sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

#003 - BAP falante!



Bom dia Buteco!!!


Essa semana, muitos portais de notícias locais repercutiram trechos de uma entrevista concedida pelo BAP ao jornal Ás, da Espanha, pegando, claro, as partes mais polêmicas. 

Vou fazer coro à repercussão, mas trazendo os pontos que considerei mais relevantes. Para quem quiser ler a entrevista na íntegra, está aqui. 

 Gestão e Credibilidade 

"O Flamengo contratou Lucas Paquetá após uma negociação muito difícil. O West Ham não pediu nenhuma nota promissória bancária, nem carta de garantia de que Flamengo pagaria. Tenho muito orgulho disso. Assim como o Atlético de Madrid não pediu isso com Samuel Lino. Se algum funcionário do Flamengo atrasar uma compra que temos que pagar, eu demito o funcionário. Não há mais." 


Essa primeira não é novidade, mas precisamos sempre ressaltar. Não sou pedagogo, nem moralista. Mas aquela frase que “Quem não conhece a história está condenado a repeti-la" precisa ser lema pra nossa torcida. A nova geração não pode esquecer o pré-eleição de 2012. Para quem viveu a era trevosa de pagar o almoço vendendo a janta e ouvia jogador dizer que fingia que jogava porque o clube fingia que pagava, ler isso é uma epifania. Ver gigantes europeus aceitarem o aperto de mão do Flamengo sem exigir fiador é o maior título administrativo que um rubro-negro pode ostentar. Quem hoje deve até a luz e o marmiteiro não consegue entender a satisfação que é ter o nome limpo na praça.


Margem para Investimentos e a Falta do "Espírito Turco" 



"Posso contratar mais de um Lucas Paquetá? Sim, posso. Vou? Não, porque não tenho certeza se com um Paquetá não posso ganhar tudo. Não faz sentido ele assinar três Paquetás. Se eu levar três pacotes e ganhar tudo, nunca saberei se teria ganhado com um ou dois. Você nunca vai investir tudo em um único negócio, porque se der errado, você está arruinado. Mas se der certo, eu invisto um pouco mais. O nível de endividamento do Flamengo gira em 20% da receita. No mundo do futebol, isso é muito baixo. Tenho a possibilidade de aumentar a renda do Flamengo, de aumentar minhas despesas graças ao Fair Play, tenho margem e, além disso, posso colocar o clube em dívida, se achar apropriado, por um ou dois anos." 

A saúde financeira é invejável, mas falta ao BAP um pouco de "espírito turco" aos microfones. Ficar se gabando da margem para gastar e da dívida baixa é dar um tiro no pé na hora de sentar à mesa. Sim, eu sei que todo mundo sabe o quanto arrecadamos, gastamos, etc. Mas ainda acredito que a pose conta. "Pra gringo é mais caro" é lei universal. Quando o Flamengo vai às compras gritando que é rico, ele aceita pagar o "imposto de ostentação". Manchester City e PSG sentem isso na pele, como o mundo sabe que eles nadam em dinheiro, o preço de qualquer reserva triplica no ato. O dirigente malandro chora miséria, esconde o ouro e negocia cada centavo como se fosse o último. Ter o cofre cheio é ótimo; andar com a chave no pescoço, não. 

50 milhões de euros? 



"Nos últimos dez anos, nosso pior ano em vendas foi de 50 milhões de euros. O ano passado foi o melhor, com 90 milhões de arrecadações. Hoje estou falando com vocês aqui e já vendemos 20 milhões de euros este ano... e é janeiro!" 

O dado me intrigou, mas confesso que faltou tempo pra ir verificar cada temporada e rebater, então a princípio, vou tratar como verdade (agradeço se alguém quiser completar nos comentários). Esses 50 milhões de euros anuais em vendas não são garantidos por decreto divino. Olhando para o Ninho hoje, não vemos uma venda de 25 milhões de euros pronta para ser assinada amanhã, salvo se decidirmos canibalizar o elenco principal e perder qualidade técnica. A "fábrica" precisa de manutenção constante. Contar com esses valores como se fossem receita fixa, sem ter um novo fenômeno batendo à porta, é um risco que pode custar caro ao planejamento esportivo de longo prazo. 

Estádio 



"Hoje, o Brasil tem uma das taxas de juros mais altas do mundo. Então, se decidirmos construir um estádio para o Flamengo, esse estádio deve custar mais de 500 milhões de euros. Os juros disso seriam de 75 milhões de euros por ano. Ele teria que pagar, em juros, quase dois Lucas Paquetá por ano. Por que ele faria isso se tinha o Maracanã? Tenho terreno, mas se um dia as taxas de juros no Brasil voltarem a 2 ou 3% ao ano, ..., talvez faça sentido construir um estádio." 

Este que vos digita é o maior entusiasta de um "Zicão" para 90 mil pessoas, um caldeirão para entortar o Cristo Redentor. Mas a conta do BAP é pragmática. Gastar R$ 400 milhões por ano só de juros para ter o prazer da estrutura própria é insanidade. O Maracanã, com todos os seus problemas, ainda é o palco que nos permite investir no time sem entregar as chaves do clube para um banco. Dependemos de uma gestão financeira responsável em Brasília (risos) pra fazer o estádio ser viável. 

Sinthético e SAF 

"Alguns clubes no Brasil têm estádios com grama sintética porque fazem shows. Eles fazem shows! Acho que eles estão no ramo errado. Eles deveriam se dedicar ao show business e abandonar o futebol... O que não pode acontecer é o que estamos vendo em um clube centenário como o Botafogo. Você cria uma SAF, permite que alguém compre o clube, e ele está pior do que antes... Você recebe milhões, não paga nada para ninguém e aumenta a dívida anterior. Tem que haver uma punição esportiva." 

O BAP aqui destila o veneno necessário. Enquanto os concorrentes correm pra jogar com palco ainda montado fechando parte da arquibancada e trocam grama por carpete de plástico, o Flamengo foca na bola. É a diferença entre um clube de futebol e uma casa de eventos. 

Vamos concordar que o gramado do Maracanã não é Wembley, mas comparado a 20 e 21, a mudança foi considerável. Pelo menos  sobrevivendo aos dois times mandar seus jogos sem parecer Kingslanding depois do surto da platinada a cada 15 dias. No mundo ideal, o Fluminense tinha que sair do Maracanã nos seus jogos de menor apelo. Jogo pra 25 mil pessoas não devia ser no Mário Filho.

Quero acrescentar, para quem interessar em ouvir o contraditório, um trecho da entrevista com Alex Passos, do presidente da Chapecoense, no Charla Podcast, argumentando porque o clube catarinense aderiu ao plástico. 

Após essa entrevista (link para quem não conseguir acessar), decidi assistir a alguns lances, e confesso que não tem, de fato, aquela sensação de que a bola tá correndo mais do que deveria, ou que quica mais alto do que o natural. E paro por aqui, na opinião.

E sobre a SAF "à brasileira", é o doping financeiro institucionalizado: contratam craques, dão calotes e aumentam a dívida sem perder um ponto sequer. É o cenário surrealista onde o crime de gestão compensa — e a gente sabe que no Brasil, o crime também veste paletó e gravata. Preto e branco

A Disney Rubro-Negra 

"Minha visão é que o Flamengo deve ser gerenciado como se fosse a Disney. Vendemos entretenimento. Não possui um time de futebol que gere recursos para outras modalidades. Por quê? Porque a capacidade do próprio futebol de gerar dinheiro é finita. Não é por outro motivo que você vê clubes europeus indo para a América, procurando novos fãs na Ásia, fazendo pré-temporadas no exterior, abrindo novos mercados. Isso é como a exploração do mundo nos séculos XV e XVI, é a mesma coisa. Só que, em vez de pegar caravelas e dominar o mundo exterior, você tenta fazer isso pegando aviões e indo para a China com um time de futebol. Mas realmente se trata de abrir novos mercados para o seu produto. De forma análoga, estamos fazendo isso com Flamengo no Brasil, na América do Sul. O resultado tem sido muito positivo." 

A analogia das caravelas é charmosa, mas a reflexão é profunda. O que você leitor, enxerga o Flamengo fazendo para internacionalizar a marca no Chile, na Bolívia ou em Lima, que virou quase nossa casa? O discurso de "vender entretenimento" é belo, mas na prática ainda somos uma marca muito regionalizada. Para ser a Disney do futebol, não basta o discurso bonito; é preciso que a marca seja onipresente e a execução impecável. O potencial é infinito, mas muito mais poderia ser feito para tornar o Flamengo uma potência global de fato. Se somos entretenimento, precisamos continuar concorrendo ao Oscar todo ano.  

O Brasil tem 41 mil Riquelmes registrados. Ucara que nunca jogou aqui, nunca mostrou carinho pelo país. Pelo contrário. Veio aqui e surrou religiosamente cada clube que encontrou pela frente. Cruzeiro, Palmeiras, Santos, Grêmio, Corinthians. Eu sonho em daqui 20 anos ver dezenas de Arrascaetas surgindo para o futebol, porque nasceram na nossa época. 

Mas além do desempenho esportivo, pra ser a Disney, precisamos mandar nossas estrelas ao mundo divulgar "o filme" antes da estreia, precisamos participar dos Talk Shows deles, ocupar o prime time das redes sociais deles e fazer com que um garoto em Montevideo ou Santa Cruz de La Sierra queira a nossa camisa não porque ela é bonita, mas porque ele consome o nosso conteúdo. 

Por mais que o discurso do BAP seja comovente, nessa área vejo tanta oportunidade de melhora. Quero saber de vocês, o que acham.  

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Quero agradecer ao Taka e ao Carlos, pelas gigantes comparações de semana passada. São grandes elogios pra mim, de coração.  
 
Decidi que não era semana pra falar do campo e bola. Guardei minha fluência em cornetês para as próximas, espero que não precise usar.

 
Sextou, e por ser Carnaval, mais juízo ainda! Façam como eu. Um final de semana estudando processo penal longe dos perigos noturnos!  

Puxa uma cadeira e bora prosear!