terça-feira, 14 de abril de 2020

E agora, como é que eu fico nas tardes de domingo?


Nesses tempos difíceis de coronavírus, a genial pergunta feita pelo grande Moraes Moreira, querido rubro-negro falecido ontem, ganhou outro sentido e passou a ser feita por torcedores de todos os clubes, saudosos de seus times e do futebol das tarde de domingo.

Mas ela é, acima de tudo, uma pergunta nossa, rubro-negra.

Futebol não é um simples entretenimento.

Encanta pela arte e pela competição a ele inerentes, mas vai além, ao abrir campo para a projeção do torcedor.

Que projeção?

Em artigo escrito há décadas, o intelectual e ótimo cronista Arthur da Távola analisou a paixão do torcedor, ao observar que ele se projeta no time e nos seus heróis e, embalado pelas vitórias e conquistas em que se envolve emocionalmente, assim se torna um vencedor.

Num texto inspirado, Mestre Arthur abriu as entranhas dessa paixão, mostrando-nos que a tensão que a gente vive nas partidas de nossos times está relacionada com uma projeção que fazemos, na qual nossa expectativa de vitória na vida é projetada em nossos ídolos e em nosso time.

Traduzindo: O torcedor leva porrada daqui, porrada dali, mas, de repente, num domingo de Maracanã, nosso time vai lá, “passa por cima do inimigo” e a gente sente a compensação das agruras da vida, a gente VENCE!!!, ainda que na fantasia de fugazes noventa minutos.

Tempos depois, com a sensibilidade e o poder de síntese dos poetas, Moraes Moreira pegou na veia, quando cantou, na transferência de Zico para a Itália:

E agora, como é que eu fico
Nas tardes de domingo
Sem Zico, no Maracanã
E agora, como é que eu me vingo
Das duras derrotas da vida
Se a cada gol do Flamengo
Eu me sentia um vencedor...

No post de hoje, presto homenagem ao grande rubro-negro Moraes Moreira, artista que soube sintetizar e eternizar, em alguns poucos versos, o que Zico foi para o Flamengo e para cada torcedor da Nação Rubro-Negra.

Ele era um de nós.

Ele nos entendia.

Ele nos representou.

Saudações Rubro-Negras.