terça-feira, 31 de março de 2020

Liderança, Equipes de Alto Desempenho e Flamengo



No “post” de sexta-feira, 27 de março, o André teve uma grande sacada que, também na linguagem do vôlei, acabou funcionando como ótima levantada de bola.
Ao falar de jogadores que tiveram participações importantes em fases ruins do Flamengo e dos times então montados pelo clube, trouxe a turma do Buteco de volta aos debates.
Ontem, o Gustavo levantou outra ótima bola, a de gols no sufoco, e o Buteco viveu momentos bem rubro-negros, num bom astral que espero que perdure.
No “post” de hoje, tento ensaiar um olhar para o futuro, a partir de uma interrogação:

Qual será o futuro deste Flamengo vencedor quando tiver passado a crise do coronavírus?

Não, amigas e amigos do Buteco, longe de mim a pretensão de fazer profecias neste momento de bolas de cristal totalmente embaçadas.
Meu propósito é, a partir do exame de certas características da liderança de Jorge Jesus e do time como equipe, desenvolver reflexões que possibilitem a definição de expectativas (não profecias) sobre que Flamengo teremos, depois de passada esta grave crise.
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Os analistas do mercado financeiro chamam de Cisne Negro ao evento extraordinário e imprevisto que quebra toda a lógica vigente e instala uma nova realidade que, em muitos aspectos, “zera o jogo” e exige um recomeço em outras bases que precisam ser decifradas.
Neste primeiro trimestre de 2020, que hoje se encerra, a realidade que vivíamos no futebol brasileiro e sul-americano era a de um Flamengo muito forte, com potencial para cumprir um ciclo vitorioso capaz de pelo menos aproximar-se, em conquistas, do vivido pelo Mais Querido na era Zico, entre 1978 e 1983.
Enquanto, no fim do ano passado, o Flamengo dava seus primeiros passos na construção desse novo ciclo, ganhando o Brasileirão e a Libertadores de 2019 e enfrentando muito dignamente o poderoso Liverpool na final do Mundial, um novo vírus começava sua trajetória destruidora na China.
Alguns meses depois, como escrevi no “post” de 17 de março, o mundo vive uma pandemia e as providências preventivas necessárias à sua contenção em limites administráveis impuseram duras restrições à circulação de pessoas e a suspensão de eventos de vários tipos, inclusive os esportivos, criando uma nova realidade ainda impossível de compreender e avaliar, quanto à sua extensão e aos seus efeitos.
É dentro deste novo cenário e a partir de alguns ângulos específicos, a liderança de Jorge Jesus e as características de equipes reais com potencial para o alto desempenho, que ensaio buscar uma resposta para a pergunta:

Qual será o futuro deste Flamengo vencedor quando tiver passado a crise do coronavírus?

O texto que hoje lhes apresento havia sido desenvolvido para publicação em 14 de março.
Naquele dia, porém, fiz dele apenas uma pequena citação.
No “post” de hoje, publico-o integralmente, com algumas atualizações, usando-o como base para a resposta que procuro.
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Liderança e Equipes de Alto Desempenho foram os dois assuntos que estudei com mais interesse na minha vida profissional.
Tentarei aqui transitar brevemente por algumas ideias sobre esses assuntos, para relacioná-las com o Flamengo e com a liderança de Mister Jorge Jesus.
Aprendi no livro “A Força e o Poder das Equipes” (The Wisdom of Teams), de John Katzenbach e Douglas Smith, que pessoas reunidas para trabalhar em grupos nem sempre se constituem em “equipes reais”, aquelas que podem evoluir para se tornarem “equipes de alto desempenho”.
Vejo, no Flamengo atual, diversas características das equipes reais e potencial para a consolidação e expansão, ao longo do tempo, do alto desempenho já alcançado.
Como não conheço os bastidores do clube e, mais especificamente, do futebol profissional do Flamengo, só posso fazer uma análise à distância, mas arrisco-me a fazê-la porque enxergo, no que chega à superfície, muitos sintomas de que o Flamengo vive o momento raro em que um grupo de pessoas se constitui como equipe real e caminha para firmar-se como uma equipe de alto desempenho.
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Segundo Katzenbach e Smith, as equipes reais se formam quando os grupos de que se originam são expostos a um importante desafio de performance e esse desafio adquire significado para todos os envolvidos.
O Flamengo tem, inegavelmente, importantes desafios de performance e há claros sinais de que eles têm significado para jogadores, comissão técnica e demais envolvidos na luta pelas conquistas.
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Equipes reais e de alto desempenho são comandadas por uma “ética de performance”, que prevalece sobre o que eu chamo de “ética do conforto”.
O estilo de Jorge Jesus e as respostas que os jogadores têm dado às duras demandas a que têm sido expostos me fazem crer que não há, no grupo, espaço para a “ética do conforto” e que a “ética de performance” prevalece no atual time do Flamengo.
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O líder tem papel preponderante na formação de equipes orientadas pela ética de performance, seja pela criação do clima adequado para o prevalecimento desse espírito no grupo, seja pela sustentação da equipe em momentos difíceis.
Jorge Jesus é um líder que tem sabido servir bem à ideia de formação de uma equipe voltada para o alcance de altíssimos desempenhos e parece ter “casca” para lidar com os momentos difíceis, dos quais nenhuma equipe está livre.
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Nas equipes reais e nas de alto desempenho, o brilho coletivo não anula a possibilidade de que cada um tenha sua própria luz.
Há espaço para que floresçam e se valorizem as contribuições e brilhos individuais, mas a cooperação prevalece sobre qualquer tendência à competição e ao individualismo.
Falou-se, em determinado momento, da possibilidade de ciúme entre Gabigol e Bruno Henrique.
Essas coisas podem acontecer – e podem até impedir que a equipe se consolide como tal – mas, na hora em que as vitórias e conquistas começam a chegar, eles descobrem que é muitíssimo melhor serem parceiros do que concorrentes.
O que temos visto é a demonstração de que Bruno Henrique e Gabigol valorizam muito a parceria que eleva o desempenho de ambos.
E é o que parece prevalecer em toda a equipe rubro-negra, assim entendido o conjunto de dirigentes, comissão técnica, departamentos auxiliares e jogadores.
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Nas equipes reais, há menos formalismo. A hierarquia e a liderança são mais flexíveis e todos se subordinam ao que eu chamo de “hierarquia do projeto”, aquilo que faz com que cada um, inclusive o líder, esteja disposto a abrir mão de posições e pontos de vista pessoais, em favor do resultado coletivo.
O Mister é um líder à moda antiga, certamente cioso de sua autoridade, mas intui que, numa equipe com potencial para o alto desempenho, a hierarquia convencional pode abrir espaço para a “hierarquia do projeto”, aquela em que prevalecem as melhores ideias, não a ideia do chefe.
Ele expressou isto ao dizer que se sente, ao mesmo tempo, o líder e mais um entre os jogadores.
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Em equipes reais, há muito trabalho, muita conversa, exigência de honestidade de uns para os outros, muita discordância em busca da melhor solução e há, também, completa abertura, inclusive para cobranças mútuas, sem prejuízo do respeito existente entre seus integrantes.
Já vimos discussões dentro de campo e cobranças entre jogadores do Flamengo, mas cadê a crise?
Ao contrário, nos momentos mais críticos, como o da falha de Arão e Gerson no jogo contra o River, não houve caça aos culpados.
É verdade que a falha foi muito atenuada pela virada no fim do jogo, mas não me lembro de ter ouvido uma palavra de crítica de integrantes da equipe.
É comum, também, vermos muitas conversas durante os jogos, de jogadores com Jorge Jesus e entre jogadores, mostrando o quanto eles se mantêm focados na busca das vitórias.
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Equipes reais são divertidas. As pessoas que as integram gostam de estar juntas, de trabalhar juntas, divertem-se com isto. Nelas, desenvolvem-se amizade e companheirismo.
O Mister expressou isto ao dizer, recentemente, que se sente mais leve, mais solto, “mesmo sendo um líder”.
Disse, também, que nunca compartilhou tanta emoção e tanta amizade como compartilha com os jogadores do Flamengo.
Com todo o rigoroso profissionalismo que costuma exibir, já se permite divertir-se com as vitórias, entrar no clima de farra dos jogadores, fazendo muque e “vapo” nas comemorações.
Passa-me a impressão de que, enquanto ensina muito a seus comandados, também aprende com eles.
Aprende principalmente, entre surpreso e feliz, que a alegria no trabalho não é uma ameaça à busca de grandes desempenhos e que, ao contrário, quando corretamente posicionada, ajuda a alavancá-los.
Tudo isto também é sintoma de que o fenômeno da equipe real é vivido, hoje, no Mais Querido.
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O Flamengo me surpreendeu ao chegar rapidamente ao alto desempenho, percorrendo atalhos que eu nem imaginava existirem.
Creio que essa rapidez pode ser creditada a dois fatores: à grande competência do Mister e de sua comissão técnica e ao fato de que o grupo de titulares que ele encontrou tem muitos jogadores escolados.
Isto parece ter encurtado o tempo normalmente exigido para percorrer-se a curva de aprendizado.
Ainda assim, apesar de nosso time já ter conseguido alguns resultados espetaculares, prefiro considerar que o Flamengo é, hoje, uma equipe com potencial para o alto desempenho.
Faço-o, não por ser gato escaldado (sou!), mas porque acho que a equipe tem muito a evoluir, passando por testes de “solidez”, saindo-se bem e alcançando resultados ainda mais espetaculares.
Um exemplo de teste?
A falha já citada de Arão e Gerson no gol do River, na final da Libertadores 2019.
Outro?
A expulsão do Arão na final da Recopa 2020, pela qual ele teve a grandeza de se desculpar publicamente, acenando para a torcida com a fisionomia séria.
O que se viu nesses testes foi o time reunir forças e ir buscar as vitórias consagradoras.
Lembram-se da demissão do Pelaipe?
Turbulências nada desprezíveis, inclusive com desafio às vaidades pessoais dos dirigentes, foram colocadas em segundo plano, para que o Flamengo pudesse seguir fazendo seu trabalho e buscando títulos.
Outros testes virão.
O desafio é manter o foco no sucesso do clube e do seu ótimo time.
Não é fácil e não há de durar para sempre, mas, enquanto persistir, será bom demais.
Para nós, interessa que dure muito, porque há de significar muitas vitórias e conquistas.
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O Mister é um líder sem estudo teórico, forjado pela sua própria intuição e pela vontade de, com liderança e competência, tornar-se um grande vencedor.
A música cantada pelas Frenéticas, em mil e novecentos e antigamente, falava de uma fera de pele macia.
Há líderes que são o inverso. A “pele” e a fala podem ser duras, mas há neles sensibilidade e bom coração.
É cedo para firmarmos uma avaliação, um julgamento, porque lideranças podem desgastar-se com o tempo, mas o Mister parece ser assim. Há sinais disso.
Ele é duro nas cobranças, salta, balança os braços, dá show na beira do campo, mas, ao beijar o Vitinho em determinado momento de um jogo, mostrou a sensibilidade de dar carinho a alguém que ele percebia precisar de apoio para se fortalecer.
E os resultados com o Vitinho começaram a aparecer.
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É interessante notar como, em algumas frases recentes, Jorge Jesus usou palavras e expressões iguais ou semelhantes às empregadas por Katzenbach e Smith ao estudarem as equipes reais e as de alto desempenho.
Em reportagem publicada pelo jornal “A Bola”, de Portugal, disse o Mister:
“Chegamos aqui como desconhecidos e, pouco a pouco, fomos conquistando o nosso espaço. Hoje, os adeptos do Flamengo amam-nos e respeitam-nos e isso faz sentir que o nosso trabalho tem significado.”
Em outro trecho da reportagem, o Mister comentou, falando da amizade que sente existir no grupo e, mais especialmente, entre ele e os jogadores do Flamengo:
“Este grupo tem uma paixão muito grande por mim e eu não estava habituado a isso. Tinha grupos frios, profissionais sim, mas sem sentimento.”
Ponto importante a ressaltar é que não há sinais de que essa amizade seja daquele tipo “camaradagem acomodada” que se instala em grupos voltados para a “ética do conforto”.
Os sinais exteriores são de que a amizade que se constrói no Flamengo de Jorge Jesus é forjada na admiração mútua, aquela que se desenvolve entre pessoas de uma equipe movida pelos valores morais da “ética de performance”.
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Tudo aponta para estarmos presenciando o fenômeno raro da formação e desenvolvimento de uma equipe real que já colhe alguns resultados espetaculares e, o que é muito bom para a Nação, vestida com o Manto Sagrado.
Temos um líder que sabe e ensina muito, mas que se renova ao descobrir a possibilidade e o prazer de aprender com seus liderados, inclusive sobre amizade e alegria no trabalho.
E temos hoje, no clube, um suporte orgânico saudável que permite que sonhemos com um ciclo mágico.
O gato escaldado não pode deixar de registrar que não existe jogo ganho de véspera, mas o caminho que o Flamengo vem seguindo me entusiasma muito.
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Um recado final para Mister Jorge Jesus:
Eu tive a sorte de fazer parte de algumas equipes de alto desempenho.
É um privilégio.
Pare de sonhar com a Europa, Mister.
Fique com a gente.
Você está abraçado com a felicidade.
E esse abraço não tem preço.
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E assim, com um apelo ao Mister, encerrava-se a coluna que escrevi com antecedência e que foi então atropelada pelo Cisne Negro COVID19.
Quando falei em testes de solidez da equipe, não podia imaginar que estava a caminho o teste maior, aquele que vai exigir que, não apenas o time e a comissão técnica, mas todo o Flamengo (nós, inclusive) se una e lute muito.
O Flamengo já havia decolado, mas ainda estava naquele trecho crítico do voo em que o avião desenvolve sua subida.
Pois foi exatamente nesse momento, aquele em que a equipe se consolidava como equipe real, que veio o grande tranco que abalou a todos.
É impossível fazer afirmações seguras sobre que Flamengo teremos depois de atravessada essa zona de enorme turbulência, mas tenho bons motivos para acreditar que ainda será um Flamengo comprometido com os valores que produziram as conquistas de 2019 e do início de 2020 e, principalmente, com a “ética de performance” que poderá levar esse grupo a um longo ciclo de grandes realizações.
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Reparem que, ao tentar responder à pergunta inicial, não falei dos nossos adversários e das consequências que poderão sofrer sob o impacto da pandemia e de seus graves efeitos.
É claro que, no cenário pós-pandemia, muitos de nossos principais adversários poderão estar enfraquecidos, mas não especulo com isto por entender que, na essência, o que importa é que Flamengo teremos nesse cenário futuro.
Por quê?
Porque, se o Flamengo conseguir, como espero, estender o contrato de Jorge Jesus e manter as características que desenvolveu como equipe real, isto será muito mais relevante para a continuidade do ciclo vitorioso aberto em 2019 do que o eventual enfraquecimento dos adversários.

E vocês?
Que cenários acreditam que teremos?
Que futuro imaginam para o Flamengo, quando tiver passado a crise do coronavírus?
SRN.