segunda-feira, 1 de junho de 2020

O Clássico dos Milhões por Década

Salve, Buteco! À medida que a economia começa a se movimentar para voltar a suas atividades, o futebol também dá seus primeiros passos para o retorno. Enquanto isso, continuamos a analisar o passado, mirando o futuro. Para o nosso bate-papo de hoje, escolhi lançar luzes sobre o Clássico dos Milhões, porém fazendo um corte dos confrontos por décadas. Nesse levantamento, considerei os mesmos jogos que normalmente são computados nas estatísticas do confronto direto entre os dois clubes. Excluí apenas os resultados de WO porque acho que o que vale é bola rolando.

Paralelamente aos números de vitórias, empates, derrotas e gols (marcados e sofridos), também computei os títulos oficiais vencidos pelos dois clubes, fazendo, em relação ao adversário, uma concessão para o Sul-Americano de 1948, título normalmente computado pelos rankings e levantamentos mais sérios, como, por exemplo, o Ranking Folha, que mostrei a vocês no post da semana retrasada. E dentre esses títulos, dando mais uma colher-de-chá para o adversário ao utilizar os números que seus torcedores consideram corretos, levantei ainda os títulos conquistados em confrontos diretos entre as duas equipes, conceito mais amplo do que o de "finais" e que, contudo, não computa jogos nos quais houve exclusivamente conquistas de turnos.

Desse levantamento, surgiu a seguinte tabela:


Década
FLAMENGO
VASCO DA GAMA
Retrospecto
Vitórias

Empates
Títulos Confrontos Diretos

Títulos
Vitórias e Gols
Vitórias e Gols
1920
7v
31g
10v
37g
7x10
5e
...
6 (2+4) x 3
1930
11v
54g
12v
57g
18x22
5e
...
7 x 6
1940
10v
66g
20v
81g
28x42
11e
1x0
10x10
1950
14v
67g
10v
57g
42x52
17e
1x1
14x15
1960
23v
58g
14v
50g
65x66
11e
...
17x16
1970
25v
73g
14v
55g
90x80
17e
3x2
22x19
1980
14v
35g
18v
37g
104x98
11e
5x5
30x23
1990
16v
51g
14v
50g
120x112
13e
6x5
37x31
2000
17v
54g
15v
55g
137x127
8e
10x5
46x34
2010
16v
40g
8v
34g
153x135
22e
11x5
53x37
2020
1v
1g
0v
0g
154x135
0e
11x5
55x37
Total
408 j.
155v
135v
155x135
120e
11x5
55x37

Os números mostram que, nas quatro primeiras décadas do confronto direto, houve predominância vascaína nos números gerais, porém apenas nas três primeiras o Vasco da Gama venceu mais vezes o Flamengo em cada década, eis que, a partir dos anos 50, iniciou-se a reação rubro-negra. Nas duas primeiras décadas, a vantagem cruzmaltina era pequena, espelhando um grande equilíbrio no clássico, porém nos anos 40, após o tricampeonato estadual rubro-negro, o famoso "Expresso da Vitória" deu ao Gigante da Colina a maior vantagem que historicamente já teve sobre o Mais Querido do Brasil. Essa vantagem foi construída durante o jejum rubro-negro, ocorrido entre os jogos disputados após o 4x3 pelo Torneio Relâmpago do Rio de Janeiro em 1945 e até os 2x1 pelo Torneio Municipal do Rio de Janeiro, em 1951. Foram 23 jogos, com 17 vitórias vascaínas e 6 empates.

Das cinco décadas nas quais esteve à frente no confronto direto, apenas nas quatro primeiras o Vasco da Gama venceu mais vezes o Flamengo, eis que, a partir dos anos 50, iniciou-se a reação rubro-negra, com a geração de Garcia, Tomires, Pavão, Jadir, Dequinha, Jordan, Evaristo, Joel, Rubens, Benítez, Índio, Dida, Paulinho, Esquerdinha e Zagallo, dentre outros. Aliás, o "Expresso da Vitória" existiu justamente no intervalo situado entre os dois primeiros tricampeonatos do Flamengo.



A reação iniciada na década de 50 foi consolidada nos anos 60, conforme já havia adiantado neste post do ano passado, graças especialmente a um time pouco lembrado, comandado por Silva, o ‘Batuta’, e Almir, o ‘Pernambuquinho’, que surrou seguidamente os cruzmaltinos, sem dó nem piedade.” Na ocasião, faltou mencionar nomes como Espanhol, Doval e Paulo Cézar Caju, este já na década de 70, que também tiveram importante participação nessa jornada.

Portanto, é importante frisar, o Flamengo reverteu a vantagem histórica vascaína antes da “Geração Zico”, que nos anos 70 veio para ampliar a então já existente liderança rubro-negra no confronto direto.

***

A década de 80 foi a única na qual, após os anos 40, o Vasco da Gama venceu mais vezes no confronto direto contra o Flamengo. Antes da partida de Zico para a Udinese, foram disputados 16 confrontos com grande equilíbrio, porém ligeira vantagem cruzmaltina de 6 vitórias, contra 5 rubro-negras e 5 empates, a qual acabou sendo ampliada no final da década, coincidindo com o final da “Geração Zico” e, a partir de 1988, a assunção de Eurico Miranda ao comando do futebol do Vasco da Gama, na condição de vice-presidente. Eurico, que como assessor da Presidência havia traído o Clube dos Treze em 1987, no episódio do cruzamento entre os módulos verde e amarelo, com pouco mais de um ano no cargo apresentou seu cartão de visitas tirando Bebeto do Flamengo.

Enquanto Antonio Soares Calçada cuidava do clube, Eurico Miranda cuidava do futebol e das relações com a CBF e a FFERJ. Essa aliança política resultou no melhor período do futebol vascaíno desde o “Expresso da Vitória”, traduzido em 5 títulos estaduais, 3 campeonatos brasileiros, 1 Libertadores e 1 Mercosul. Todavia, nos anos 90 a força vascaína não se concretizou no confronto direto com o Mais Querido do Brasil, o que acabou sendo um prenúncio do que estava por vir.

***

2000, o primeiro ano do Século XXI, marcou o canto do cisne da segunda era de ouro do futebol cruzmaltino, com o vice-campeonato do Mundial da FIFA e o título do campeonato brasileiro. A partir de 2001, o Gigante da Colina nunca mais foi o mesmo. Por que será?

Longe de ser um especialista no tema, arrisco indicar dois fatores que considero principais: primeiro, a entrada em vigor, no Brasil, da “Lei Bosman”, por via do artigo 28, § 2º da Lei 9615/98, a famosa “Lei Pelé”. O artigo 28, § 2º extinguiu o instituto do passe, porém só entrou em vigor três anos depois da publicação da lei, precisamente aos 26 de março de 2001, por determinação do artigo 92. Isso significa que o vice-presidente de futebol Eurico Miranda lidou com o binômio empresário/atleta durante a vigência do instituto do passe no futebol brasileiro, enquanto o presidente Eurico Miranda lidou apenas um ano e dois meses com essa realidade, passando a ter que encarar a figura do empresário FIFA e a "alforria" dos atletas em relação aos clubes. Conseguem perceber a diferença? A personalidade do controverso dirigente cruzmaltino jamais se adaptou aos novos tempos.

O segundo principal fator para a decadência vascaína, na minha modesta opinião, foi justamente a assunção de Eurico Miranda à Presidência do clube, e aqui chamo a atenção para o que considero o “grande detalhe” da mudança: com a saída de cena de Antonio Soares Calçada, Eurico passou a ocupar praticamente todo o espaço político do clube, dominando especialmente a presidência e a diretoria de futebol. Para quem quiser se aprofundar sobre o tema e os desmandos do falecido cartola, indico essa matéria escrita pelos jornalistas Diego Salgado, Pedro Ivo Almeida e Rodrigo Mattos.

O certo é que algumas datas ajudam a entender o verdadeiro marco histórico que esses fatos representaram no processo de decadência do Gigante da Colina, trazido pelo Século XXI: no dia 18 de janeiro de 2001, o Vasco da Gama venceu o São Caetano por 3x1 no Maracanã e se sagrou campeão brasileiro de 2000. Três dias depois, Eurico Miranda foi empossado para o seu primeiro mandato como presidente do clube.

Agora me digam: o que foi o futebol cruzmaltino desde então?

***

Se os contemporâneos escândalos da ISL e do Nations Bank causaram sérios prejuízos a ambos os clubes, acompanhando o equilíbrio no confronto direto entre eles na primeira década do Século XXI, na década passada, recém-encerrada, o Mais Querido ampliou bastante a sua vantagem. É fácil constatar o motivo: enquanto no Flamengo, entre o final da década 00 e o início da década 10, gestava-se o movimento “azul” que resgatou a essência do clube, devolvendo-o ao seu posto nato de liderança futebolística nos cenários nacional e continental, no Vasco da Gama travou-se a conhecida disputa política interna entre Eurico Miranda e a única pessoa que conseguiu romper o seu domínio político no clube: o ídolo e ex-atleta Roberto Dinamite.

Confrontado sobre esse período, o vascaíno tem uma resposta padrão: o valor pago pela Rede Globo ao Flamengo pela transmissão dos jogos do campeonato brasileiro; porém, bem sabemos que essa narrativa rasa não resiste à menor contra-argumentação. Primeiramente, após seguir o Flamengo na negociação de direitos de televisão fora do Clube dos Treze, cuja ruptura, lembrem-se, foi provocada pelo Corinthians, o Vasco da Gama fechou com a mesma Rede Globo antes do Flamengo.

Como alguém pode reclamar do contrato comercial de um rival, fechado posteriormente, se teve toda a liberdade para negociar e decidir quando e em quais termos (inclusive valores) firmaria o seu próprio contrato?

Além disso, convenhamos, o Flamengo não tem a menor relação com a política interna vascaína. Quem elegeu Roberto Dinamite, que negociou o contrato cruzmaltino? Aliás, os vascaínos não têm o hábito de olhar para as próprias mazelas do período: Dinamite, defenestrado por conta do contrato, dois rebaixamentos e alguns escândalos financeiros, levou o Vasco da Gama ao seu único título da Copa do Brasil (2011) e, na era dos pontos corridos, às melhores colocações do clube no campeonato brasileiro: vice-campeonato em 2011 e 5º lugar em 2012. Já sob a Presidência de Eurico, o clube foi uma vez rebaixado e só ficou duas vezes acima do 10º lugar da tabela, com o 6º lugar em 2006 e 7º lugar em 2017, conquistando apenas 3 títulos estaduais nesse longo período.

Novamente: o que o Flamengo tem a ver com as decisões dos sócios e torcedores vascaínos?

Para encerrar de vez o assunto, basta comparar o desempenho cruzmaltino com o de clubes que receberam bem menos dinheiro da Rede Globo na última década...

***

No início do texto destaquei que continuo analisando o passado, mas mirando o futuro. Deixo vocês, então, com a seguinte reflexão: a importância das pessoas certas nos lugares corretos.

Explicando: o presidente empresário que sabe “escalar” cada diretor para a função adequada; o vice-presidente de futebol que “entende de futebol” tratando apenas da pasta, tomando decisões dentro de limites estatutários e fiscalizado por uma gestão austera, qualificada, responsável e auditada pelas melhores empresas do mundo no ramo; o vice-presidente que foi dono de grande empresa de TV por assinatura e provedora de Internet negociando os contratos do setor; o treinador português que parece ter nascido para dirigir o Flamengo; os jogadores que parecem ter sido escolhidos por forças sobrenaturais para vestirem o Manto Sagrado, sendo cuidados pelo departamento médico que causa inveja pela estrutura e qualidade de seus profissionais; a torcida que se engajou, não pára de crescer e empurrou o clube para que isso tudo pudesse acontecer.

Parte disso demorou um pouco para acontecer, quando gente que não entende de futebol deu pitaco quando e onde não deveria. Daí resultou o erro do treinador que começou a mágica temporada de 2019. Corrigido o problema, agora tudo parece estar no devido lugar, ao contrário do que aconteceu no Vasco da Gama a partir do ano de 2001.

Quanto tempo durará esse fabuloso ciclo rubro-negro?

Bom dia e SRN a tod@s.