sábado, 7 de março de 2026

#006 Decantação


 O coque sai da beira do campo para entrar de vez na eternidade



     








Talvez o destino, esse roteirista irônico que costuma rir das nossas certezas, tenha agido com uma sabedoria cirúrgica ao assinar essa dispensa do jeito que foi. A saída de Filipe Luís surge como um escudo oportuno para seu próprio legado. É o momento exato em que a liturgia do cargo dá lugar à mística do herói, impedindo que o desgaste cotidiano de uma casamata em chamas ousasse arranhar o pedestal de um homem que tratou o Manto com a reverência de quem lida com o Santo Graal.


Invariavelmente, o tempo fará o favor de varrer para o esquecimento as falas infelizes e aquele ar "paneleiro" que flertou com a paciência da Nação. Que o limbo engula os "adversários colossais", os elogios dantescos a qualquer comprometimento básico de um atleta mediocre e as descrições apoteóticas de partidas que, na verdade, eram apenas enfadonhas. O que deve decantar no imaginário rubro-negro não é a retórica tática, mas o peso de ser tricampeão da Libertadores e tricampeão brasileiro. Que a memória selecione apenas o brilho das taças, deixando as justificativas de coletiva no arquivo morto da história.


No que diz respeito à gestão de pessoas, confesso: não domino as minúcias. Não sei descrever o que seria o "jogo posicional" de uma liderança, nem escalaria um grupo no "4-4-2 ou no 4-2-3-1" dos recursos humanos. Mas eu sei identificar uma liderança quando a vejo — e Filipe é uma dessas raras bússolas humanas. Como bem nota o nosso Carlinhos "Tomara" com a experiência de toda uma carreira, que tenho a sensação que foi de muito sucesso, a liderança tem aspectos subjetivos que superam o "aprender a fazer", é algo intrínseco. E ele, o Felipe, integra essa linhagem. Zico, Júnior, Diego, David Luiz e Danilo; figuras que, ao seu modo, influenciaram outros a performarem acima da própria capacidade. O Flamengo precisa de pessoas assim em suas fileiras, pois o clube não se gere apenas com pranchetas, mas com a autoridade de quem já dobrou o mundo.


O distanciamento, contudo, é agora um remédio bem-vindo e necessário. O convívio excessivo no olho do furacão transforma o ídolo em alvo com uma velocidade assustadora. Sair agora contribui para que o torcedor não pegue ranço do ídolo por conta dos erros do técnico. Um dia ainda tratarão como fato o absurdo que vou proferir agora: Filipe era tão rubro-negro que a emoção o sabotava. Ouso dizer que ele foi o pior jogador, disparado, de todas as finais que disputou conosco. Era o emocional de arquibancada atropelando o corpo de atleta; a prova cabal de que a febre de ser Flamengo tirava a lucidez até do mais cerebral dos lordes.


Dificilmente veremos o "coque-man" novamente na nossa casamata. Provavelmente ele ganhará a Europa e por lá terá o sucesso que sua obsessão exige. Que vença, que ganhe o mundo e que as luzes do Velho Continente iluminem sua nova jornada.
Filipe Luís não foi propriamente demitido; ele foi promovido a torcedor, o maior cargo que este clube pode nos dar. Que ele siga seu caminho com a certeza de que sua história está guardada em uma caixa de prata, pronta para a eternidade e livre de qualquer mácula.


Bom final de Semana a todos, vamo ganhar essa final!

quarta-feira, 4 de março de 2026

Obrigado, Fili! Seja Bem Vindo, Jardim!

 

Salve, Buteco! O post de hoje começa com uma homenagem a Filipe Luís Kasmirski, que completou 101 jogos comandando o Clube de Regatas do Flamengo. No post Morde e Assopra, da semana passada, mostrei um comparativo dos números de jogos do nosso mais recente ex-treinador com outros que superaram a marca de 100 e alguns que quase conseguiram atingi-la. Ao todo, então, SuperFili fecha a sua vitoriosa campanha no comando do Mais Querido com os seguintes números, sintetizados pelo Sofascore Brasil:

Flamengo sob o comando de Filipe Luís: ⚔️ 101 jogos 🚥 64V - 22E - 15D (!) 📊 70.6% aproveitamento (!) ⚽️ 184 gols (!) 🚫 68 gols sofridos (!) 🧤 46 jogos sem sofrer gols 🥅 266 grandes chances (!) 👟 8.5 finalizações p/ marcar gol ⚠️ 13.9 finalizações p/ sofrer gol (!) ⏳ 61.1% posse de bola 🏆 7 títulos (!) Deixou o clube.

O perfil FlaAlternativo no Twitter também trouxe um interessante recorte sobre a passagem de SuperFili:

Em 40 anos, Filipe Luís foi só o quarto técnico a passar dois réveillons no comando do Flamengo. Antes dele: Lazaroni (1985/86 e 86/87), Carlinhos (1991/92 e 92/93) e Luxemburgo (2010/11 e 11/12).
Coincidentemente, os dois primeiros caíram em março (Luxa rodou em fevereiro).

Cada fato que é revelado (como a negociação com o Chelsea, por exemplo), para além dos erros cometidos principalmente no excesso de liberdade concedido ao elenco e nas escalações para as decisões disputadas na presente temporada até o momento, mostra que a renovação foi um grande erro de ambas as partes. SuperFili, avoado, desconectado, não planejou bem a temporada/2026, o que certamente foi fruto de sua falta de convicção em permanecer, em vez de tentar a sorte na Europa. Coisas de um treinador inexperiente, que precisou planejar sua primeira temporada na condição de vencedor e com um salário de primeira linha, como pleiteou e obteve.

Uma passagem tão vitoriosa, contudo, merece, sem dúvida, ter seus bons momentos, que superam em muito esses dois primeiros meses de infortúnios, enaltecidos com uma bela homenagem e com todo o nosso carinho e reconhecimento. Jamais esquecerei, SuperFili, do título brasileiro depois de cinco anos e nem da quarta Libertadores, em Lima, em companhia da minha filha, como relatei no post O Diário de Lima.

Muito obrigado e até um dia. Boa sorte na Europa (bem longe do Brasil) e na sequência da carreira.

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O post de hoje também serve como boas vindas para José Leonardo Nunes Alves Sousa Jardim, popularmente conhecido como Leonardo Jardim, treinador de nacionalidade portuguesa e venezuelana, de 51 anos de idade. Nascido em Barcelona, Venezuela, porém radicado com a família na Ilha da Madeira, território português, quando ainda era criança, o novo Mister chega ao Brasil com o currículo de 12 clubes na carreira de treinador, dos quais se destacam:

Olympiacos: campeão grego e da Copa da Grécia na temporada 2012/2013. Foi demitido quando liderava o certame da temporada 2013/2014 quando o time estava invicto, com 14 vitórias e 3 empates, por suposto envolvimento ou assédio sobre a esposa do proprietário do clube, ninguém menos do que o multimilionário Vangelis Marinakis.

Monaco: dirigiu o clube por mais de 5 temporadas (2014 a 2019), tendo conquistado Campeonato Francês (2016/2017) e sido semifinalista da Champions League 2016/2017 dirigindo um time que tinha jogadores como o lateral esquerdo Mendy, os meias portugueses João Moutinho e Bernardo Silva e os atacantes Kylian Mbappé e Radamel Falcão Garcia.

Al-Hilal: campeão da Champions League da AFC e da Supercopa da Arábia Saudita na temporada/2021.

Shabab Al-Ahli: campeão da liga dos Emirados Árabes Unidos na temporada 2022/2023.

O torcedor brasileiro o conhece melhor pela boa campanha com o Cruzeiro na temporada/2025. Já os torcedores rubro-negros e palmeirenses talvez o conheçam até um pouco mais do que os demais (exceto os cruzeirenses), já que a Raposa não perdeu para os finalistas da Libertadores e 1º e 2º colocados do Campeonato Brasileiro.

Nada melhor do que as palavras do próprio treinador para descrever como enxerga a posse de bola no futebol:

O treinador também declarou que só trabalharia no Brasil se fosse no Cruzeiro; contudo, um convite no Flamengo, o Maior e Mais Querido do Brasil, com o Maior de Minas tendo o posto de treinador ocupado no momento, parece ter feito o portuga venezuelano balançar e aceitar dirigir o clube que lhe proporcionará as melhores condições para voltar a ser campeão, o que não acontece, em sua carreira, desde 2023, como vimos.

Enquanto escrevia esse texto o noticiário dava conta que o nosso novo treinador dirigirá o primeiro treino logo após ser anunciado, já nesta quarta-feira.

Então, boa sorte pra ele, com muita sabedoria e serenidade, pois precisará de todo esse pacote para suportar a pressão.

E que venham as taças!


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Sobre o Fla-Flu eu vou deixar para falar no Esquenta, no sábado.

Tenham uma boa quarta-feira.

A palavra está com vocês.

Bom dia e SRN a tod@s.