domingo, 26 de fevereiro de 2012

Além das quatro linhas


Como o Flamengo não está na final da Taça Guanabara, aproveito para levantar uma questão um pouco mais complexa e cujos resultados muitas vezes passam despercebidos para muitos de nós: a montagem do departamento de futebol.

Durante o carnaval, tive a oportunidade de assistir o filme Moneyball, lançado no Brasil como "O homem que mudou o jogo". Conta a história de um sujeito que era general manager de uma equipe mediana da Major League Baseball. No início dos anos 2000 sua equipe teve uma safra de grandes jogadores com a qual montou um excelente time (para os padrões do clube em questão) que foi capaz de avançar até os playoffs sendo eliminado pelo NY Yankees, cujo time tinha orçamento 4x maior. Terminado o campeonado, o diretor além de eliminado viu seus principais jogadores sendo comprados pelos maiores clubes da liga, inclusive o que o eliminou e ficou sem alternativas para montar um novo time que realmente tivesse alguma chance no campeonato. Durante as negociações na pré-temporada, ele entra em contato com um jovem economista que mostra uma nova maneira de analisar os jogadores e que lhe dá a idéia de como montar uma nova equipe contrariando todos os especialistas.

O texto acima é uma sinopse básica do filme - que conta uma história verídica - mas não conta os problemas vivenciados por um diretor que, para tentar fazer de seu time uma equipe campeã, resolve ir contra o status quo do esporte enfrentando oposição e críticas de torcedores, dirigentes e da mídia em geral. Vimos um exemplo recente acontecer com Zico no Flamengo. Indo contra esquemas de empresários, dirigentes e outros meandros internos do clube, o ídolo máximo da Nação viu suas tentativas de contratação sabotadas e sua honra e a de sua família atacadas por outras correntes políticas do clube, reverberadas por jornalistas interessados nas notícias resultantes das infindáveis crises que acontecem no Flamengo. O time mostrado no filme não chega nem perto da pressão política que há no Rubro-Negro. Mas mostra claramente que a solução do problema passa não apenas pela hierarquia como também pela diferença clara de funções e áreas de atuação de cada um dos envolvidos na montagem e arrumação do time. É onde quero chegar.

No Flamengo, o cargo de vice-presidente de futebol é político e não pode ser extinto pelo estatuto vigente. Seria ótimo que a pessoa em questão pudesse ser um executivo remunerado mas atualmente isso não é possível. O vice de futebol deve supervisionar o departamento, delegando as tarefas que não tenha capacidade ou disponibilidade para executar e definir com a direção metas a serem alcançadas pelo futebol do clube. Mas abaixo do vice-presidente, há o cargo de diretor de futebol, esse sim, um profissional remunerado que pode ser cobrado através de um regime de metas e que deve ser responsável pelo funcionamento de todo o departamento. Esse diretor é o responsável pela montagem do elenco e a ele cabe conversar - ou não - com o treinador sobre novas contratações, renovações e dispensas de jogadores. Mais importante ainda, deve ficar claro que o diretor não deve se meter na escalação do time, ainda que possa conversar com o treinador sobre o time. 

Voltando ao filme, encontramos um treinador que tem convicções próprias e teima em escalar determinados jogadores sem levar em consideração as performances deles e opiniões do resto do departamento. Mesmo os resultados pífios que o time consegue por conta desta teimosia não fazem com que ele mude a escalação. Parece familiar? Mas é aqui que o enredo se dissocia totalmente do futebol. Em qualquer time do Brasil, o treinador em questão seria demitido e substituído por outro que fosse capaz de obter resultados melhores. No time de baseball, o diretor fez valer a sua posição e negociou o jogador que o técnico cismava em escalar. simples assim! Isso fez com que o técnico fosse obrigado a mudar e o time jogasse de acordo com o projeto do clube. Assim, alcançou resultados dentro do planejado além de evitar a multa e o desgaste com os jogadores pela troca do comando e a necessidade de reiniciar um trabalho do zero.

No caso do nosso Flamengo, não existe um direcionamento que aponte aos treinadores ou a ninguém a forma como o time deve jogar. Joel escala de um jeito, Luxemburgo de outro, Andrade, Silas, cada um a seu jeito. Isso se deve em parte a falta de organização de um departamento de futebol que deve ser maior que o time em si. Ainda que tenhamos debochado muito disso, não existe um projeto para o futebol do Flamengo. Ganhar a Libertadores, o mundial, o hepta não são projetos, são desejos. E nada fáceis de serem conquistados. É necessária uma mudança na maneira como o clube se organiza para que uma conquista dessas não seja mais um acontecimento esporádico. E vão continuar sendo e dependendo do canto do cisne de um Petkovic associado a boa fase de um Adriano enquanto o Flamengo continuar a se comportar como um clube que vive para apagar o próximo incêndio, abafar a próxima crise.

É claro que não é possível vencer todos os anos, mas um clube como o nosso não pode celebrar uma 4a colocação no Brasileiro ou uma vaga na Libertadores. Isso tem que se tornar não uma obrigação, mas algo natural, que ocorra todos os anos, sem esforço. Se o Flamengo deseja voltar a ser um dos maiores entre os grandes do Brasil, ele precisa trabalhar para isso. E não é só dentro de campo. É necessário que sejam estabelecidas metas esportivas e administrativas para garantir o bom desempenho do time dentro de campo. Com isso, a torcida volta a se sentir parte do time e abre portas para todo o gigantesco potencial de receitas que o Flamengo tem. 

Outro dia estávamos comentando sobre as declarações dos presidentes de Grêmio e Inter, que agradeciam aos céus que o Flamengo fosse tão mal administrado. Se até nossos rivais sabem disso, quanto tempo vai levar até que aqueles que dirigem o Mais Querido percebam as oportunidades que vêm deixando passar diante de seus olhos?

abraços e SRN