| Jogadores de Alemanha e Curaçao se juntam para oração após jogo da Copa do Mundo — Foto: Sebastian Widmann - FIFA/Getty Images By Ge - Copa do Mundo da FIFA |
Salve, Buteco! Hoje gostaria de retomar um dos meus assuntos favoritos, que envolve as consequências da Lei Bosman sobre o futebol internacional, especialmente, porém não exclusivamente, o de clubes. Para tanto, vou começar relembrando parte do texto do Esquenta: Flamengo x Espérance de Túnis, pela 1ª Rodada do Grupo D da Copa do Mundo de Clubes/2025:
"Os generosos Amigos que me honram ao ler os posts que escrevo para este Blog certamente se recordam da sequência de posts sobre o Mundial de Clubes e a Copa Intercontinental, que escrevi antes da participação do Fuderosão Safadão no Mundial/2022 (disputado em 2023).
Basicamente, como demonstrei no terceiro e no quarto posts da série, até o advento da chamada "Lei Bosman", resultado final do julgamento do processo C-415/93 pela Corte Europeia de Justiça - ECJ (European Court of Justice), o supremo tribunal da União Europeia para assuntos relacionados com a aplicação da European Union Law ou o sistema de normas que regem aquela associação de países, o placar da Intercontinental assinalava América do Sul 20x14 Europa.
A Lei Bosman e o fim da "Lei do Passe" são resultado de uma habilidosa e maquiavélica estratégia, que se apropriou sem pudor de uma premissa humanista autêntica, qual seja, o drama vivenciado por jogadores que tinham o seu vínculo empregatício com um clube expirado, os quais só conseguiam trabalhar se o antigo empregador fosse financeiramente indenizado pela perda do "passe" ou direitos sobre a força de trabalho do atleta. Uma forma mais branda e contemporânea de escravidão, portanto.
Entretanto, como eu dizendo, a estratégia foi maquiavélica, isso porque o novo marco regulatório, ao (corretamente) abolir o odioso e escravagista instituto do passe, simplesmente deixou para o "mercado", em sua essência mais crua, ou seja, sem regulação, "regular" as transferências de atletas. Resultado: sob uma bandeira humanista, passou a vigorar a Lei do Mais Forte - financeiramente, é claro. Estamos falando de dinheiro, arame, mufunfa, cascalho.
Não à toa, no mundo todo os clubes mais ricos passaram a exercer a hegemonia em seus respectivos países. Por exemplo, o Bayern de Munique, o Gigante da Baviera, que ontem goleou impiedosamente o amador Auckland City por 10x0, sempre foi o maior e mais vencedor clube da Alemanha, porém depois da Lei Bosman abriu-se um verdadeiro fosso entre ele e os concorrentes.
Na Itália, a Juventus, a maior vencedora no cenário nacional, disparou deixando a concorrência comendo poeira. Na França, o PSG saiu da posição de clube chique e quase inofensivo da capital para a condição de opressor dos rivais, tal como o Bayern na Alemanha. Na Inglaterra, onde o dinheiro sempre falou alto, mas havia concorrência, Liverpool e Manchester United assistiram rivais como o Chelsea e o Manchester City ganharem terreno e se tornarem mais competitivos do que o Arsenal.
O que existe hoje, em nível de regulação, é mera mitigação da Lei do Mais Forte. A Lei Bosman estabeleceu o paraíso para os clubes mais ricos da Europa. Sonho com o dia que alguém que tenha acesso a instrumentos de pesquisa adequados revelará ao mundo a influência da UEFA no julgamento do processo C-415/93.
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O eurocentrismo futebolístico, contudo, não conhece limites e sua ganância não se contentou com o que foi alcançado com a Lei Bosman. De forma cruel, a UEFA passou a entupir o calendário europeu com competições que tornaram cada vez mais difícil o intercâmbio com os outros continentes. É o caso, por exemplo, da famigerada Liga das Nações.
Qual seria o sentido da existência dessa competição, diante da tradicionalíssima e empolgante Eurocopa, senão o de isolar o futebol europeu do contato com os demais continentes?
É neste ponto que peço licença para elogiar Gianni Infantino e a Dona FIFA. O mais importante dessa nova competição é o intercâmbio com os clubes mais ricos da Europa, descarada e historicamente beneficiados pela Lei Bosman.
Mesmo que aqui ou acolá possa ocorrer um 10x0 ou um placar apenas um pouco menos constrangedor, o eurocentrismo foi obrigado a ceder e se misturar com a escumalha. Bem ou mal, o intercâmbio volta a existir. A pedra fundamental foi lançada.
Gol do futebol."
Intercâmbio. Essa é a palavra que traz o que resta de justiça e competitividade no futebol global. É o que permite à Seleção de Curaçao fazer um primeiro tempo digno e competitivo contra a poderosa Alemanha e depois arrancar um empate do Equador. É o que permite a Cabo Verde arrancar um 0x0 de ninguém menos do que a poderosa Espanha, e é o que transformou o Japão não em uma força de primeira prateleira, mas uma seleção que encara qualquer outra dando trabalho e tendo chances de vencer.
Intercâmbio pressupõe confrontos entre clubes e seleções de outros continentes com os poderosos europeus, e não "apenas" (não que seja pouca coisa) o compartilhamento de conhecimento nas diversas esferas do futebol profissional, tais como business esportivo (gestão) e teorias tática e medicinal (fisiologia e preparação física englobadas).
E não é que a Copa do Mundo com mais seleções tem sua razão de ser? Passei a ser um defensor, assim como da Copa do Mundo de Clubes. A distância, que ainda é muito grande, entre os europeus e o resto do mundo, só será reduzida se houver intercâmbio, confrontos diretos.
Agora, vamos refletir um pouco sobre o que isso tem a ver com o Flamengo.
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Parece-me claro que o Flamengo deve se preocupar em ser, senão hegemônico (palavra talvez presunçosa), o mais forte clube do país e de seu continente. Isso quer dizer que o clube não deve se planejar pensando em um adversário europeu que eventualmente enfrentará se conseguir conquistar a Libertadores e chegar até a final da Intercontinental no final do ano. O mesmo raciocíno deve valer para a Copa do Mundo de Clubes, disputada a cada 4 anos, concordam?
A preocupação primária, assim entendida como o objeto do planejamento para cada temporada, deve ter em mira os adversários do cotidiano, aqueles que disputam, ano após ano, as mesmas competições que o clube disputa - Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Copa Libertadores da América.
Resumindo em poucas palavras: não dá para basear todo o planejamento em um jogo que pode nem sequer acontecer (final da Intercontinental).
Mas e se a referência ou referencial puder ser justamente os melhores clubes do mundo? Não seria uma forma de alcançar e manter o posto de o maior (e melhor) do Brasil, das três Américas e de maior clube não europeu do mundo?
Sonho com um Flamengo que priorize as competições que disputa todo ano, mas que não se contente com o teto competitivo de cada uma delas. Acredito que seja possível conciliar as duas coisas.
Sonho com um Flamengo forte a ponto de, se chegar a uma final de Intercontinental e quando disputar uma Copa do Mundo FIFA, possa chegar não como um azarão, mas pelo menos como um candidato respeitável ao título ou a disputar as fases mais adiantadas ou decisivas da competição.
Para que isso aconteça, é preciso chegar lá, na Intercontinental, quantas vezes for possível, e disputar a Copa do Mundo de Clubes tantas vezes quanto conseguir. Resultados negativos ocorrerão, frustrações certamente nos machucarão, mas é preciso ter em mente que a estrada é longa, assim como possível chegar ao seu final.
Uma coisa leva à outra, mas será preciso ter perseverança.
River Plate, Lausanne e Benfica no Algarve pode parecer pouca coisa, mas lembra as velhas excursões de um tempo que, como expliquei nos posts aos quais me referi mais acima, remontam a uma era de competitividade dos sul-americanos em relação aos europeus que, como visto, infelizmente ficou para trás.
É hora de correr atrás.
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Tenham uma semana abençoada, repleta de paz.
A palavra está com vocês.
Bom dia e SRN a tod@s.
Série Mundial de Clubes:
1ª Parte: O Mundial de Clubes - 1ª Parte - O Início da Copa Intercontinental
3ª Parte: O Mundial de Clubes - 3ª Parte - O Renascimento e o Apogeu da Copa Intercontinental
Outros posts sobre a Copa Intercontinental e Futebol Internacional:
