segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Prioridades, Flamengo e o Tempo


Salve, Buteco! César; Rodinei, Rhodolfo, Thuler ou Marí e Filipe Luis; Piris da Motta e Hugo Moura; Berrío, Reinier e Lucas Silva; Vitor Gabriel. Esse seria o time reserva que o Flamengo poderia ter escalado ontem para enfrentar o Bahia na Fonte Nova, considerando as contusões e os atletas disponíveis. Jorge Jesus errou ao desconsiderar o desgaste físico e mental ao não rodar o elenco? Defendo a rodagem de elenco há um bom tempo aqui no Buteco e acho que Jorge Jesus utiliza menos a estratégia do que eu gostaria (e consideraria ideal), mas devo reconhecer que o cenário de ontem não favorecia qualquer decisão por parte do nosso treinador, especialmente pelas alternativas do meio para a frente. Ainda assim, parece que o time sentiu a ausência de dois atacantes e, em razão disso, mesmo não sendo o ideal, talvez a escalação do colombiano Berrío ao lado do Bruno Henrique tivesse ao menos mantido o time próximo de suas características. Porém, convenhamos, não seria garantia de nada, diante do enorme desgaste do time.

Além disso, é preciso considerar o fator Diego Alves, que, sem dúvida, em grande proporção (não exclusivamente) contribuiu para o desastre, falhando em mais de um gol. Se o contexto do jogo era desfavorável, a atuação do goleiro, quando menos, causou a elasticidade do placar.

***

O desastre da etapa inicial reforçou algumas dúvidas que já tinha justamente em relação à rodagem de elenco entre as duas pesadas competições que disputaremos ao menos até o final do mês de agosto. Será que algumas peças importantes, como, por exemplo, Rodrigo Caio e Gabigol, estarão prontos para entrar em campo pelo menos no clássico do dia 17? Do contrário, o tempo será gasto não com preparação, mas apenas com recuperação, o que apenas atrasaria o desenvolvimento do time. Por isso mesmo, é legítimo indagar se o elenco terá condições físicas para encarar com igual atenção o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores da América. Porém, como o Flamengo é o clube que nunca prioriza, a dúvida não passa de uma mera argumentação retórica.

Priorizar não é mesmo fácil, por envolver escolhas extremamente difíceis, mas também é bom lembrar à exigente Nação Rubro-Negra, a qual cobra do clube ganhar todas as competições que disputa, que em qualquer lugar do mundo é muito raro uma mesma equipe conquistar, na mesma temporada, os títulos nacional e continental. Sem rodagem do elenco, que em tese viabilizaria que não se decidisse pela priorização, a difícil meta fica ainda mais distante, o que nos leva de volta ao ponto inicial: como rodar o elenco, mantendo a competitividade, em meio a tantas contusões? Observem que o problema transcende a derrota de ontem: com os reservas, o time provavelmente seria derrotado, talvez por um placar menor, se o goleiro tivesse sido outro, mas dificilmente teria ido além disso, dado o desnivelamento do elenco, causado pelas contusões. Logo, minha preocupação vai muito além das escolhas de ontem do treinador. Infelizmente, sou cético quanto à possibilidade de disputar ambas as competições com o time titular estando o elenco tão desfalcado, especialmente no meio de campo.

Não se esqueçam que, por uma decisão desastradamente infeliz da Diretoria, um semestre foi desperdiçado com um treinador de convicções ultrapassadas e estilo oposto ao do elenco, fora o preparador físico que até então ministrava treinamentos funcionais na praia. Ocorre que trabalhos como o de Jorge Jesus exigem tempo para sua consolidação. Nosso treinador português chegou no final de junho, mas dirige o Flamengo em competições oficiais há menos de um mês. O exemplo de Jorge Sampaoli é didático: seu início no Santos não escapou de goleadas e eliminações para equipes ainda mais fracas do que o Bahia. O tempo, contudo, mostrou como foi correta a decisão da direção santista ao contratá-lo, embora pareça evidente que foi justamente a eliminação nas copas que permitiu, por vias tortas, que o trabalho fosse desenvolvido com o que o elenco oferece, em uma só competição, com o devido tempo para treinamento e recuperação dos atletas, extraindo o máximo de cada um.

Tempo é o que o Flamengo precisa e justamente o que nunca deu ou pôde dar neste século aos seus treinadores, seja para os piores, seja para os melhores que teve. Digo que é o que o Flamengo precisa porque as metas estabelecidas tanto pela Diretoria, quanto pelo treinador e até pela torcida são altas e por isso exigem tempo. Trata-se, a meu ver, de uma conclusão óbvia e inescapável. E tudo se dificulta com o fato do clube não trabalhar com forma alguma de priorização dessas metas. Parece que se forma um círculo vicioso, no qual a ansiedade pela longa fila sem títulos importantes gera cobranças prematuras e exageradas, que a seu turno provocam uma ciranda sem fim de treinadores e absoluta ausência de planejamento e estabilidade.

Considero o trabalho de JJ promissor, mas será que dessa vez será diferente? Só a Diretoria e o próprio treinador poderão responder.

***

Foi apenas o sétimo jogo de Jorge Jesus no comando do Flamengo, mas um dos pontos que merecerá a atenção do nosso treinador português daqui por diante é o desempenho do time como visitante. Até aqui, as atuações foram oscilantes e muito distantes do desempenho como mandante, em que pese as seguidas contusões e o pouco tempo para treinar e adaptar os jogadores à nova filosofia.

Na próxima quinzena o Flamengo não terá jogos intermediários, mas apenas nos finais de semana, contra Grêmio (sábado, 10/8) e Vasco da Gama (sábado, 17/8). Curiosamente, os confrontos ocorrerão em um contexto muito raro, que no passado quase sempre favorecia particularmente esses dois adversários. Estou acostumado a ver o Flamengo viajar para o Sul em crise ou seriamente desfalcado, daí advindo as derrotas e alguns placares elásticos. Dessa vez, porém, será o Grêmio que irá ao Rio de Janeiro após uma sequência de 5 jogos nos meios de semana, pelas Copas do Brasil e Libertadores, intercalados com os do Campeonato Brasileiro.

Quanto ao Vasco da Gama, não me lembro da última vez que o Flamengo dispôs de tanto tempo, em um campeonato brasileiro, para se preparar antes desse específico clássico, que, coincidência ou não, vinha antecedendo ou sucedendo pesadíssimos confrontos pela Libertadores ou Copa do Brasil.

***

A palavra está com vocês.

Bom dia e SRN a tod@s.