segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Flamengo x São Paulo: Breve Histórico e Realidade Atual


Salve, Buteco! Durante o período de paralisação do futebol por conta da pandemia de COVID-19, publiquei neste espaço dois posts nos quais abordei o histórico e a perspectiva para o futuro dos clássicos regionais. O primeiro post tratou do "Clássico dos Milhões" (Flamengo x Vasco da Gama), enquanto o segundo tratou do Fla-Flu e do "Clássico da Rivalidade" (Flamengo x Botafogo). Em sequência a esses dois, publiquei o post "Rivalidades", no qual tentei olhar para o histórico e identificar os atuais e futuros maiores rivais nos clássicos interestaduais. Na ocasião, referi-me ao São Paulo Futebol Clube da seguinte maneira: "SãPaulorivalidade esportiva relevante, com finais de torneios nacionais e internacionais intermediários, porém morna entre as torcidas. Rola (ou já rolou) até "amizade" entre algumas organizadas, o que é absurdamente contraditório com o histórico de sérias divergências entre as Diretorias por conta da Copa União e da Taça das Bolinhas. Aliás, a torcida do Flamengo se ressente do Sport Recife, estranhamente “poupando” o São Paulo, o grande traidor do episódio. Confesso que não consigo entender. Rival matreiro e traiçoeiro no tapetão, ainda possui histórico de usar o estádio para pressionar adversários fora de campo. Acaso se recupere técnica e financeiramente, tem potencial para subir vários patamares na escala de rivalidadesÉ o rival contra o qual o Flamengo tem o pior retrospecto esportivo entre os grandes clubes brasileiros. Não seria hora de olhar com mais atenção para esse rival?"

Ora, ora. Será que eu estava adivinhando? Quis o destino que o Flamengo chegasse ao segundo confronto pelas oitavas de final da Copa do Brasil em séria desvantagem e, ainda por cima, vindo de goleada pelo Campeonato Brasileiro para o mesmo rival. Resolvi então, antes de falar a respeito do contexto e das perspectivas para o confronto da próxima quarta-feira, lembrar um pouco do histórico desse relevante clássico interestadual brasileiro.

Eis os números do confronto direto por década:

Década

FLAMENGO

Empates

SÃO PAULO

Retrospecto

Vitórias

Vitórias

Gols

Vitórias

Gols

1930

1v

10g

2e

3v

17g

1x3

1940

3v

18g

4e

4v

24g

4x7

1950

3v

20g

2e

7v

28g

7x14

1960

5v

20g

4e

4v

21g

12x18

1970

2v

6g

5e

1v

5g

14x19

1980

3v

10g

1e

3v

12g

17x22

1990

11v

35g

9e

11v

39g

28x33

2000

6v

35g

5e

12v

47g

34x45

2010

7v

20g

8e

7v

26g

41x52

2020

0v

2g

0e

2v

6g

41x54

Totais

41v

176g

40e

54v

225g

41x54


Dos números me vem uma certeza absoluta: desde o primeiro jogo do confronto, disputado no dia 1º de julho de 1933 na antiga "Chácara da Floresta" e vencido pelo adversário por estrondosos 3x7, o São Paulo não tira o pé dos confrontos contra o Flamengo. Mas qual seria o motivo para isso? Talvez a necessidade de autoafirmação do caçula entre os três gigantes paulistanos tenha se somado ao antigo e ainda atual desinteresse rubro-negro por determinados confrontos (esse é um deles; os confrontos contra o Grêmio em Porto Alegre, outro exemplo).

O certo é que, analisando os números do clássico por década, nota-se que nos anos 30, 50 e 2000 houve ampla vantagem em favor dos paulistanos. Nos demais, prevaleceu o equilíbrio, exceto por um detalhe, facilmente detectável quando se divide o número de gols marcados por cada equipe pela diferença entre o número de vitórias que cada uma obteve até aqui. O resultado, uma dízima de 3,7, reflete uma diferença de gols comum nas vitórias do São Paulo no clássico, como, aliás, ocorreu há pouco mais de duas semanas no confronto válido pela 38ª Rodada do Campeonato Brasileiro/2020. Já do lado rubro-negro eventos do tipo são bem mais raros.

Por outro lado, quando o Flamengo se mobiliza para os confrontos, prevalece o equilíbrio, inclusive nos placares, como demonstra o histórico pela Copa Libertadores, Supercopa dos Campeões da Libertadores, Copa Ouro Sul-Americana, Copa dos Campeões Regionais e, mais recentemente, Copa do Brasil.

***

Um  exemplo de mobilização rubro-negra ocorreu no dia 14 de dezembro de 2003, pela última rodada do Campeonato Brasileiro, em sua primeira edição no formato de pontos corridos. Naquele ano, o Flamengo de Júlio César, Felipe e Edilson terminou o certame na 8ª posição, a melhor do dificílimo período de 2001 a 2005, que marcou os piores desempenhos do clube na competição.

Já o São Paulo de Rogério Ceni fez uma boa campanha e terminou na terceira colocação. Era um clube muito bem estruturado, ao contrário do Flamengo, atolado em dívidas e vindo de dois anos consecutivos de árduas lutas para fugir do rebaixamento para a Série B. A confiança são-paulina era tão alta, em contraste com o baixo prestígio rubro-negro, que do lado do Morumbi, antes da bola rolar, começou a correr uma forte especulação de que o seu goleiro jogaria na linha no segundo tempo, de modo a aumentar os números de sua artilharia com a camisa tricolor.

Para quem duvida, a entrevista pré-jogo com o goleiro Rogério Ceni afasta qualquer margem para discussão:


Com a faca nos dentes, o Flamengo se impôs e venceu por 3x1 no Morumbi, acabando com qualquer conversinha de goleiro jogar na linha. Na ocasião, o meia Fernando Diniz disputou a última de suas doze partidas com a camisa rubro-negra.


A título de curiosidade: Fernando Diniz jamais perdeu um Flamengo x São Paulo. Como atleta rubro-negro, tem uma vitória, enquanto que, como treinador tricolor, soma duas vitórias e um empate.

***

O jogo da próxima quarta-feira requer forte mobilização rubro-negra. Acredito inclusive que ela ocorrerá. Contudo, é preciso ter frieza para identificar o complexo cenário atualmente vivido pelo clube em seu Departamento de Futebol. Os problemas físicos e de calendário a respeito do qual venho fazendo vários alertas (10 dias de férias pós-Estadual, semanas de treino sem comissão técnica titular, comissão espanhola chegando às vésperas do Brasileiro e surto de COVID-19) se juntaram e estão cobrando uma salgada fatura.

Não se enganem: classificar-se quarta-feira significará entregar o Campeonato Brasileiro nas mãos do São Paulo. Com três jogos a menos e eliminado das copas, o rival, time do coração do presidente da CBF, passaria a contar com semanas livres para treinos, enquanto o Mais Querido continuaria a ter que administrar três competições simultâneas e a falta de tempo para recondicionar fisicamente o elenco. Não é difícil constatar que, nesse cenário, resultados como o de ontem tenderiam a se repetir e o time apenas administraria uma vaga no G4 do Brasileiro, concentrando-se nas copas.

Isso não significa que a eliminação seria boa, até porque eliminação boa não existe, certo? Primeiramente, pelo aspecto financeiro. A Copa do Brasil é a competição que distribui as premiações mais altas. Além disso, por mais que surgissem algumas bem-vindas semanas de preparação, tanto o Campeonato Brasileiro, quanto a Copa Libertadores da América não são exatamente certezas para o Flamengo.

Contudo, em caso de eliminação rubro-negra, ninguém do lado de cá terá motivo para cortar os pulsos, pois é fato que, entre os aspirantes ao título, apenas o Atlético Mineiro teria a vantagem de se dedicar exclusivamente ao Campeonato Brasileiro e, até eventual eliminação prematura de um dos dois na Libertadores ou na Copa do Brasil, Flamengo e São Paulo estariam basicamente em igualdades de condições em frente ao insano calendário. Caberia ao Mais Querido buscar a diferença de pontos para os tricolores paulistas, que hoje é apenas potencial (três partidas a menos).

Como sabemos que o Flamengo não costuma agir de maneira tão fria e calculista, bem como que a tendência é sempre partir com tudo em todas as competições, deixando os resultados indicarem o caminho a ser seguido, resta torcer para que, na decisão de quarta-feira, haja um mínimo de racionalidade.

Mas o que quero dizer com isso?

***

O Flamengo pode se classificar na quarta-feira, mas acredito que as chances são pequenas, já que o adversário é favorito, pois vive um melhor momento técnico, físico e psicológico. Não se trata de um elenco ou mesmo de um time melhor, mas de estar atualmente em melhores condições, além de ter em seu favor a vantagem adquirida no Maracanã. É hora de reconhecer que o treinador Fernando Diniz tornou o São Paulo mais competitivo, o que é bem diferente de erigi-lo ao patamar dos treinadores estrangeiros que o Flamengo vem contratando ou sondando. Assisti aos confrontos contra Corinthians, Santos e Palmeiras pelo Brasileiro e não me recordo do Tricolor Paulista ter um desempenho em clássicos tão bom nos últimos anos. O São Paulo de Diniz tem se agigantado nesse tipo de confronto, o que é reflexo de uma boa preparação psicológica e, de certa forma, explica o que ocorreu nos três últimos confrontos contra o Flamengo.

Todavia, o time está longe de ser imbatível. Lanús e Fortaleza que o digam. Porém, será que o Flamengo, atual campeão brasileiro e sul-americano, e vice-campeão mundial, teria a frieza de se comportar de maneira tão humilde? O que mais me preocupa para a decisão de quarta-feira é o Flamengo não ter inteligência emocional para reconhecer que o adversário vive um melhor momento, até pelos problemas físicos que castigam o nosso elenco. Reparem que reconhecer essa realidade é bem diferente de não competir. É apenas ter estratégia. Partir pra cima com jogadores "baleados", voltando de contusão, com desequilíbrios musculares das mais diversas ordens, não me parece ser a melhor ideia.

Trocando em miúdos: espero que não sejam utilizados, em hipótese alguma, jogadores importantes que tenham risco de se contundir ou agravar pequenas contusões, comprometendo as campanhas no Campeonato Brasileiro e na Copa Libertadores da América. Que entrem em campo, portanto, apenas atletas que estejam em plenas condições físicas, pois, como historicamente sempre ocorreu, o adversário não tirará o pé do acelerador ao ver o Mais Querido a sua frente.

Será que é pedir muito? Concorda ou discorda? Qual estratégia você adotaria?

Bom dia e SRN a tod@s.