domingo, 10 de maio de 2015

Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos,

Essa semana convido os leitores, silenciosos ou não, a um debate. Uma discussão onde se irá buscar os fatores que levam um time, um elenco, a prosperar ou naufragar. Uma exposição em que se tentará fugir de ideias pré-concebidas e frases prontas que se cristalizaram com o tempo.

E o material para análise, para mim, é extremamente rico, justamente por ter sedimentado um senso comum que, a meu ver, é equivocado. Além disso, trata-se de um contexto histórico que não guarda praticamente nenhuma semelhança com o momento atual, o que evitará ilações indesejadas.

Nas próximas linhas, será abordado o Flamengo de 1995. O time que disputou o Brasileiro e a Supercopa.

Um time ruim, sob vários aspectos, que fique logo claro. Repito, um time ruim, que não obteve resultados, não era identificado. Ponto. Mas as causas dessa ruindade talvez não sejam as que ficaram eternizadas.

Enfim, que se comece a conversa.

Existe um senso comum, que imagino jamais será apagado pelo tempo, de que o time que o Flamengo montou para o Brasileiro de 1995 era desequilibrado, pois tinha três craques, Romário, Edmundo e Sávio, ilhados no meio de uma poça de nulidades. Ou seja, havia três grandes jogadores e um elenco medíocre, o que impediu que se montasse um time forte.

Penso ser equivocado esse pensamento.

AO FINAL DO TEXTO, HÁ UM VÍDEO BASTANTE DIVERTIDO.

O ELENCO
Para a disputa do Brasileiro o Flamengo busca apagar o trauma da decisão do Estadual e remodela inteiramente seu elenco. Para o gol chega o experiente goleiro Paulo César, eleito melhor goleiro do Brasileiro de 1994, buscando estabilizar um setor irregular. A zaga é reforçada por Ronaldão, zagueiro de primeira linha, campeão mundial pelo São Paulo e Seleção Brasileira, e Claudio, destaque do Guarani semifinalista do Brasileiro anterior e um dos melhores zagueiros daquela competição. Na lateral-esquerda, o tarimbado e vitorioso Lira é um dos reforços “roubados” do Fluminense, ao lado de Djair, trazido para qualificar o passe do meio-campo, suprindo uma lacuna recorrente no Estadual. E, na frente, há Edmundo, um dos melhores atacantes do país, que saiu incompatibilizado com o Palmeiras.

Ou seja, temos uma base formada por Paulo César, Ronaldão, Cláudio, Lira, Djair, Edmundo que, ao lado de Romário e Sávio, somam OITO jogadores capazes de atuarem como titulares em qualquer equipe brasileira da época. No papel, parece um elenco bastante qualificado.

Antes de prosseguir, cumpre pontuar que todos esses jogadores, exceto Lira, após saírem do Flamengo seguirão atuando em equipes de ponta e ganhando títulos. Alguns deles chegarão inclusive à Seleção.

Além da boa base acima citada, o Flamengo ainda dispõe em seu elenco de algumas peças que podem funcionar como utilitários, jogadores “de elenco”, casos dos volantes Márcio Costa (mais um ex-Fluminense) e Pingo, do meia Uéslei, dos jovens Rodrigo Mendes (em franca ascensão), Fabiano e Aloísio “Chulapa” e dos já conhecidos Marquinhos e Nélio, remanescentes de outras eras vitoriosas.

Donde, em termos de elenco, o Flamengo parece bem servido para a disputa do Brasileiro. Há, portanto, bem mais “vida inteligente” do que apenas os “três tenores”, ou o tal “ataque dos sonhos”.

O problema é fazer esse elenco funcionar.

O ESQUEMA
Há uma grave questão a ser resolvida já na gênese. Os três atacantes são “puros”, não retornam para recompor o meio-campo. Com isso, tem-se um rombo que precisa ser coberto pelos meias e volantes. No entanto, se os meiocampistas avançam, o buraco se abre justo na frente da zaga (é o tal "cobertor curto"). Os zagueiros Claudio e Ronaldão, individualmente, são de bom nível, mas juntos formam uma dupla lenta e pesada, o que é agravado pela falta de proteção do meio. Para piorar, Lira não é bom marcador e a lateral-direita conta com um zagueiro improvisado (o reforço, Robson, vindo do América, é uma aposta que não dá certo), o que acentua os problemas defensivos.

Esse nó tático não é resolvido por Edinho (que tenta montar um confuso 3-4-3) e muito menos pelo extravagante Washington Rodrigues, comentarista esportivo que atua como motivador enquanto o auxiliar Arthur Bernardes busca montar o time.

O time-base do Flamengo, com todos os jogadores à disposição, acaba formado com Paulo César, Fabiano (Agnaldo), Claudio, Ronaldão e Lira; Márcio Costa, Pingo e Djair; Edmundo, Romário e Sávio.

(Perceba-se a fragilidade do meio-campo, com dois brucutus que inviabilizam criação e saída de bola).

No entanto, com todos os problemas e algumas alterações, o time funcionará muito bem em vários momentos, como veremos adiante, fazendo inclusive partidas de alto nível.

A solução contará com a ajuda de velhos conhecidos e de um empurrão do imponderável.

Mas, é importante fixar, toda a questão reside na inviabilidade de montar um esquema com os três atacantes isolados na frente.


O AMBIENTE INTERNO
O ambiente é péssimo, amplamente conturbado, ainda um reflexo da depressão que se segue após o Estadual. Romário, que vive sérios problemas pessoais, desmotiva-se assustadoramente , engorda, fala em encerrar a carreira e passa a faltar sistematicamente os treinamentos, a ponto de chegar a frequentar apenas uma atividade em 10 dias. Como consolo, ganha uma quadra de futevôlei novinha, dentro da Gávea. Naturalmente, os outros jogadores digerem pessimamente a situação.

Vários casos ajudam a dar uma ideia do que é o estilhaçado e desfigurado Flamengo da época: a forte discussão entre Romário e Sávio em uma excursão no Japão, as crises de ciúmes de Edmundo, que exige o mesmo tratamento diferenciado dispensado ao Baixinho, a bombástica entrevista de Edmundo após um humilhante empate contra os reservas do Grêmio com dois a menos (“não adianta o ataque fazer se a defesa entrega”), que gera fortes atritos com Paulo César e Ronaldão, uma outra declaração pesada de Romário após o tristemente histórico Fla-Flu de Campina Grande-PB (0-0, num dos piores jogos da história do clássico, mais de 150 passes errados), afirmando que “esse time é uma merda”.

Romário, aliás, em um momento do campeonato, teria pedido a palavra em uma reunião e, dedo em riste, soltado coisas como “eu sou consagrado e vitorioso, não estou aqui para perder meu tempo, não aceito me expor dessa forma”.

A gota d'água acontece numa partida contra o Santos no Maracanã, em que Romário volta ao time após lesão. Nessa partida, a equipe, estranhamente, sofre três gols ainda no primeiro tempo e caminha em campo. Jogadores evitam passar a bola a Romário acintosamente, e após a derrota (0-3) o clube explode em crise. “Tem sacanagem aí”, desabafa o presidente. Após o vexame, alguns jogadores são afastados, entre eles o decadente Luís Carlos Winck, contratado às pressas para sanar a lateral-direita, sem sucesso.

O Brasileiro fica definitivamente para trás. O time vive uma “vibe” de rebaixamento, e com efeito o descenso chega a ser uma ameaça, evitada, ironicamente, por algumas vitórias importantes em São Januário, que é a sede rubro-negra na maior parte da competição.

Mas não é difícil perceber quais são e de onde partem os focos principais de desagregação do ambiente, amplificados pela postura permissiva e leniente de uma diretoria despreparada para lidar com determinado perfil de jogador..

OS AJUSTES E A SUPERCOPA
O primeiro sinal de que o time talvez não seja totalmente inviável é a brilhante exibição na estreia da Supercopa, em que o Flamengo, numa reação antológica, marca dois gols nos descontos e derrota, de virada, o campeão mundial Vélez Sarsfield em pleno José Amalfitani, na estreia de Arthur Bernard..., digo, de Washington Rodrigues no comando técnico do Flamengo. Muitos atribuem a vitória à mudança de astral e mentalidade com a troca de comando. Pode ser. Mas, além de um time motivado, há uma alteração relevante. Romário, que desmaiara num treino, não joga, sendo substituído por Nélio. A entrada do “Marreco” dá ao meio-campo a mobilidade perseguida, o time ganha compactação e o ataque, com dois jogadores, funciona de forma mais equilibrada. Edmundo faz sua melhor partida pelo Flamengo e é o destaque da partida. Aliás, a forma milagrosa como o rubro-negro conseguiu a vitória não demonstra a superioridade do Flamengo em toda a partida, ignorando e não tomando conhecimento de Chilavert & Cia.

No jogo seguinte, contra o perigoso Juventude em Caxias, Romário volta ao time, mas Edmundo é quem sai, suspenso. Nélio é mantido, o time volta a funcionar muito bem coletivamente e vence por 2-0 sem sustos, num jogo em que só é realmente ameaçado uma vez e perde várias chences de golear. Dessa vez quem brilha é Sávio, juntamente com Nélio, que novamente atua bem e ganha a vaga de titular.

Na partida seguinte, o já citado jogo contra os reservas do Grêmio, voltam os três atacantes e Nélio recua, tomando o lugar de Djair. Voltam os problemas defensivos, o time abre 2-0 mas, mesmo diante de um adversário com dois jogadores a menos, cede o empate que deflagra mais uma pesada crise.

Voltando à Supercopa, o Flamengo derrota o Vélez no jogo de volta por 3-0, no único momento em que o “Ataque dos Sonhos” efetivamente funciona como tal e faz a diferença num jogo mais complicado que o elástico placar sugere (Paulo César é destaque, com várias defesas). É o jogo da agressão do argentino Zandona em Edmundo, que provoca uma briga generalizada, redundando na suspensão de Edmundo e Romário para as partidas seguintes da Supercopa.

Sem Romário e Edmundo, o irrequieto Rodrigo Mendes é efetivado e o Flamengo passa pelo Nacional-URU, com duas vitórias por 1-0. Em ambas, o time mostra algo impensável até então, velocidade, marcação forte e ocupação incessante de espaços.

Antes do início das Semifinais, um acontecimento inesperado acaba solucionando o problema da escalação do ataque flamengo (e, em última análise, da equipe como um todo). Edmundo fratura o pé no Beira-Rio (0-0 Internacional) e está fora da temporada. Com isso, o ataque passa a ser fixado com Romário e Sávio.

A outra alteração, que ajusta definitivamente o time, é a entrada de Marquinhos no lugar do contestado e limitado Pingo. Com isso, o meio-campo, que passa a contar com Márcio Costa, Djair, Marquinhos e Nélio, torna-se mais equilibrado e ganha em qualidade de passe, sem perder em combatividade.

Percebendo a proximidade de uma final, os jogadores dão uma trégua nos problemas internos e se preparam para enfrentar o Cruzeiro, uma das melhores equipes do país, já classificado para as Semifinais do Brasileiro e fortemente motivado para a disputa da Supercopa (acaba de eliminar o São Paulo em dois jogos polêmicos).

O Flamengo ignora o Mineirão lotado com 50 mil, não toma conhecimento da força do adversário e, no dia de seu propalado centenário, consegue uma atuação coletiva impecável, mantém o Cruzeiro longe do seu gol e, de forma merecida, vence por 1-0 num gol de cabeça de Ronaldão que, numa cena sintomática, comemora efusivamente com Romário, com quem andou tendo problemas. A má notícia é a perda do Baixinho, que sente (mais uma) lesão muscular e de Sávio, tolamente expulso após dar uma cotovelada num adversário já no final do jogo.

Mas o melhor vem, inesperadamente, justo no jogo seguinte. Com um ataque improvisado com Aloísio e Nélio e o limitado mas aguerrido Uéslei atuando como “10”, o Flamengo atropela, passa o trator, pisa em cima do Cruzeiro e, talvez em seu melhor jogo no ano (repito: melhor jogo DO ANO), vence por 3-1, com direito a gol de placa de Márcio Costa (que driblou a defesa inteira antes de rolar a bola entre as pernas de Dida). O Flamengo joga como o Flamengo de seus melhores dias. Deixa o sangue em campo. A alma. Sai morto. Nélio, o melhor em campo, é ovacionado. Enfim, já nos estertores de 1995, o Flamengo parece ter algo a oferecer à sua Nação.

Entretanto, nas Finais, o time sente a responsabilidade de conquistar um “título no centenário” e, nervoso, faz partida irreconhecível na Argentina, sendo facilmente derrotado pelo Independiente, num jogo em que Romário atua visivelmente sem condições físicas e anda em campo. Na partida de volta, uma escalação bizarra, onde Nélio, o destaque e fator de equilíbrio da equipe, é deslocado para a lateral-direita, e algumas substituições equivocadas, como a entrada de Aloísio no lugar do zagueiro Claudio, destroem o funcionamento da equipe, que não se encontra em campo e, confusa, não consegue marcar o mínimo de dois gols necessário para arrastar a decisão para os pênaltis. O 1-0, diante de mais de cem mil no Maracanã, tem gosto amargo.

NÚMEROS
Antes da conclusão final, cabe um comparativo rápido:

Flamengo com o “ataque dos sonhos”: 3 vitórias, 6 empates, 5 derrotas. Aproveitamento 35,71%.

Flamengo sem Romário ou Edmundo, ou sem ambos: 8 vitórias, 4 derrotas. Aproveitamento 66,67%. (considerando os jogos com o time titular, sem levar em conta times mistos)

O Botafogo foi campeão brasileiro com 62,96%, para ilustração.

CONCLUSÃO FINAL
É difícil apontar um fator isolado para o fracasso flamengo naquele segundo semestre. Há vários elementos que contribuíram para que as coisas não funcionassem. No entanto, é possível identificar, de forma taxativa, aquela que provavelmente foi a principal fonte de turbulências. O elemento que travou o funcionamento tático da equipe, o fator de desagregação do elenco, o vetor de desmotivação e de perda de competitividade.

Donde, ao contrário do que ficou eternizado, penso que o problema daquele “time dos sonhos” foi exatamente...

O tal ataque dos sonhos.

Ou seja, às vezes o craque pode não ser a solução, e sim o problema.

Boa semana a todos,

NÃO DEIXEM DE CONFERIR O VÍDEO.

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