quinta-feira, 4 de junho de 2026

Coluna do Carlos César: A Busca da Excelência

Bugatti Veyron (1001 cv)
 

Olá, Buteco!


Para uma instituição como o Flamengo, que busca se perpetuar e manter viva a paixão de uma enorme Nação, a busca da excelência tem que ser parte permanente do que houver de mais essencial na sua cultura.

Era assim que eu havia esboçado o começo do post de hoje – e vou falar disso adiante – mas aí aconteceu o jogo entre Palmeiras e Chapecoense e, num primeiro momento, eu me perguntei se fazia sentido pensar em excelência num campeonato tão contaminado por práticas condenadas até por integrantes da mídia contrária ao Flamengo.

Concluí que sim, mas antes preciso passar pelo jogo do Palmeiras.


Demonstração de poder do Palmeiras e o jogo mental

Quando terminou o jogo do Palmeiras contra a Chape, o clima no Buteco misturava desolação e revolta, e desolação é um importante efeito mental que pode atingir participantes de uma competição, quando um deles demonstra ter um poder superior, capaz de decidir a disputa a seu favor.

É difícil dar respostas eficazes a poderes “superiores”, mas acredito que, em síntese, elas devem incluir excelência (alta competência e competitividade) e poder de superação (capacidade de vencer o desânimo e de não desistir).

Pego carona num texto postado pelo Thiago Freire na segunda-feira, primeiro de junho:

Nitidamente, o Palmeiras tem uma força gigantesca nos bastidores. Não existe um árbitro nesse país que não apite jogo dos caras com medo. O que aconteceu ontem foi um escárnio. Mas eu tento ver os dois lados de tudo. Percebam que, SEM A AJUDA da arbitragem, eles não teriam vencido o lanterna da competição. O time deles não é isso tudo. Eles ainda terão jogos duros, fora de casa. Acredito que mesmo com ajuda, vai ter jogo que não vai ser suficiente. Por isso afirmo, a melhor estratégia para o Flamengo é focar em qualificar o grupo, jogar muita bola e esquecer a tabela. Vencendo uma atrás da outra, pode ter certeza que uma hora vai bater desespero do lado de lá.”

O que o Thiago propõe é que, se o jogo mental do Palmeiras inclui um poder de bastidores capaz de desequilibrar o campeonato a seu favor, o jogo mental do Flamengo deve ser:

... focar em qualificar o grupo, jogar muita bola e esquecer a tabela. Vencendo uma atrás da outra, pode ter certeza que uma hora vai bater desespero do lado de lá.”

Quando os jogos do nosso rival tinham acréscimos intermináveis em 2019, o Flamengo de Jorge Jesus fez isso e foi tão forte que acabou transferindo o desânimo para o lado de lá.

É fácil?

Não, e acho que agora é mais difícil do que em 2019, mas defendo que seja parte da estratégia rubro-negra.

Não significa que o Flamengo deva abrir mão da luta de bastidores, porque nunca será razoável aceitarmos o convívio com práticas que desequilibram irregularmente o campeonato, mas fortalecer-se no que já está ao seu alcance pode virar o jogo a seu favor.

E é pensando assim que consigo voltar ao tema que desejo abordar hoje, a busca da excelência.


O post “Esquenta” do Gustavo, para Flamengo x Coritiba e Sorteio das Oitavas da LA

Apesar do Flamengo ter derrotado o Cuzco no meio da semana e carimbado sua classificação para as oitavas da Libertadores com a melhor campanha da fase de grupos, o post “Esquenta” do Gustavo da sexta-feira, 29 de maio, estava carregado de preocupações relacionadas a dois temas: o sorteio para as oitavas da Libertadores e o jogo contra o Coritiba, marcado para sábado, dia 30.


Flamengo x Coritiba

No tocante ao jogo contra o Coxa, preocupava-nos precisarmos enfrentar, com dez desfalques, o sexto colocado do Brasileirão e um dos visitantes mais enjoados da competição.

Houve quem discordasse de tanta preocupação com o Coritiba, mas íamos entrar em campo com apenas quatro titulares de linha (Léo Ortiz, Evertton, Pedro e Lino) e com um time-base que fizera um péssimo primeiro tempo contra o fraquíssimo Cuzco.

Palmas para Leonardo Jardim, que montou um time eficiente e competitivo e assim afastou qualquer risco de gracinhas do Coxa no nosso Maraca.


Sorteio das Oitavas

O outro tema preocupante era o sorteio dos confrontos das oitavas de final e do chaveamento dos mata-matas da Libertadores.

Como sempre acontece, torcíamos por um sorteio favorável para nós, embora estejamos cansados de saber que as bolinhas da CBF e da Conmebol não gostam da gente.

Gustavo pediu Tolima, “o mais fraco entre todos os segundos colocados” e especulou com Mirassol ou Platense, mas pegamos o Cruzeiro, adversário pesado.

Aí, num trailer deste post, tive uma conversa com o Wagner-Fla, em que ele escreveu, falando do sorteio para as oitavas:

Minha preocupação não é o Cruzeiro. É o Flamengo. Tem que melhorar muito, especialmente na defesa.”

Minha resposta foi:

Também penso assim.

Na situação atual, acho que o Flamengo depende mais dele, preparando-se para chegar forte ao confronto.

Aí vem o jogo, em que circunstâncias podem pesar a favor ou contra, mas a preparação tem que ser top e isso exige que o time evolua na função defensiva.”


Faço o meu melhor...

O post do Gustavo e essa breve conversa com o Wagner me fizeram lembrar de um ótimo texto de um pedagogo brasileiro das antigas, cujo nome me escapa da memória.

Lembrando-me de uma frase do texto, perguntei ao Google:

Quem dizia "faço o meu melhor e o resto não é problema meu"?

(Calma aí, que rapidinho eu vou voltar ao Flamengo!)

A resposta, em visão criada por IA, foi:

A frase exata do jeito que você escreveu não pertence a um único autor famoso, mas ela resume perfeitamente a base do Estoicismo, uma das correntes filosóficas mais influentes da antiguidade.

O estoicismo, defendido por pensadores como o imperador romano Marco Aurélio, o filósofo Sêneca e o ex-escravo Epicteto, baseia-se na chamada "Dicotomia do Controle". Essa ideia divide o mundo em duas partes:

O que depende de você: Seus pensamentos, suas intenções, sua dedicação e suas ações (fazer o seu melhor).

O que não depende de você: Os resultados, a opinião dos outros, o clima, a economia e o futuro (ou seja, o resto, aquilo "não é problema seu").”

O Esquenta de 29/05/26 e a conversa com o Wagner me levaram a esse pensamento porque a pergunta que me ocorreu foi:


O Flamengo tem feito o seu melhor?

Faço essa pergunta pensando no trabalho estrutural do clube, não nas circunstâncias de cada jogo, porque estas, a meu ver, estão no grupo das coisas sobre as quais o Flamengo pode tentar ter algum controle, mas nunca terá todo o controle.

A título de exemplo:

** O Flamengo pode trabalhar seus jogadores para terem mais cuidado com jogadas de risco, mas não está livre de que algum jogador cometa erro passível de expulsão.

** O Flamengo pode conseguir que seus jogadores sejam cuidadosos, mas não está livre de punições injustas, por erro ou má fé de quem apita o jogo ou influencia a arbitragem com o VAR.

Meu ponto, quando penso assim, é que nunca vamos afastar completamente os riscos de jogar com 10 desfalques contra um bom time ou de ter um sorteio ruim numa competição mata-mata (o Vitória, que nos eliminou na CB26, era um dos adversários mais difíceis do pote 2).

O que o Flamengo pode fazer, creio, é ter a melhor preparação possível, o que passa pelo que chamo de trabalho estrutural do clube.

É relevante considerar que, por ser perecível, a busca da excelência deve ser uma combinação de atitude e de prática permanente, seja porque os adversários evoluem e nos impõem novas exigências de qualificação, seja porque as nossas qualificações decaem com o tempo (por exemplo, por envelhecimento ou venda de jogadores importantes e por saída de um treinador vencedor, caso de Jorge Jesus).


O trabalho estrutural

Sem pretender fazer uma lista completa, relaciono aqui alguns itens em que o Flamengo sempre precisa fazer o seu melhor, para reduzir a escala das coisas que não pode controlar, e faço uma breve avaliação do estágio em que estamos, no caminho para a excelência.


Trabalho eficiente de bastidores

Em tempos normais, o Flamengo tem que ser sempre um player de peso na relação com as diversas instituições do ambiente do futebol.

Nesse sentido, o fortalecimento do clube junto à Libra foi um bom passo, mas, na atualidade, o trabalho de bastidores do Flamengo precisa ser transformador, porque há um clube com poder excessivo, capaz de determinar o resultado das competições de que o Mengão participa.

Isso tem que mudar e vai dar muito trabalho até acontecer.


Elenco completo e bom em todas as posições

Os anos vão passando e continuamos convivendo com deficiências de elenco quantitativas e qualitativas que, em determinados momentos, levam a resultados negativos.

No post de primeiro de junho, o Gustavo detalhou o tema, reafirmando a necessidade de melhoras significativas em algumas posições do elenco.

Acho que, em alguma medida, temos falhado em atitude e prática permanente da busca de excelência, neste tema que é sempre decisivo e que depende muito, a meu ver, da atuação do diretor de futebol.


Bom treinador e boa comissão técnica

Nosso melhor momento, neste tópico, foi o da passagem de Jorge Jesus pelo Flamengo, mas a saída dele, pouco depois de renovar o contrato, é exemplo claro do quanto pode ser perecível essa qualificação do clube.

Depois de muitas mudanças, temos hoje o Leonardo Jardim, cuja contratação não reprovo.

Embora ele tenha passado por algumas oscilações nesses primeiros meses, tenho boa expectativa a respeito do trabalho dele, mas não consigo afirmar que ele tem uma CT que nos encaminha para a excelência.

Em bola parada, por exemplo, regredimos em relação à época do Filipe e do Rodrigo Caio.

Não sei em que medida o Diretor de Futebol trabalha junto ao treinador para evolução de sua CT, mas este é mais um campo em que há sinais de que não estamos fazendo o nosso melhor possível.


Ambiente gerador de compromisso dos atletas

Após a saída do Filipe, surgiram rumores sobre comportamentos indevidos de atletas, algo que tem acontecido em muitos momentos.

A geração de compromisso dos jogadores tem que ser permanente e valer para todos, com atuação firme dos capitães, do treinador e do comando do futebol.

No que se refere aos capitães, percebo mais atitude no Danilo do que nos jogadores que costumam usar a faixa.

Jardim tem conseguido gerar reações positivas em vários jogadores (Plata, Pedro e Lino, por exemplo), sinalizando que, enquanto estiver no Flamengo, pode contribuir para que o ambiente de compromisso prevaleça.

José Boto, por sua vez, não parece contribuir suficientemente nesse tema, a julgar pelo ambiente que precedeu a queda do Filipe Luís.


Espírito matador

O time campeão costuma ter uma espécie de “fúria benigna”, que o leva a matar os jogos e a dar poucas chances de reação aos seus adversários. Não vejo a presença dessa fúria no nosso time, mas ela tem que ser despertada.


Infraestrutura top para suporte às atividades de preparação

Até onde sei, esta é uma área em que o Flamengo vai bem.


Excelência no trabalho com as divisões de base

Na base, o propósito deve ser, sempre, conseguirmos suprir demandas do elenco principal e, em consequência do trabalho, gerarmos receitas para o clube com vendas de jovens talentosos.

Estamos longe disso quanto ao suprimento de demandas do elenco, como tantas vezes conversamos no Buteco, e não há como apressar muito os resultados nesse campo, cabendo ao comando do clube trabalhar para retomar o rumo da excelência, do qual já estivemos mais perto.

Há notícias de mudanças positivas, a última delas a contratação do treinador Marcelo Salazar, de quem se espera a promoção de avanços, mas o Flamengo tem muito a caminhar para voltar a produzir grandes jogadores na sua base.


Integração dos talentos da base ao elenco principal

Não há como pensarmos nessa integração sem contarmos com atuação efetiva do treinador “adulto” e de sua comissão técnica na transição dos garotos.

Jardim afirmou que vai começar a cuidar disso, o que é uma novidade a ser comemorada, porque foge ao que tem sido o hábito dos treinadores do elenco principal.

Para o atual ciclo, temos essa sinalização positiva, mas trata-se de uma prática que tem que ser incorporada pelo clube, seja quem for o treinador do time principal.


O Diretor de Futebol

Por ser perecível e exigir busca permanente, a excelência do Flamengo no futebol nunca será um porto de chegada, sempre será um norte.

A quem cabe liderar, no clube, essa busca permanente?

Considero que, na quase totalidade dos tópicos acima analisados, esse papel é do Diretor de Futebol.

Ao mesmo tempo em que é inquestionável que o trabalho de bastidores é uma das missões relevantes do presidente do clube e de seu staff político, vejo o Diretor de Futebol como o profissional que deve influir no item “Infraestrutura” e ser o principal responsável por liderar ou impulsionar as ações nos itens mais orgânicos do futebol (elenco, treinador e sua CT, ambiente, base).

E aí enxergo uma razão relevante para, num momento de dificuldades, nos preocuparmos tanto com o jogo contra o Coritiba e com o sorteio das oitavas da Libertadores.

Essa apreensão resulta da consciência de que deveríamos estar mais preparados e, consequentemente, menos vulneráveis.

Creio que, sob o comando do atual diretor de futebol, temos feito menos do que deveríamos, e até do que poderíamos, nos campos que ele lidera.

Refiro-me menos a erros eventuais que ele possa cometer e mais ao que ele parece deixar de fazer na construção da atitude e da prática permanente em busca da excelência.

O futebol do Flamengo precisa de uma liderança forte nessa construção e, com todo o respeito que o diretor Boto deve merecer, não vejo nele perfil profissional adequado para satisfazer bem a essa demanda porque, como já disse em comentários aqui no Buteco, vejo-o mais como um especialista em algumas atividades do futebol, mas não como o gestor e líder de que precisamos.

Em todos os anos dos blues, o Flamengo só teve, a meu ver, um profissional que se aproximou de suprir bem essa demanda: Jorge Jesus.

Seja por seu perfil, seja porque o VP de Futebol Marcos Braz não desenvolvia um trabalho sistêmico que cuidasse bem de todos os temas de que falei acima, Jorge Jesus ocupou no clube um espaço muito maior do que o de simples treinador e, por suas qualificações, levou o Mengão ao histórico e fugaz “outro patamar”.

Noticiou-se, recentemente, que o diretor Boto não renovará seu contrato com o Flamengo e vejo nisso uma oportunidade de evolução, por podermos buscar, para seu lugar, um profissional com perfil mais compatível com as demandas do cargo.

Pode parecer uma viagem delirante, mas meu candidato para essa missão é Jorge Jesus, porque já exerceu parte dela em 2019/2020 e porque o Flamengo tem margem para aumento de sua folha de pagamentos, já que consome com ela, na atualidade, menos de 50% de suas receitas recorrentes.

Se Jesus não for viável, passa pela minha cabeça o nome de Leonardo Jardim, por sua grande experiência no futebol, mas não me anima tanto quanto o Mister.

Espero que o presidente Bap se inspire e escolha um profissional que, de forma mais permanente, impulsione o futebol do Mengão para níveis cada vez mais próximos da utópica excelência.


Saudações Rubro-Negras!!!!!

Carlos César Ribeiro Batista