quarta-feira, 13 de abril de 2016

Talento e 4-4-2


O ex-goleiro do Flamengo, Raul Plassmann, campeão de tudo, absolutamente tudo pelo time rubro-negro, ao pendurar as gloriosas luvas afirmou numa entrevista que a razão do seu sucesso era o talento, em resposta a uma pergunta sobre como havia sido tão bem-sucedido mesmo tendo pouco prazer em treinar;

O bom Raul não era afeito a treinamentos, mas era dotado de um extraordinário senso de colocação, virtude de poucos jogadores da posição. Provavelmente essa condição tirou-lhe a oportunidade de integrar a seleção brasileira na Copa do Mundo de 1982, pois o treinador de então, Telê Santana, preferia aqueles que se dedicavam ao aperfeiçoamento em suas atividades;

Anos depois, Romário costumava indagar aos que lhe cobravam mais empenho nos preparativos: "Treinar pra quê se já sei o que fazer?". Conta a lenda dos gramados que o baixinho sequer fez uma cobrança de penalti nos dias que antecederam à final da Copa de 1994. No momento fatal da disputa de penaltis do Mundial, pegou a bola, foi lá e fez o gol;

Os exemplos de Raul e Romário são raridades em qualquer profissão. Suponho que se esses jogadores se dedicassem ao aprimoramento de suas virtudes seriam muito melhores do que foram. Bem condicionados fisicamente, creio que teriam dobrado os seus rendimentos técnicos, que não foram poucos;

Oscar Schmidt, um dos melhores jogadores de basquete do mundo em todos os tempos, recordista mundial de pontuação do basquetebol com 49.737 pontos, não gostava quando o chamavam de "Mão Santa". Alegava que treinava muito e ficava com calos nas mãos para chegar ao ápice do alto rendimento que apresentava, não sendo justo​​ atribuir a fatores extraterrestres a sua espetacular performance. Eis um caso de talento aperfeiçoado pela repetição dos fundamentos e humildemente admitido pelo próprio atleta;

Parênteses. Involuntariamente, citei três foras de série que tiveram a honra suprema de vestir o manto Rubro-Negro, sagrado e consagrado internacionalmente.  

O rodeio acima foi para exaltar o talento e chegar no Flamengo que vinha jogando absurdamente mal, sem qualidades individuais sobressaindo e sem treinamento adequado, com três atacantes e três homens no meio de campo, todo escancarado para os adversários;

Alguns lembram a meiúca (teórica no 4-3-3) dos áureos tempos com Andrade, Adílio e Zico, tendo à frente Tita, Nunes e Lico. Esquecem que, na prática da bola rolando, Tita e, principalmente, Lico voltavam para dificultar a saída de bola do adversário, congestionando a intermediária do campo para começar a se defender com oito ou nove homens, ficando Nunes na espreita do contra-ataque mortal;

Para entrar aberto no meio de campo e facilitar a vida de todos adversários, inclusive os pequenos, é necessário um ataque com a qualificação do acima citado, além da chegada à área dos meio-campistas para fazer gols aos borbotões pois, certamente, o time sofrerá também, um ou mais gols, graças aos espaços concedidos onde o jogo é pensado e ganhado;

Daí que Muricy fez muito bem ao mudar o esquema para o 4-4-2, formação empregada com sucesso em todas as categorias do clube e exaltada por especialistas do mundo do futebol como a que melhor preenche o espaço retangular de um campo, tendo contado na iniciativa com o feliz retorno do Mancuello;

Aliás, o hermano fez um gol com uma curva perfeita e assinatura do mito Zico. Ele, sempre ele para sempre!

SRN!