Olá, Buteco!
Depois de uma negociação tensa, em que, segundo se noticiou, o Flamengo foi duramente testado em suas convicções de austeridade financeira, foi anunciada, no dia 29/12/25, a renovação do contrato do treinador Filipe Luís, para que permaneça à frente do time principal do Mais Querido até dezembro de 2027.
Uma vez que ele renovou, cumpro minha promessa e apresento a vocês algumas reflexões sobre o que foi o trabalho dele até agora e do que pode estar a caminho, a partir de 2026.
Vou estender essas reflexões, de maneira mais superficial, ao trabalho do diretor José Boto e do presidente Bap.
Ao longo da temporada de 2025, comecei a considerar que Filipe Luís viveu, quando assumiu o comando da equipe principal do Flamengo em 2024, um período de emergência para, em seguida, na temporada de 2025, passar a viver um ciclo em que seu desempenho se caracterizou como de suficiência, embora, por se tratar de Flamengo, já tenha sido alvo de duras cobranças de excelência.
Apesar de eu também fazer críticas ao trabalho do treinador, comecei a sonhar, em meados de 2025, que 2026 poderia ser o primeiro ano da excelência. Será?
A Emergência
Para Filipe, a emergência se apresentou desde seus primeiros dias à frente do time, ao herdar do treinador Tite uma equipe com preocupantes sinais de declínio e que tinha como metas restantes, no fim da temporada, a conquista da Copa do Brasil de 2024 e a classificação para a Copa Libertadores 2025.
Com criatividade e competência acima das esperadas para um treinador novato, Filipe liderou bem a equipe e conseguiu levá-la ao cumprimento das duas metas.
Para Boto e Bap, a emergência se apresentou logo após a posse do novo presidente, em janeiro de 2025, por força de algumas pressões financeiras herdadas da gestão anterior, pressões que levaram os dois dirigentes a uma conduta de cautela nas ações de reforço do elenco.
O tempo mostrou que essa cautela pode ter sido um tanto exagerada, mas não condenável, já que diagnósticos mais seguros da realidade financeira do clube só foram conseguidos ao longo da temporada.
Expectativas Geradas pelo Filipe
Voltemos a falar do nosso treinador:
No post “Fili passou no vestibular. Agora, vem a pedreira da faculdade”, publicado em 27/03/25, analisei o desempenho do vestibulando Fili, considerando que até o jogo final do Carioca 2025, contra o Fluminense, ele estava vivendo um vestibular para a profissão de treinador.
Afirmei, então, que “cada jogo de 2025 foi um teste para a proposta de trabalho dele, principalmente a partir da fase final da Taça GB, com três clássicos em oito dias, logo seguidos das semifinais e finais do Carioca, com mais quatro clássicos contra adversários que, se não estão no mesmo estágio técnico e tático do Flamengo, sempre apresentam um aguerrimento que exige bastante do nosso time e do nosso treinador”.
Completei dizendo que, “bem-sucedido no vestibular iniciado no segundo semestre do ano passado e encerrado no último jogo do Campeonato Estadual de 2025, ele chega à ‘faculdade’, onde certamente vai encontrar desafios em patamares mais altos”.
Fiz, em seguida, alguns exercícios matemáticos para tentar adivinhar nossas chances de conquista do Brasileirão, a partir dos aproveitamentos conseguidos pelos mais recentes campeões brasileiros e do aproveitamento conseguido pelo Filipe em sua fase de vestibulando. Transcrevo os exercícios feitos em março:
Aproveitamentos conseguidos pelos campeões brasileiros nos cinco anos anteriores:
2024 – Botafogo – 79 pontos – 69,3%
2023 – Palmeiras – 70 pontos – 61,4%
2022 – Palmeiras – 81 pontos – 71,1%
2021 – Atlético MG – 84 pontos – 73,7%
2020 – Flamengo – 71 pontos – 62,3%
Resultados Conseguidos pelo Fili até o fim do Estadual 25
A) Resultado Total (todas as partidas disputadas)
Aproveitamento médio: 79,0% (64 pontos em 81 disputados)
Potencial projetável para 38 jogos do BR: 90 pontos
B) Resultado na Amostragem do Brasileirão 2024
Aproveitamento médio: 66,7% (22 pontos em 33 disputados)
Potencial projetável para 38 jogos do BR: 76 pontos
C) Resultado em Jogos Contra Times da Série A (incluindo os de mata-mata)
Aproveitamento médio: 75,4% (52 pontos em 69 disputados)
Potencial projetável para 38 jogos do BR: 85 pontos
D) Jogos em Casa e Fora de Casa
Aproveitamento médio: 71,1% (32 pontos em 45 disputados)
Potencial projetável para 38 jogos do BR: 81 pontos
Concluí o post dizendo: “Fili é um treinador novato que, pelo sucesso precoce, começa a se tornar ‘o cara a ser batido’, algo que imagino incluir três exigências, quanto ao trabalho dele na preparação do Flamengo, a partir de agora:
1) Evoluir muito no domínio, pelos jogadores, de posições e movimentos defensivos e ofensivos, para continuar surpreendendo os adversários e limitando suas capacidades.
2) Vencendo síndrome crônica a esse respeito, aumentar bastante a contundência do time (isso inclui melhora do rendimento dos nossos meias no terço final e bom aproveitamento do potencial do Pedro, a partir de seu retorno).
3) Manter o time muito bem condicionado fisicamente, porque o modelo que o Fili adota depende sempre de alto rendimento físico.
Creio que, apesar das grandes dificuldades que o Fili vai passar a enfrentar e da necessidade de evolução do time para consolidar-se como candidato a mais títulos, a análise de resultados e de desempenho feita neste post e a noção de que é possível evoluir nos permitem alimentarmos a expectativa de novas conquistas nesta temporada, principalmente a do Brasileirão.”
Suficiência de Desempenho e Excelência de Resultados
Filipe não nos decepcionou quanto a resultados em 2025, muito pelo contrário, pois conquistou o Brasileirão, com os mesmos 79 pontos conseguidos pelo Botafogo em 2024, conquistou a Libertadores, em Lima, e ainda levou o Flamengo à final da Copa Intercontinental, contra o PSG, decidida nos pênaltis de forma dolorosa para nós, pelo colapso de nossos jogadores no último degrau da temporada e pela toalhinha milagrosa do goleiro adversário.
Se os resultados foram excelentes – e eu os classifico nesse nível – creio que, quanto a desempenho, ficamos apenas na suficiência e foi isso, a meu ver, que expôs o Filipe a tantas críticas ao longo da temporada, inclusive as minhas.
Na Libertadores, fizemos uma fase de grupos muito ruim, passamos pelas etapas de mata-mata com bastante sofrimento e só na final tivemos uma situação de maior imposição sobre o Palmeiras, não sem correr riscos de uma prorrogação quando, aos 87 minutos, Danilo desviou uma finalização do Vítor Roque de dentro da nossa pequena área.
O mesmo Danilo, jogador de quem eu não esperava muito quando foi contratado, fez o gol do título e isso levou à primeira conversão da suficiência de desempenho em excelência de resultado
No Brasileirão, o Flamengo nunca conseguiu abrir folga na liderança e, apesar de terminar a trigésima sexta rodada com cinco pontos de vantagem, enfrentava um “contexto muito perigoso”, como apontou o Laercio num comentário da época, porque tinha obrigação de decidir o campeonato na penúltima rodada, já que, na última, enfrentaria o perigoso Mirassol fora de casa, enquanto o Palmeiras teria dois jogos fáceis, que acabou vencendo.
Felizmente o nosso Samuel Lino fez o gol do título contra o Ceará e, aí sim, a suficiência de desempenho se converteu de novo em excelência de resultado.
Destaque importante: com seus 79 pontos (69,3% de aproveitamento), o Flamengo conseguiu, no Brasileirão 25, pontuação e aproveitamento que ficaram na média entre as hipóteses B e D aventadas no post de março.
Elas projetavam, respectivamente, 76 e 81 pontos (aproveitamento médio de 68,9%) e eram as duas hipóteses mais associáveis às condições que o Flamengo enfrenta em Campeonatos Brasileiros.
Portanto, Filipe conseguiu, no Brasileirão 25, manter estabilidade de aproveitamento em relação ao que havia conseguido na fase de vestibulando e esse desempenho permite que se inclua mais uma rima na análise do seu trabalho, a consistência, virtude importantíssima para sonharmos com a conquista de novos títulos da mais nobre competição de pontos corridos que o Flamengo disputa.
A meu ver, sofremos muito ao longo da temporada 25 por não termos conseguido vencer a síndrome da baixa contundência, cuja superação eu apontei, no post de março, como uma das três exigências de evolução do time.
Foram raras as partidas em que tivemos essa contundência e eu considero que isso influenciou muito a gestão de elenco porque, como o Flamengo tinha dificuldade de matar os jogos, Filipe retardava as substituições (a grande maioria delas era feita nos últimos quinze minutos de jogo) e usava sempre os jogadores mais confiáveis, porque não queria ou não podia correr o risco de usar aqueles em que confiava pouco.
Para piorar, e aí houve insuficiência do diretor Boto, atravessamos a temporada com apenas três zagueiros confiáveis, numa roleta russa que eu espero que nunca mais se repita.
Para fechar o ano da suficiência de desempenho e da excelência de resultados no futebol, tivemos a palestra do presidente Bap, em que ficou claro que, em matéria de gestão do clube, o primeiro ano de mandato foi excelente.
Excelência de Desempenho e de Resultados
O que vem pela frente?
Filipe renovou seu contrato, o que nos oferece a perspectiva de continuidade de um projeto vitorioso, algo nunca conseguido por esse Flamengo que se revitalizou e fortaleceu a partir de 2013.
As informações prestadas pelo presidente Bap ao Conselho do Flamengo, na reunião de fim de ano, e a forma agressiva como o clube vem tentando atuar no mercado da bola apontam para a possibilidade de entrarmos muito mais fortes na temporada 2026.
Há um jargão dos especialistas do mercado financeiro que afirma que resultados passados não são garantia de resultados futuros.
Sei disso e nunca comemoro nada antes do apito final do jogo ou do campeonato, porém, no que me diz respeito, espero evolução e me concedo o direito de sonhar com avanços rumo à excelência de desempenho e de resultados que, dentro de campo e neste século, só conseguimos quando Mister Jorge Jesus comandou o nosso time.
Do diretor Boto, espero assertividade nas contratações e na gestão geral do Departamento de Futebol, coisas que eu acho que ele mostrou ser capaz de conseguir, à luz dos acertos e apesar de alguns pequenos tropeços ocorridos em 2025.
Do presidente Bap, espero continuidade da boa gestão do clube e fortalecimento da atuação política junto às federações, confederações e demais players do mercado do futebol, porque o Flamengo está inserido num ambiente complexo, onde o mais bobo dá nó em pingo d’água e esconde as pontas.
Do nosso treinador Filipe Luís, imaginando que terá um elenco com muito mais jogadores confiáveis do que teve em 2025, espero novas grandes conquistas, avanços no desempenho do time, uma gestão de elenco inspirada e que tenha a humildade e sabedoria de “nunca se achar foda”, porque esse costuma ser o primeiro passo para o declínio.
Se for possível, caro Filipe, faça com que o Flamengo mate os jogos e o Brasileirão mais cedo, porque meu coração precisa de mais sossego e menos sufoco.
Mas essas são apenas as minhas reflexões e eu quero saber de vocês:
1) Esperam excelência de desempenho e de resultados em 2026?
2) Se esperam, o que consideram necessário para que ela aconteça, no que tange às atuações dos três personagens deste post, Bap, Boto e Filipe?
Nota do Autor: Este texto foi concluído às 12:25h do dia 31/12/25. Espero que as turbulências rubro-negras não o tornem obsoleto até o dia da publicação.
Saudações Rubro-Negras!!!!
Carlos César Ribeiro Batista



