domingo, 31 de janeiro de 2016

Alfarrábios do Melo

1985.

“Zê ípsilon jota, quatrocentos e cinqüenta e oito... Rádio Globo!... Globo!”

Depois da vinheta, rebenta o Panorama Esportivo, programa diário de notícias abordando o cotidiano dos seis grandes cariocas. Cada setorista vai narrando as novidades do dia da equipe que cobre, falando dos treinamentos, dos bastidores, enfim. E, no meio do programa, tem “a palhinha” do famoso comentarista, que costuma expor sua visão sobre algum aspecto do futebol carioca.

O assunto do dia é a expectativa sobre o início da disputa da Taça Rio, que está prestes a acontecer. O cronista vai tecendo suas impressões e prognósticos. O Fluminense, que conquistou a Taça Guanabara, teoricamente deve “tirar o pé”, mas por ter um conjunto acertado, talvez não queira cometer o erro do Flamengo em 84 e jogue para matar logo o returno. O Vasco (vice da Taça GB), na visão do comentarista, está “voando”, com seu novo ataque leve, talentoso e veloz (onde brilha o garoto Romário). O Bangu, com a mesma base que chegou à Final do Brasileiro, é outra força respeitável. O Botafogo, que andou derrapando, parece dar sinais de recuperação. E há o América, com um time de veteranos, que pode fazer algum barulho. E o Flamengo?

“O Flamengo é carta fora do baralho”. E encerra, após alguma peroração.

A Gávea não vive lá seus melhores dias. Seu principal reforço para a temporada, o ídolo Zico, foi abatido a patadas na segunda rodada e até agora padece em um penoso trabalho de recuperação de uma lesão que já caminha para o segundo mês sem que se vislumbre uma melhora visível. O joelho sempre inchado denuncia uma contusão mais grave do que os amenos laudos médicos preconizam, o que já começa a gerar certo desconforto.

O outro reforço extraclasse, Sócrates, após ser apresentado com rumorosa festa, fraturou o tornozelo no último treino antes do Fla-Flu em que iria estrear e está fora da temporada, o que quebra o moral do elenco e da torcida. Ademais, o treinador escolhido para substituir Zagalo (demitido após o fiasco no Brasileiro) é o veterano linha-dura Joubert, que consegue a “proeza” de se desentender com a torcida, o elenco e a imprensa, o que ocasiona a formação de um ambiente instável e desunido, o que, naturalmente, se reflete em campo com péssimas atuações e resultados decepcionantes. E ainda há as Torcidas Organizadas, que começam a utilizar a violência como linha de ação para ascender politicamente dentro do clube, tornando-se um foco de problemas, como na derrota para a Portuguesa da Ilha (0-1), em que quase se destruiu o Luso-Brasileiro a pedras e mesmo tiros.

O Flamengo está triste. Carrancudo. Desmotivado.

O time encerra com “chave de ouro” sua participação na Taça GB, ao ser goleado pelo Vasco (0-4), numa partida disputada sob circunstâncias estranhas (o Flamengo tem precocemente dois jogadores expulsos). O resultado sela a (esperada, talvez ansiada) demissão de Joubert. Os efeitos não são mais devastadores porque, por graça do destino, o elenco cumpre o planejado e sai do Maracanã (a pedradas) diretamente para o Galeão, de onde embarcará para os Estados Unidos, para a disputa de dois amistosos.

“O Flamengo é carta fora do baralho”.

A excursão nos EUA é um sucesso. O time vence o San Jose Earthquakes (3-0) e o Chivas Guadalajara-MEX (2-0), sob o comando do auxiliar técnico Sebastião Lazaroni, ex-preparador físico do clube. Mas o bom desempenho em campo logo é soterrado por uma forte polêmica. Zico, que viajou com o elenco por exigência dos organizadores (que queriam atestar sua falta de condições clínicas), realiza, a mando da diretoria, uma bateria de exames com o médico Jamie Fox, nome conceituado no ramo. Os exames mostram fortes indícios de uma lesão séria nos ligamentos do joelho, provavelmente requerendo uma intervenção cirúrgica, o que só poderá ser confirmado com a realização de uma artroscopia. O diagnóstico explode uma crise no Departamento Médico do clube, que redunda na demissão do seu médico titular. O médico demissionário sai atirando, alegando que “ordens de cima” impediram a realização da cirurgia, por ele também diagnosticada. O clube volta ao Brasil exatamente como saiu. Em crise.

Enquanto Zico se submete à artroscopia e, na mesma sessão, à cirurgia por ela detectada, e dá início ao seu calvário (que durará muito mais que as seis semanas inicialmente previstas), o Flamengo se prepara para a estréia na Taça Rio. O seu primeiro jogo será com o Bangu, que é tido como um dos candidatos à taça, e recebe honras de favorito absoluto para o clássico. Desanimada, a torcida flamenga não vai ao Maracanã, que recebe modestos 10 mil torcedores. E quem não vai perde um dos melhores jogos do ano, em que um Flamengo cheio de reservas e juniores, desorganizado mas extremamente motivado consegue encurralar o Bangu de Arturzinho e Marinho, arrancando um 2-2 que acabou barato para os de Moça Bonita.

A ótima entrega do time convence a diretoria, que desiste de repatriar Carlos Alberto Torres (com quem conversava) e resolve manter Lazaroni até o final do ano.

“O Flamengo é carta fora do baralho”

A seguir, o Flamengo abre o placar contra o Olaria aos 5’ e nada mais produz, vencendo por 1-0 no Caio Martins com um futebol árido, pobre, inoperante. Depois o time melhora um pouco e faz 3-0 no Americano no Maracanã, mas ainda sai de campo sob vaias. A percepção é que o time agora consegue ser competitivo, mas o excesso de pragmatismo definitivamente não encanta.

E há as lesões. Além de Zico e Sócrates, outros titulares importantes sofrem contusões sérias. É o caso de Jorginho, Andrade e Leandro, o que impede Lazaroni de manter uma espinha dorsal. Sem muito recurso, o jeito é recorrer às divisões de base e reservas até então pouco aproveitados. O torcedor começa a se acostumar a nomes como Nem, Paulo Henrique, Gilmar Popoca, Guto, e aos novatos Vinicius (centroavante técnico mas lento), Valtinho (volante grandalhão, de chute forte, filho do Batuta Silva) e Ailton (volante voluntarioso, que pode atuar como lateral-direito).

O Flamengo segue atuando mal, mas juntando seus pontinhos. Vence o Botafogo (2-0), mandando o alvinegro para a lanterna do Estadual e semeando em Marechal Hermes a ameaça do rebaixamento. Depois, empata com o América (2-2), um resultado ruim, pois o time dominava a partida. Faz 1-0 na Portuguesa da Ilha, num dos piores jogos da história do Maracanã (gol de Gilmar aos 9’, e mais nada), e mostrando força e poder de competição, arranca um suado 1-0 no Goytacaz em pleno Arizão, resultado extremamente difícil e muito comemorado na Gávea.

Está chegando a reta final. “O Flamengo é carta fora do baralho”

O Flamengo está embolado com Fluminense e América, com o Vasco, surpreendentemente, ficando para trás. Mas a liderança isolada e aparentemente inalcançável é do Bangu. O alvirrubro já derrotou Fluminense e América (ambos por 2-1) e vem de cinco vitórias seguidas. O time parece concentrado e disposto a evitar o oba-oba que lhe tirou o título em 1983 e o Brasileiro deste ano. Sob o comando rígido de Moisés, é um time que joga com a mesma base há três anos. Seu futebol é leve, veloz e compacto. Para os cronistas, o mais bonito do Rio de Janeiro.

50 mil pessoas desafiam o sol escaldante e vão ao Maracanã presenciar uma empolgante rodada dupla de clássicos. Na preliminar, o Flamengo alinha uma zaga com Guto e Ronaldo Torres (que anos mais tarde será preparador físico) e improvisa o jovem Ailton na lateral, para enfrentar um Fluminense quase completo. Cheio de brios, o time reage ao gol de bicicleta de Washington, encurrala, pressiona e sai de campo com um merecido 1-1. Mas, na partida principal, o Bangu elimina o Vasco (1-0) e segue na liderança.

O Flamengo se consolida como principal adversário dos banguenses ao vencer (jogando mal) o Bonsucesso no Maracanã (2-0). O Bangu, que perdeu um inesperado ponto ao empatar em Moça Bonita com o Olaria (0-0), está 1 ponto na frente do rubro-negro. Faltam duas rodadas e a tabela parece mais favorável para os de Castor de Andrade.

Penúltima rodada. De manhã, o Bangu vai ao alçapão de Teixeira de Castro, onde os torcedores conseguem puxar cabelos e camisas dos jogadores e o time da casa, o Bonsucesso, dificilmente perde (recentemente, derrotou o Botafogo). O jogo é complicado, tenso, pegado, mas o time de Moça Bonita acaba vencendo com um gol nos minutos finais, marcado por Marinho, em flagrante impedimento, o que gera um colossal tumulto no gramado do acanhado estádio. À tarde, o quadro de tensão não se altera, quando o Flamengo, jogando compacto e no contragolpe, faz 1-0 no Volta Redonda, no Raulino de Oliveira, que pouco mais tarde vira uma praça de guerra após o árbitro Luiz Carlos Gonçalves (vulgo Cabelada) não assinalar um suposto pênalti num atacante do time local. O Flamengo sofre, mas continua na briga. Vai para a última rodada a um ponto do Bangu.

“O Flamengo é carta fora do baralho.”

Rodada final. Flamengo x Vasco irão se enfrentar na noite de sábado. Castor de Andrade e Moisés prometem que, se o Flamengo não vencer, a Mocidade de Padre Miguel irá desfilar no Maracanã no dia seguinte, jogo com o Botafogo. Mas o Vasco, em crise e desmotivado, coloca um time misto. Mordido com a goleada da Taça GB, o Flamengo cai na armadilha de tentar a revanche, e quase sai do Maracanã eliminado. O primeiro gol, de Bebeto, só sai a 15 minutos do final. Aliviado, o Flamengo se solta, marca mais um gol, com Valtinho, e mesmo nesses quinze minutos quase devolve a goleada. Mas os 2-0 mantêm as chances e a esperança em um milagre. Literalmente um milagre. Porque ninguém acredita que o Bangu deixe de derrotar o Botafogo no dia seguinte. E de muito.

“O Flamengo é carta fora do baralho.”

Bangu x Botafogo. O Botafogo vive a maior crise de sua história, amargando a 11ª e PENÚLTIMA posição na tabela. Precisa de um empate para escapar do risco do REBAIXAMENTO no Estadual, o que seria uma humilhação sem precedentes. Vivendo uma realidade em que jogadores, dirigentes e até torcedores literalmente abandonaram o clube pelo meio do caminho, o alvinegro simplesmente aguarda que o ano acabe e o pior seja evitado. Em sua frente, um Bangu sedento, precisando de uma vitória simples para chegar às Finais do campeonato. Em vantagem.

Milagres são fascinantes por ocorrerem onde menos se espera, e justamente por serem tão inesperados que sua incidência se torna até algo óbvio. Pois o Botafogo simplesmente engole um Bangu assustado e apático, transformando o goleiro alvirrubro na grande figura do jogo. O Maracanã, “reforçado” pela torcida do Flamengo, se ergue e empurra o esquálido time de Marechal Hermes, que abre o placar, segurando a inacreditável vitória até os 44 do segundo tempo, quando Josimar chutou contra suas próprias redes, decretando o, ainda assim, imponderável 1-1.

Bangu e Flamengo, “a carta fora do baralho”, decidirão a Taça Rio em jogo extra.

* * *

O Flamengo, diante de 70 mil pessoas, sagrou-se campeão da Taça Rio ao derrotar o Bangu por 1-0, com um gol de Adílio, repetindo, com requintes de crueldade, o desfecho da Taça Rio de dois anos antes