, logo no Ninho do Urubu. Logo o clube que mais investe na formação de atletas no país, talvez nas três Américas.

Dizem que a crise é a força-motriz do crescimento. O tempo forçará o Flamengo olhar para dentro de si, possivelmente até por uma investigação interna, e tentar encontrar explicações e respostas para o que ocorreu. Parece-me claro que, para prosseguir no caminho do crescimento, o clube terá que aprender a lidar melhor com o pleito eleitoral e a possibilidade de mudança de poder a cada triênio.

Nenhuma disputa justifica deixar de lado os fantásticos avanços que conquistamos.

Bom dia e SRN a tod@s.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

10 crianças

Texto do meu amigo Ricardo Amorim

https://twitter.com/Ricardo_Amorim

Perdemos dez crianças. Dez meninos que estavam sob a nossa responsabilidade. Este é o fato que mancha para sempre a nossa história e nos faz chorar. Sentimos hoje uma dor que vamos continuar sentindo amanhã. E depois, por muito tempo ainda. Exibimos agora uma ferida que ficará exposta por anos e só cicatrizará no dia em que tivermos todas as respostas. Que talvez nunca cheguem... A partir do 8 de fevereiro de 2019, nós rubro-negros passamos a viver à sombra dessa enorme tragédia. Perdemos dez crianças. O que vamos fazer agora? 

Perdemos dez crianças sob nossa responsabilidade. Reconhecer isso não é gesto de humildade, é uma obrigação moral da instituição. Não há justificativas ou desculpas possíveis. Perdemos dez crianças. O que fazer agora? Ao contrário do que deseja a sanha punitivo-vingativa das redes sociais, o Flamengo não vai acabar nem se imolar em praça pública. O Flamengo é muito mais e muito maior do que uma dúzia (ou mais) de indivíduos que certamente terão sua culpa demonstrada no curso das investigações e dos processos que virão. 

Perdemos dez crianças. Deve haver punição aos responsáveis, proporcionais à sua participação e contribuição para o desfecho trágico. Tudo obedecendo ao devido processo legal, com amplo direito à defesa e presunção de inocência. Há raiva, indignação e dor, muita dor. Nós rubro-negros compartilhamos desses sentimentos e, acreditem, nosso sofrimento é maior. Não queiram estar no nosso lugar. Nós perdemos dez crianças.

O que fazer? Repito a pergunta porque ela não me sai da cabeça desde que fui despertado pela notícia terrível. Nada trará de volta os nossos meninos, como dói escrever isso. E agora? O primeiro e óbvio passo é amparar as famílias, prestar assistência médica, psicológica, moral e financeira. O segundo é honrar a memória dos “nossos dez”. Todos eles devem ser lembrados diariamente e para sempre na existência em vermelho e preto. Não apenas como símbolos de uma tragédia para prevenir outras, mas também como exemplos de amor por nossas cores e tudo o que elas representam. Desde sua fundação há quase 124 anos, o Flamengo tem sido uma escola. De remo, de futebol, de natação, de basquete, de ginástica. Também de valores, como esportividade, convivência e inclusão. Agora temos mais a aprender do que a ensinar. Perdemos dez crianças. Não podemos falhar com elas de novo. 

Este texto é dedicado aos Meninos do Ninho  

Arthur Vinicius
Athila Paixão
Bernardo Pisetta
Christian Esmério
Gedson Santos
Jorge Eduardo
Pablo Henrique
Rykelmo de Souza Viana
Samuel Thomas
Vitor Isaías