segunda-feira, 22 de abril de 2019

FOCO!!!!

Salve, Buteco! Erguida a taça de campeão estadual do Rio de Janeiro, edição 2019, uma espécie de obrigação que o clube nem sempre cumpre, o Flamengo está de volta ao mesmo lugar a que chegou a maioria das vezes nas quais conquistou esse mesmo título no Século XXI: com a faixa de campeão estadual no peito e com um jogo decisivo de Copa do Brasil ou Libertadores da América logo a frente. Veremos na quarta-feira se, em Quito, a história será escrita em outras cores, de preferência rubro-negras. Há algumas semanas atrás, neste post, escrevi sobre o contexto que leva o trio arco-íris a enfrentar Flamengo em melhores condições do que o restante da temporada. Para piorar, o Flamengo não tem boa relação política com a promotora do evento, que o persegue com as arbitragens mais cafajestes possíveis, além de privilegiar descarada e especialmente o Club de Regatas Vasco da Gama, sem dúvida o mais ressentido em relação ao Mais Querido do Brasil. Ainda assim, os fatos demonstram que a oposição terá que se reinventar para conseguir equilibrar forças com o Flamengo. O abismo é cada vez maior e mais profundo.

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Falando em ressentimento, se pararmos para observar com atenção, o Flamengo historicamente é sinônimo de frustração para o Vasco da Gama. Na teoria, o auto-proclamado "Gigante da Colina", único clube grande da Zona Norte do Rio de Janeiro, haveria de ser o mais popular, mas não é, por causa do... Flamengo. O Vasco da Gama, apesar de sua bela história no início do Século XX, tornou-se, ao longo dos anos, um clube fechado, inclusive para a imprensa; pouco democrático e ligado às mais baixas falcatruas esportivas, desde seu primeiro título brasileiro, em 1974, até os dias de hoje, em sua espúria aliança com a FERJ. Nas últimas décadas, sua popularidade advém, em maior parte, do antagonismo ao Flamengo do que de luz própria, o que lhe transforma em uma espécie coadjuvante de luxo em uma relação entre clubes grandes.

Já a popularidade do Flamengo, como sabemos, advém de sua relação com o povo, desde os primórdios dos treinamentos no Aterro, sem estrutura alguma, e por ter crescido, interna e externamente, mais democrático e acolhedor, aceitando alcunhas pejorativas como "urubu" e "favela" e transformando-as em marca própria, símbolos de inclusão e de como enfrentar com altivez e alegria as dificuldades da vida. A torcida vascaína surta com tanta leveza e descolamento do lado rubro-negro, disparando ofensas e cânticos racistas, homofóbicos e intolerantes, logo ela, que afirma "estar do lado certo da História."

Reconheçamos que nem sempre foi assim, pois a trajetória do rival ao longo do tempo realmente tem episódios admiráveis, a começar por ter precisado lutar para ser aceito pelos três rivais e ter sido o primeiro a empregar, em maior escala, atletas de todas as etnias ou cores de pele. Ainda por cima, construiu seu histórico e importante estádio graças a contribuições dos torcedores. Talvez por todo esse contexto de luta e superação, o Vasco da Gama, a partir do momento em que disputou as mesmas competições que Flamengo, Fluminense e Botafogo, largou na frente nos confrontos diretos. O Mais Querido sofreu nas três primeiras décadas, a ponto de, entre maio/1945 e março/1951, quando o "Expresso da Vitória" estava em seu auge, o rival haver triunfado por assombrosas 17 vezes, empatando as outras três, em 23 partidas nas quais os clubes se enfrentaram. Por conta disso, o Vasco da Gama chegou a ter vantagem semelhante a que hoje tem o Mais Querido nos confrontos diretos.

Todavia, vejam só, após magra vantagem rubro-negra nos anos 50, a década de 60, muito embora escassa em títulos para o Flamengo, representou a retirada dessa vantagem do rival, graças especialmente a um time pouco lembrado, comandado por Silva, o "Batuta", e Almir, o "Pernambuquinho", que surrou seguidamente os cruzmaltinos, sem dó nem piedade. Com o advento da década de 70 e o surgimento de Zico, a vantagem virou e aumentou em favor do Mais Querido do Brasil. Logo Zico, filho de portugueses, que bem poderia ser vascaíno, mas nasceu em berço rubro-negro... Que frustração devem sentir, concordam?

A partir de Zico, analisando os confrontos por décadas, apenas nos anos 80 o Vasco da Gama conseguiu ganhar mais vezes, embora por pouca margem, que, portanto, não foi o suficiente para que revertessem o saldo negativo de vitórias. Mas foi em 1988 que conquistaram seu último título em cima do Mais Querido, justamente no finalzinho da "Geração Zico". Entretanto, nem mesmo no auge do clube depois do "Expresso da Vitória", que durou exatamente daquele final da década de 80 até o início do Século XXI, foi possível superar o Flamengo nos confrontos diretos. E nem muito menos em finais, como bem sabemos. A partir da década de 90, a vantagem rubro-negra só aumentou, em todos os sentidos, mesmo na pior fase do clube, no início do Século XXI.

Quase um século após o primeiro confronto, o estádio cruzmaltino, motivo de tanto orgulho, é objeto das mais diversas penhoras por dívidas com a Fazenda Pública. O rival, mulambo, órfão e desorganizado, tornou-se na prática o que fantasiosamente se auto-atribuíam: bem gerido profissionalmente, livre de dívidas, patrimonialmente sólido e com a maior torcida do mundo. E ainda por cima é gestor do Maracanã, palco do título conquistado ontem sobre quem mais se ressentiu pela decisão do Governador.

Se não fosse o Flamengo, o Vasco da Gama, especialmente quando abriu grande vantagem nos confrontos contra o Fluminense (anos 90), mandaria esportivamente no Rio de Janeiro. Mas quis o destino que existisse o Mais Querido, realidade que, convenhamos, não é bem aceita por determinados setores. Em qual outro local, que não o Rio de Janeiro, os rivais, a federação local (FERJ), a torcida e a imprensa arco-íris se unem contra um único clube? Atlético Mineiro e Cruzeiro não enfrentam algo sequer parecido em Minas Gerais, da mesma forma que Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo entre os paulistas, e nem tampouco a dupla Gre-Nal, lá pelos pampas gaúchos.

Ninguém disse que para os outros é fácil, mas sem dúvida para o Flamengo tudo é mais difícil.

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Não consegui falar sobre o jogo de ontem sem antes relembrar com vocês todo esse cenário. Abel Braga, de raízes vascaínas e tricolores, e que, portanto, conhece bem o que é esse ódio anti-rubro-negro, sabia que a roubalheira no primeiro jogo impedira o Flamengo de construir vantagem segura a ponto de poder escalar o time B ou de reservas sem correr maiores riscos. Parte disso decorre do fato de que o próprio Abel não conseguiu, até o momento, colocar em prática sua declarada estratégia de rodar o elenco em dois times para enfrentar todas as competições. Não com a eficiência que se espera, dado o nível do elenco. Pudera. Abel não tem o hábito de adotar o estilo de jogo propositivo e seus times não têm o costume de trabalhar a bola. Com o time A do Flamengo em 2019, reconheço que tenta fazer algo diferente e inclusive conseguiu começar a implantar um interessante esquema de marcação alta e de forte pressão sobre o adversário. É um estilo de jogo agressivo, que não deixa de trabalhar a bola, porém o faz com menos troca de passes e mais jogadas agudas. Contudo, como o Flamengo ainda não tem um time B competitivo e pelo desgaste natural que advém dessa proposta de jogo, não poderá ser adotada durante todos os jogos ou mesmo em todos eles.

Era o caso do jogo de ontem. Vejam bem, não é que era impossível, mas como pressionar como na partida do domingo anterior, no Engenhão, sem retirar do time a energia que será necessária em Quito, a mais de 2.700m de altitude? São situações como essa que me levam a sentir falta de variação de jogo, que não seja o abafa ou o jogo de contra-ataques intensos; em suma, a famosa capacidade de jogar de forma cadenciada, valorizar a posse de bola, diminuindo a pressão adversária. Especialmente quando o ressentido Vasco da Gama tentou fazer exatamente o mesmo que o Flamengo no domingo passado, pouco importando se o placar já estivesse 2x0 e não houvesse mais a menor chance de título.

Por sinal, ao pressionarem por 90 minutos, os cruzmaltinos parecem ter mandado às favas as já remotas chances de se recuperarem na Copa do Brasil contra o Santos de Jorge Sampaoli, na próxima quarta-feira, e de estrearem bem na primeira rodada do Brasileiro contra o Athletico/PR, na Arena da Baixada, onde já tomaram de 2x7 em 2005... A parada é simplesmente sinistra, digna de ser estudada sob o enfoque da psicologia de massas. Os caras não aceitam a superioridade do Flamengo e se perdem no ódio e no inconformismo, a começar pelo momento do cara ou coroa, quando escolhem não atacar no segundo tempo para o lado da própria torcida, implícita e contraditoriamente reconhecendo a maior força da Nação Rubro-Negra. Será que Freud explica?

Ah, o ressentimento que nos torna mais fortes... A risada de deboche de Gabigol para Leandro Castán e Werley representou um pouco da satisfação que todos nós, rubro-negros, sentimos ao ver todo  esse desespero do time do cinto de segurança...

O que forçosamente me leva ao título da coluna de hoje.

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Senhoras e Senhores, FOCO!!!! Estamos no mesmo lugar de 2000, 2007 e 2008, por exemplo. Acabou a realidade paralela do Campeonato Rural de 2019. A partir de quarta-feira, teremos um choque de realidade, pois saberemos não apenas a quantas andam o estoque de energia e o preparo físico do time, mas também como se comportará, como visitante, contra adversários de peso; como se comportará, como mandante, ao receber adversários desse mesmo naipe; como Abel rodará o elenco, de modo a tentar minimizar os efeitos da maratona; como, enfim, o Flamengo se sairá na, até aqui, sequência mais difícil da temporada, contra LDU, Cruzeiro, Internacional, São Paulo e Peñarol.

A palavra, como sempre, está com vocês.

Bom dia e SRN a tod@s.