domingo, 24 de fevereiro de 2013

Alfarrábios do Melo



Saudações flamengas a todos.

Hoje dou continuidade à série do (meu) Flamengo de todos os tempos, que até aqui vem escalada com 1-Garcia, 2-Leandro e 3-Domingos. Neste texto será tratado o camisa 4.
Várias alternativas se mostraram à altura da escolha. O multicampeão Mozer, que soube como poucos conjugar técnica e raça, o fantástico Aldair, que com apenas dois anos como titular cativou várias mentes e corações, o paraguaio Reyes, que com um futebol requintado e elegante mostrou-se igualmente brilhante como volante e zagueiro nos anos 60 e 70.

Listas de “melhores de todos os tempos” tendem a privilegiar nomes que fizeram parte de uma história mais recente, pois há maior quantidade de referências históricas e mesmo testemunhais.

Entretanto, um olhar mais atento a toda a história do futebol do clube vai indicar que o nome de hoje é revestido de enorme relevância. Um dos Grandes (com letra maiúscula mesmo), cuja memória tento resgatar agora. Boa leitura.

4 – PÍNDARO DE CARVALHO

“Como? Voltar a jogar pelo Flamengo?”

O jovem médico recebe a proposta, um misto de desafio e súplica, com mal disfarçada surpresa. Seu interlocutor parece esbaforido, apressado, ansioso por uma resposta, e positiva. Mas, diante da inusitada situação, não tem como responder assim, de pronto, de roldão.

“Deixe-me pensar um pouco. Logo darei a resposta.”

É 1920, o futebol já faz parte inarredável e irreversível do cotidiano do carioca. Equipes como o elitista Fluminense, o tradicional Botafogo, o elegante América e o irreverente Flamengo já estão consolidados, dividindo a preferência e a antipatia de uma torcida que já começa a demonstrar que o esporte bretão é mais do que mera recreação. Mais do que competir ou participar, vencer se torna primordial.

O Flamengo vive um momento de transição em seu elenco. Saem os pioneiros dos primeiros dias, os rebeldes que formaram “na marra” seu futebol e que agora estão formados e exercendo suas profissões, entram novos talentos, novos jovens que, ao que parece, farão do rubro-negro o principal clube da cidade. É o tempo de Kuntz, Telefone, Japonês, Sisson, Junqueira, todos jogadores de seleção brasileira, e de Sidney Pullen, o inglês craque e líder da equipe.

E nesse 1920 a palavra de ordem é retomar a hegemonia da capital federal, nas mãos do tricampeão Fluminense. O Flamengo se prepara de forma meticulosa para o Campeonato, e seu início é retumbante, em cinco jogos quatro vitórias, entre elas 2-1 em um Fla-Flu, quebrando um tabu de quatro anos. A equipe lidera, mas a competição logo se revela uma selva, onde as agremiações menores, em busca de visibilidade e honra, jogam sua vida contra os grandes, tornando-se verdadeiras armadilhas em um campeonato onde um mísero ponto pode fazer a diferença no final. O Flamengo sente isso na pele, quando seu zagueiro titular Burgos se contunde e o reserva Antonico não se mostra à altura, na encarniçada vitória por 4-3 sobre o modesto São Cristóvão.

A partida seguinte será fora de casa, contra o Palmeiras AC, também de São Cristóvão. Burgos ainda está fora. Obcecado pelo título e sem reservas confiáveis, o ground committee (espécie de comissão técnica) busca alternativas. Nenhum ponto pode ser desperdiçado, cada jogo é importante, em cada adversário se esconde uma cilada.
É quando alguém se lembra de Píndaro.

O jovem médico Píndaro de Carvalho, formado em 1916, enfim abandona as chuteiras em 1919, após se consagrar campeão sul-americano pela Seleção Brasileira, em final histórica contra o Uruguai, num jogo de 150 minutos (isso mesmo, 150) em que, numa atuação de gala, anulou o craque adversário Gradim. Dedica-se ao ofício de médico sanitarista, mas o futebol segue em seu sangue flamengo, sempre que pode está assistindo aos jogos da sua equipe de coração.

Foram cerca de sete anos. Nesse período, Píndaro ergueu uma trajetória marcante defendendo as cores do time que ajudou a criar, junto com os outros rebeldes egressos do Fluminense. Líder natural (ao lado do atacante Borgerth) e extremamente carismático, o zagueiro Píndaro era tido por muitos o melhor jogador do primeiro time flamengo, já nascido grande. Cabeça erguida, senso perfeito de colocação, ótimo tempo de bola, impulsão fantástica (dificilmente perdia uma bola no alto) e um impressionante vigor físico fizeram de Píndaro um destaque, um protagonista, em um tempo onde apenas se valorizavam os homens da linha de ataque dos esquemas 2-3-5. Sua virilidade e segurança lhe valeram o apelido de “Gigante de Pedra”.

E além da capacidade técnica, Píndaro exalava, transpirava, sangrava Flamengo em todos seus jogos. Uma derrota em um amistoso pisoteava-lhe a alma, prenúncio de noites insones. Um dia Nelson Rodrigues irá falar da “alma de 1911” do Flamengo, certamente recordando o ímpeto, a gana de Píndaro, líder e xerife de uma defesa tida como intransponível, ao lado do também ótimo zagueiro Nery. Píndaro não aceitava, não discutia, não admitia derrota. Exigia de seus companheiros nada menos que a vida.
Tamanha determinação e categoria logo mostraram resultados. Píndaro participou do primeiro time (aliás, foi um dos maiores entusiastas da troca do Fluminense pelo Flamengo), foi o primeiro zagueiro a marcar gol pelo Flamengo (no primeiro Fla-Flu, de 1912), e integrou a primeira seleção brasileira da história, sendo o primeiro rubro-negro (junto com Nery) a ser convocado.

E agora precisam dele.

“Mas como, já me aposentei há um ano, não estou em forma... Flamengo, mais uma vez... sentir na pele, de novo... a febre do jogo... a torcida... é só por um jogo...”

“Sim, aceito. Claro que aceito.”

Assim, praticamente sem treinar, Píndaro é escalado para formar a defesa, uma derradeira vez. A presença do veterano craque sensibiliza seus companheiros, que escutam com atenção suas orientações. Píndaro dá uma aula de aplicação tática e noções de posicionamento. Canta o jogo todo, orienta, berra, grita como se fizesse parte do elenco fixo. Sua simples presença proporciona aos demais jogadores uma segurança contundente, o time joga solto, leve, feliz. Os escassos ataques do adversário são rechaçados de forma inapelável por Píndaro, que espanta o público com sua absoluta presença de área. O Homem de Pedra não tem pudor para o chutão ou a bicuda, joga com uma simplicidade desconcertante, não perde nenhuma bola, não comete nenhuma falha a olho nu, torna-se uma das grandes figuras em campo. O Flamengo vence com facilidade por 5-0 e os convites para seguir atuando chovem, apenas para que o duro zagueiro seja obrigado a declinar, não posso, agora tenho uma profissão.

No dia seguinte, as dores são fortes, lancinantes, cada músculo, cada articulação lateja vociferando o audaz sacrifício do valente Píndaro. O outrora craque mal se ergue em pé, mas se sente pleno, vivo, enérgico, com sede de realizar, de extravasar a sua alegria. A felicidade de ter recebido a graça de, apenas por mais um dia, ter se sentido incendiado pelo calor de uma flama que jamais sairá de sua existência. De ter novamente se percebido aturdido por uma paixão que, mais do que o tenha ligado a uma instituição, faz dessa instituição uma própria parte de si, revestindo-se cria e amante em seu âmago. Flamengo e Píndaro, Píndaro e Flamengo.

E, mal contendo seus olhos úmidos, o Gigante de Pedra volta ao trabalho.

 * * *
 
“Píndaro de Carvalho atuou como zagueiro do Flamengo entre 1912 e 1919. Nesse período, conquistou dois Campeonatos Cariocas, entre outros títulos. Em 1919, largou os campos para erguer sólida e bem sucedida carreira de médico sanitarista. Não sem antes liderar o ground committee da seleção que o Brasil levou à Copa de 1930.”

“O Flamengo conquistou o título carioca de 1920. Invicto. No entanto, na segunda partida contra o Palmeiras AC registrou-se empate em 1-1.”