quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Alfarrábios do Melo

Fiz anos domingo.

Não que isso se revista de especial relevância. Aniversários costumam ser tão intensos quanto fugazes, átimos de protagonismo em que tudo podemos, tudo queremos, tudo, subitamente, parece girar-nos ao redor, qual monarcas existenciais. Mas passa, e a vida segue, até o próximo hiato.

“Que o nosso Flamengo lhe dê um belo presente”, não raro ouço quando cumprimentado por ocasião do natalício. As recomendações são mais estridentes quando há uma confluência da efeméride com o calendário esportivo, calhando de ter proporcionado o prazer de, durante os festejos, ver o Mengão em campo. Vitória do Flamengo num aniversário. É algo doce.

O Flamengo deve ter jogado várias vezes, nesses meus 37 anos de futebol, nos dias 6, 7, 8 de agosto. Da maioria não lembro, e, preguiçoso, não tenho a intenção de sair procurando nas ferramentas de busca que tudo sabem.  Deixo minha memória trabalhar, às vezes é bom recorrermos apenas a nós mesmos, em busca das referências que realmente nos imprimem marcas.

O primeiro foi logo em 1981. 07 de agosto, uma sexta-feira. Do alto dos 9 anos, minha mania era o futebol de botão. Havia, poucos meses antes, ganho um campo, desses que se chamava “Estrelão”. Dois times, que depois viraram cinco. Daqueles da Gulliver mesmo. Tinha Atlético-MG, tinha Vitória, Santa Cruz, acho que Palmeiras. Mas o sonho que fazia faiscar os olhos de criança era o Flamengo. Mas nunca achava o Flamengo pra comprar. E mesmo que achasse, tinha que ser em data especial. Chega o aniversário, mas nada de Flamengo nas lojas. De qualquer forma, ganhei um da Seleção Brasileira. Arrepiado, dedos tremendo, a custo a caneta risca na superfície do botão selecionado com rigor. O número 10, meio a garrancho. Meu primeiro Zico.

À noite, Flamengo e Atlético, jogo importante pela Libertadores, já na reta final do Grupo. Flamengo estava em momento turbulento, tinha trocado o treinador. Vinha de dois empates seguidos, partidas ruins. Mesmo assim, colocou 65 mil no Maracanã para aquela que seria a virtual final da chave. Quem vencesse, passaria. Flamengo começou mal, saiu perdendo, mas no segundo tempo voltou com um volume de jogo impressionante e virou rapidamente a partida. Com o adversário nervoso e com um a mais em campo (para variar, um atleticano pilhado em excesso ganhou o vermelho), o Flamengo viu clarear à sua frente a vitória, a goleada. Empolgou-se, descuidou-se atrás e numa falha da defesa cedeu o empate. Nada era fácil. Teria que resolver em Assunção. Fiquei aborrecido, mas no dia seguinte gastei os dedos com meu botão do Zico. Que, nas minhas mãos, enjoou de fazer gol. Ah, o botão do Flamengo? Não demorou. Lindo, faiscante, de um vermelho reluzente, pequeno pacote trazendo onze pedaços de acrílico e a plenitude de um garoto sonhador. Poucas vezes fui tão feliz.

O segundo que me lembro foi já em 2003. Trabalhava fora de Salvador, em regime de plantão, de forma que não poderia assistir ao Flamengo de Oswaldo de Oliveira, que receberia o Bahia de Evaristo de Macedo, no Maracanã. Ossos da vida profissional.

Não que estivesse profundamente motivado. Flamengo estava em um momento complicado, tinha perdido a Copa do Brasil e, com um time limitado onde seus principais jogadores entravam e saíam do time, no mesmo ritmo oscilante dos dispêndios do esquálido caixa do clube, cujo mês se completava com bem mais que trinta dias (“finge que paga, finge que joga”), fazia uma campanha no Brasileiro apenas suficiente para manter uma distância razoavelmente segura da zona do descenso, o que, dadas as precárias condições administrativas da instituição, não deixava de ser certa façanha.

07 de agosto, noite gelada de quinta-feira no Maracanã, 8 mil. Todo mundo falava da morte, ocorrida na véspera, de Roberto Marinho, que desencadeara uma torrente midiática de proporções poucas vezes registrada. Tarjas pretas na tela, lágrimas (sinceras?) de apresentadores, documentários, especiais, edições extras, enfim. Só se falava no passamento do “Doutor Roberto”.

Lá da Sala de Controle rebenta o grito: “Porra, Baêa tá tomando de cinco!”. É como um choque, um chamado de volta à vida. Agora quero saber tudo. Ligo pra casa em busca de informações, de detalhes. Um tricolor já me avisara, “vocês vão ganhar fácil, o elenco quer derrubar o Evaristo”. Mais um pouco e já não é mais de cinco, agora são 6. Flamengo 6-0 Bahia. Descubro que no dia seguinte tem VT completo. Não durmo antes de assistir. Foi pouco mais que um treino, com o jovem Rafael (que marca um gol de placa, de cobertura) e o malaco Edilson jogando muito. É o presente de que precisava. Ao menos por alguns dias, a marra, a alegria, a festa nos olhos e na língua voltam como nos velhos tempos. Até o vexame seguinte.

Passamos ao dia 06 de agosto de 2011, um sábado, véspera do meu aniversário. Tal como agora. Flamengo enfrentando um time paranaense. Tal como agora. Precisando vencer, para chegar à liderança, mesmo que provisória. Tal como agora.

Jogo difícil no Engenhão contra o Coritiba, 25 mil. O adversário sabe se defender, monta um ferrolho quase intransponível, que o previsível Flamengo de Luxemburgo não consegue transpor. Passam-se 45, 60, 70, 80 minutos e nada de gol, ou nada ao menos próximo a isso. 81, 84, 86. Agora o Flamengo pressiona, cria chances, manda na trave, há um bololô num escanteio. Sufoco. 87, 88. Chegamos aos 89. Ronaldinho apanha uma bola vadia na esquerda. Olha e cruza. O improvável, o imponderável, o Cruel Jael mete a testada, a cabeçada redentora, que define a vitória flamenga, 1-0. O Flamengo assume a liderança do Campeonato Brasileiro. É meu presente de aniversário. Sofri com o jogo. Pulei, gritei. Depois, fui beber.

Cinco longos anos se passam até que o Flamengo retome a liderança do Brasileiro. Cinco anos. E, de novo, tal como naquela tarde-noite de sábado, é meu aniversário.

Não que isso seja relevante.

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“Os Alfarrábios entrarão em recesso, por motivos de merecidas férias do titular. Retorno dia 31 de agosto.”