segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

O Mundial de Clubes - 3ª Parte - O Renascimento e o Apogeu da Copa Intercontinental

 

Salve, Buteco! É hora do embarque! Sempre pilotada pelo nosso amigo Gardner, a Máquina do Tempo do Buteco dessa vez nos transporta para a manhã de 12 de dezembro de 1980, em Tóquio. Opa, como assim? 1980? Vocês podem estar indagando se não houve algum engano. Afinal de contas, o (para muitos) jogo mais importante da História do Clube de Regatas ocorreu exatamente um ano e um dia depois.

Tenham paciência. Vocês logo entenderão. Por enquanto, desfrutem desse começo de viagem. A chegada da patrocinadora Toyota trazia a esperança de revitalização da Copa Intercontinental. Para além da injeção financeira, a organização no Japão daria a imparcial e necessária mediação que afastou a barbárie praticada especialmente pelos argentinos nas edições anteriores, objeto de justa reclamação por parte dos clubes europeus, a ponto de recusarem alguns confrontos, levando ao esvaziamento da competição pela sua disputa por vice-campeões ou até mesmo pela sua não realização em algumas temporadas.


Naquele ensolarado, mas frio final de manhã de sexta-feira na capital japonesa, o Nacional de Montevidéu, campeão da Copa Libertadores da América de 1980, estava prestes a enfrentar o Nottingham Forest, então já bicampeão da European Cup (1978/79 e 1979/80). O jogo marcaria a primeira edição da Copa Intercontinental no formato final única.

O Bolso, como é carinhosamente apelidado o time uruguaio, tinha em sua formação titular três jogadores da Celeste Olímpica que, menos de um mês depois, conquistaria o Mundialito de Seleções no Estádio Centenário, no Uruguai, derrotando a Seleção Brasileira por 2x1. Eram eles o goleiro Rodolfo Rodríguez, que depois faria história no Brasil, jogando pelo Santos Futebol Clube; Victorino, centroavante que viria a ser eleito o melhor jogador da partida e marcar o gol do título do Mundialito, e Julio Morales, atacante, aquele mesmo que na final de 1971 fraturou a perna do lateral direito grego Yannis Tomaras, do Panathinaikos.

Já o Nottingham Forest, dirigido pelo brilhante e histórico Brian Clough, era o favorito multicampeão. Além do bicampeonato europeu, até então era o único time a quebrar a sequência de títulos do Liverpool na Football League First Division inglesa (hoje Premier League). Os Reds venceram todos os títulos entre as temporadas de 1975/76 e 1983/84, à exceção de 1977/78, vencida justamente pelos Foresters, e de 1980/81, vencida pelo Aston Villa, que ainda viria a ser o campeão europeu de 1981/1982.

Bola rolando, o Decano uruguaio abriu o placar logo aos 10 minutos com Victorino, que, como vocês já devem ter percebido, era uma espécie de versão uruguaia do "Artilheiro das Decisões". O gol evidentemente determinou o rumo da partida. O olhar inglês padrão sobre os 80 minutos restantes, contudo, costuma valorizar o que chama de "controle do jogo" por parte do time inglês, o que não deixa de ser estranho quando se constata que a arbitragem israelense anulou dois gols uruguaios por impedimento, um em cada etapa.

Mesmo quando elogiado, o Nacional, comparado ao time inglês, é descrito como "também um time mais físico" e que joga com um líbero e um cabeça-de-área, com aplicação tática descrita como "rara em times sul-americanos", e caracterizada por um constante jogo de pressão, tudo isso, claro, graças à influência do treinador uruguaio Juan Mujica pelo seu tempo de atleta na Liga Francesa. Logo, as maiores qualidades do time uruguaio seriam europeias. Teria então a criatura superado o criador?

Os ingleses, inclusive Brian Clough, ainda reclamariam do campo de jogo, que teria a "grama queimada", com alguns afirmando até mesmo que "não tinha grama", e do excesso de faltas do meio campo e capitão uruguaio Esparrago no badalado centroavante inglês Trevor Francis. É de se notar, no ponto, que a neutra arbitragem de Abraham Klein limitou-se a aplicar um cartão amarelo para cada lado. Do lado uruguaio, foi o próprio Esparrago que recebeu a advertência, enquanto pelos ingleses contemplado foi o zagueiro Larry Lloyd. Quem quiser conferir, encontrará o videotape completo desse histórico confronto no YouTube.

***

No domingo de 13 de dezembro de 1981, Tóquio novamente vivia um ensolarado e frio final de manhã, minutos antes da bola começar a rolar. As condições do campo de jogo eram as mesmas do ano anterior. O frio havia castigado o gramado do Estádio Olímpico Nacional, ocupado por 62.000 presentes para a disputa da Copa Intercontinental daquele ano, entre o Flamengo e o Liverpool. 

No túnel de acesso, os jogadores de ambas as equipes se encontraram pela primeira vez.

"Os caras viram a gente fazendo uma corrente, ai começaram a rir. Todos eles passaram olhando, porque não era uma coisa normal na Europa. Não é que os caras estivessem debochando. Mas aí a gente pega aquilo ali e diz: 'Ó! Está vendo? Os caras estão rindo lá! Vai deixar os caras rirem da gente assim, pô?' Aí você vai botando pilha."

"Não sei se eles estavam querendo sacanear a gente. Eles acharam diferente. A gente lá, os caras olharam para a gente, deram um sorrisinho, mas não sei se era para sacanear, menosprezar. Aí vira o Júnior: 'Ei! Ei! Tão querendo sacanear a gente!' É sempre bom, sempre uma força a mais que dá para a gente."

"Eles deram uma ignorada na gente, como se falassem 'desse time aí nós vamos ganhar'. Aí começaram a rir da gente, os caras todos fortões, grandões. E já ganhavam no uniforme. O nosso shortzinho, bem apertadinho, daquele da Adidas, lembra? Eles com aquele shortão grandão! Tinha uma diferença enorme já. Foi quando eu falei: 'Hoje não tem para ninguém! Hoje vai ter que ser a gente!' O Nunes tentou se exaltar, o Zico pediu calma. 'Nunes, sem barulho. Vamos concentrar, vamos ganhar dos caras dentro de campo. Já vamos entrar com tudo!'" 

(Júnior, Leandro e Adílio, em depoimentos a Eduardo Monstanto, transcritos no livro 1981 - O Ano Rubro-Negro)

Já deu para perceber que excesso de confiança era uma marca típica do futebol inglês daquela época, certo? O eurocentrismo sempre esteve presente no campo do futebol, principalmente na Inglaterra. Ocorre que aquele time do Liverpool, justiça seja feita, tinha motivos para ser autoconfiante. Além do já frisado domínio recente na Liga Inglesa, a vitória por 1x0 sobre o Real Madrid pela final da European Cup havia devolvido o trono de melhor time do continente, perdido para o Nottingham Forest nas duas temporadas anteriores.

Como informava a matéria da edição de 11 de dezembro de 1981 da revista Placar, "é justamente a experiência adquirida na decisão de vários torneios europeus que anima o Liverpool para o jogo de Tóquio. Um Liverpool que, frente ao Flamengo, colocará uma verdadeira seleção das Ilhas Britânicas. Com exceção do zimbabwense Grobbelaar, todos os outros são titulares da seleção em seus países de origem: quatro da Inglaterra, três da Escócia, dois da República da Irlanda e um do País de Gales."

Outro aspecto digno de nota é que os meias Sammy Lee, Greg Souness e Terry Mc Dermott eram considerados versáteis, capazes de dar combate com eficiência, armar o jogo e chegar bem à área para finalizar, cobrindo toda a área do meio campo, como se fossem uma espécie de precursores da função box-to-box. Não foi à toa que, mesmo nos 45 minutos iniciais, Ruy Porto e Jorge Cury, na transmissão pelo rádio (no arquivo, sincronizada com as imagens), elogiavam o toque de bola inglês.

Autoconfiança, porém, não é sinônimo de menosprezo.


Bola rolando, o Flamengo tomou a iniciativa do jogo, enquanto o Liverpool, talvez num misto de surpresa e descrença com o que parecia ser um ímpeto inocente rubro-negro, parecia imaginar que poderia resolver o jogo quando quisesse. Porém, não foi assim que aconteceu. O primeiro gol nasceu justamente da liberdade que o Flamengo encontrava para tocar a bola pelo meio de campo.


Quando Júnior passou em diagonal para Nunes, na ponta esquerda, o lance inicialmente não se desenvolveu bem e parecia que daria errado. O cabeludo Johnston, lépido centroavante do time inglês, talvez quem tenha mais corrido durante os 90 minutos, quase roubou a bola do próprio Maestro, que se aproximara de Nunes na ponta esquerda, obrigando-lhe a recuar a bola para trás da linha divisória do gramado, buscando Mozer. O Vampiro, então, encontrou Zico absolutamente livre dentro do círculo central, já no campo de ataque. 


O brilhante lançamento por elevação pegou desprevenida a defesa inglesa, que estava postada mais à direita, com Phil Neal adiantado e Phil Thompson, Alan Hansen e Mark Lawerson, sucessivamente, cobrindo um ao outro. A precisão foi tamanha que a bola encontrou Nunes no "ponto futuro", descaindo após passar por cima de Hansen, o qual se viu ultrapassado em velocidade pelo "Artilheiro das Decisões", que sem perder o ritmo chutou para abrir o placar. 


Entre o primeiro e o segundo gols rubro-negros, o Liverpool saiu pro jogo e passou a ter mais a posse de bola, algumas vezes rondando perigosamente o gol de Raul. Uma jogada quase resultou no empate, após a finalização do elétrico Johnston, de dentro da grande área, valendo-se de um vacilo da nossa zaga.


O ímpeto inglês durou cerca de vinte minutos e não chegou a caracterizar uma pressão, mas no máximo um gostar do jogo, possivelmente um mero flerte. Tudo o que os ingleses não imaginavam era descer para o vestiário, já no final da primeira etapa, com 0x3 no placar, muito menos que, no segundo tempo, o Flamengo, após as orientações de Carpa, controlaria com autoridade o jogo.


A reação típica do eurocentrismo futebolístico foi questionar a facilidade com que o Mais Querido venceu a partida. E no Brasil, em particular, alguns sofrendo de crises agudas de "vira-latismo", outros por explosão de ódio anti-Flamengo, passaram a difundir a tese de que o Liverpool "jogou bêbado" ou que simplesmente "não se interessou pela partida". 

No ponto, é interessante destacar a análise de Daniel Williamson no livro "When Two Worlds Collide - The International Cup Years" (Pitch Publishing, 2022):

"No pós-jogo do evento, muitos imaginaram como o Flamengo foi capaz de lidar tão confortavelmente com um oponente tão bem-sucedido como o Liverpool. Houve sugestões de que o clube inglês não levou o evento com seriedade suficiente, que a combinação de ressaca e fuso horário se provou uma potente mistura. Entretanto, é difícil imaginar um time com uma série de vencedores engambelando um jogo cujo troféu, e o rótulo de melhor time do mundo, estava em disputa. Paisley havia vencido 15 (quinze) troféus, incluindo as vitórias pelo Charity Shield, desde que sucedeu Bill Shankly em 1974; vencer troféus era um hábito que ele não desejaria quebrar.

A decisão egoísta de Paisley de reter do conhecimento de Grobbelaar que seu pai havia acabado de falecer sugere que ele estava levando a competição a sério. O Liverpool além disso priorizou a Copa Intercontinental sobre a Supercopa Europeia, deixando passar um empate contra o Dínamo Tbilisi, campeão da Recopa.

Steven Cragg, que escreve para o This is Anfield e possui quatro livros publicados, rejeita qualquer ideia de que o Liverpool iria ao Japão com qualquer outra coisa que não vencer em suas mentes. 'Uma vez que o Liverpool tinha concordado em participar, eles estavam lá para vencer', começou Scragg. 'Eles apenas estavam massivamente despreparados.'" (tradução livre)


A análise de Steve Cragg é absolutamente sóbria e encontra ressonância na maneira como os torcedores que se dedicam ao registro da história do Liverpool documentaram o jogo, intitulando-o como Campeonato Mundial de Clubes. E de fato é impensável que um time vencedor como aquele Liverpool, que acabara de eliminar o Arsenal no jogo de desempate pela 4ª Fase da EFL Cup - Copa da Liga Inglesa, disputado apenas cinco dias antes (8/12), viajasse para Tóquio descompromissado com o título mundial.

O Liverpool, assim como o Flamengo, era um multicampeão e, como o adversário rubro-negro, também enfrentava uma maratona de jogos, vindo de recente triunfo sobre um dos maiores rivais - o Flamengo conquistou o título estadual uma semana antes (6/12), no histórico "Jogo do Ladrilheiro".


A vitória rubro-negra representou a supremacia do melhor time. Talvez o placar e o amplo domínio é que possam ser explicados pelo "massivo despreparo" dos ingleses para aquela final.

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Cerca de um ano depois (12/12/1982), o campeão da Libertadores mais uma vez sobrepujou o campeão inglês e europeu da temporada, com os 2x0 aplicados pelo Peñarol sobre o Aston Villa. Passaram-se mais dois anos (9/12/1984) e o Independiente de Avellaneda, com Bochini e Burruchaga, vencia o mesmo Liverpool, que ainda tinha em sua fileira titular Bruce Grobbelaar, Phil Neal, Alan Hansen, Craig Johnston e Kenny Dalglish, além do reserva em 1981 Alan Kennedy e do badalado centroavante galês Ian Rush. 

Desconheço reportagens sobre o estado etílico de qualquer dos esquadrões ingleses derrotados nesses confrontos.

De pé, da esquerda para a direita: Diogo, Gutiérrez, Bossio, Olivera, Morales e Gato Fernandez.
Agachados, da esquerda para a direita: Silva, Saralegui, Fernando Morena, Jair e Venâncio Ramos.


De pé, da esquerda para a direita: Goyen, Clausen, Trossero, Villaverde, Mrangoni e Enrique.
Agachados, da esquerda para a direita: Burruchaga, Giusti, Percudani, Bochini e Barberón.

Estabeleceu-se, então, um padrão que durou meia década, já que em 1983 o Grêmio havia vencido o Hamburgo da Alemanha por 2x1 na prorrogação. A América do Sul, calando a boca da mídia europeia, havia vencido todas as cinco primeiras edições da Copa Intercontinental no novo formato de jogo único, com o acrônimo de Copa Toyota.

As nuances da vida, presentes no futebol, são mesmo fascinantes. A barbárie argentina e uruguaia justificou plenamente a atitude de alguns dos campeões europeus de não viajar para a América do Sul e, em algumas temporadas, deixar de disputar a Copa Intercontinental durante o formato de dois jogos (ida e volta). 

Ao mesmo tempo, o triunfo sul-americano nas cinco edições no novo formato mostrava que a violência e o antijogo podem ter até servido como estímulo para clubes como Feyenoord, Milan e Ajax superarem essas adversidades.

O certo é que o discurso de que hermanos sul-americanos precisavam da violência para vencer foi derrubado. Argentinos e uruguaios tinham motivos de sobra para enxergar seus desvios e se arrependerem, enquanto os europeus perdiam a muleta para justificar sua visão preconceituosa. 

Não me entendam mal. É que, muito embora causa de uma reinvindicação justa, a barbárie hermana acabou sendo sutil e habilidosamente adaptada pelos europeus para um falso discurso de superioridade, usado justificar o maior número de títulos dos sul-americanos (10x8).

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Assim como fizeram os coirmãos milaneses Internazionale em 1964 e Milan em 1969, foi um clube italiano, a Juventus de Turim, o responsável pela façanha de quebrar uma sequência de títulos da América do Sul na Copa Intercontinental, com a vitória na disputa de pênaltis sobre o modesto, mas heroico Argentinos Juniors, que, na década anterior, havia revelado Diego Maradona para o mundo.

Aquela histórica formação de La Vecchia Signora contava com nomes como Stefano Tacconi, Gaetano Scirea, Antonio Cabrini, Aldo Serena e Michael Laudrup, todos liderados pela genialidade de Michel Platini dentro das quatro linhas, e por Giovanni Trapattoni no comando técnico. Ainda assim, esse verdadeiro esquadrão europeu precisou da disputa de pênaltis para vencer o campeão da Libertadores com menor orçamento em vários anos. A resistência do El Semillero del Mundo, o Bicho de La Paternal ou Tifón de Boyacá foi de fato digna de aplausos.



A contagem, até então, assinalava 15x10 em favor da América do Sul e nos onze anos seguintes haveria equilíbrio na divisão de títulos. Durante esse período, vários perfis de final se fizeram presentes, desde camisas pesadas contra outras de perfil alternativo (River Plate x Steaua Bucareste e Milan x Atlético Nacional) a verdadeiros clássicos intercontinentais (São Paulo x Barcelona, São Paulo x Milan e Ajax x Grêmio), passando pela icônica final da nevasca (Porto x Peñarol) e o super alternativo Estrela Vermelha x Colo Colo.


A final de 1995, com o título do espetacular Ajax sobre o Grêmio, nos pênaltis, após 120 minutos de 0x0 no placar, marcou o fim do apogeu da Copa Intercontinental e do equilíbrio de forças que marcou especialmente os dez anos anteriores.

E o placar assinalava: América do Sul 20x14 Europa.

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É hora de voltar. Na quarta-feira, embarcaremos para a última dessa série de viagens no tempo.

Bom diSRtod@s.

1ª Parte: O Mundial de Clubes - 1ª Parte - O Início da Copa Intercontinental

2ª Parte: O Mundial de Clubes - 2ª Parte - A Batalha de Santiago e o Caminho do Flamengo até a Copa Intercontinental

4ª Parte: O Mundial de Clubes - 4ª Parte - A Lei Bosman, o Fim da Intercontinental e o Mundial de Clubes da FIFA