
Ser flamenguista é viver em um estado de urgência permanente.
Para nós, o "amanhã" é uma eternidade e o "ontem" só serve se tiver terminado em volta olímpica. O Manto Sagrado não é feito de tecido; é tramado com o suor de deuses e o a alma de 40 milhões que não sabem o que significa a palavra "paciência". Quando um jogador veste aquela camisa, ele não carrega um número nas costas, ele carrega a expectativa de uma nação que depende a vitória pra ser feliz. Na Gávea, a pressão não segue as leis da física; ela tem gravidade própria. É um peso que esmaga os fracos e transforma os comuns em heróis, ou em vilões, dependendo da curva que a bola faz.
Esse peso, inclusive, não é para qualquer ombro. Tem gente que chega com currículo europeu e pose de titular, mas quando sente a atmosfera elétrica do Maracanã, descobre que a camisa 22 parece pesar 200 quilos. Emerson Royal que o diga; o rapaz parece estar em um transe hipnótico de indecisão, sentindo que o Manto, para ele, é um cobertor de chumbo. No Flamengo, a dúvida é o primeiro passo para o esquecimento, e o campo não aceita quem entra com medo de ser feliz ou receio de errar. Ou você domina a camisa, ou ela te devora.
Abro o "Necrotério das Crises Recentes". Usando 2019 como régua, faremos uma autópsia das cinco ocasiões em que o clube enfrentou um jejum de quatro jogos sem vitória na era pós-Jesus. O objetivo é diagnosticar se o cenário atual revela um padrão de decadência estrutural ou se é apenas mais um solavanco na montanha-russa de glórias e dramas que define nossa história recente.
2020: Guardiola pero no mucho
A passagem de Domènec Torrent foi o primeiro grande choque de realidade após o Éden de 2019. O catalão chegou com o selo de qualidade de Guardiola, mas tentou domesticar o Flamengo com um "posicionalismo" estéril que transformou nosso ataque avassalador em um exército de estátuas. O trauma não foi construído apenas por uma má fase, mas por uma sucessão de humilhações que feriram a alma do torcedor. Antes do colapso final, já tínhamos engolido o seco de um 5 a 0 para o Independiente del Valle, onde o time parecia não saber onde pisar na altitude, e um 3 a 0 para o Atlético-GO que serviu de presságio para o que viria.
O ápice do desastre, porém, foi desenhado em um intervalo de apenas sete dias. O São Paulo de Fernando Diniz não apenas ganhou; ele nos desmoralizou em pleno Maracanã com um 4 a 1 que teve crueldade e dois pênaltis perdidos por nós. Era o prenúncio da queda.
O crime capital de Dome, contudo, não foi o nó tático sofrido, mas a sua frieza glacial diante do massacre. Após levar 8 gols em uma semana — incluindo um atropelo de 4 a 0 para o Atlético-MG que nos deixou zonzos —, ele soltou em coletiva que "tanto faz perder de um ou de quatro".
Essa frase foi o prego no caixão. No Flamengo, perder de quatro é uma heresia que exige autoflagelo e silêncio; para ele, era apenas um dado estatístico. O divórcio era inevitável. Dome foi convidado a conhecer o Galeão, deixando um rastro de gols sofridos e uma torcida que aprendeu, da pior forma que nem todo Europeu é Messias.
2021: O "Olê Mister" e o Zumbi-tchê
Se Domènec tentou nos convencer pela teoria, Renato Gaúcho tentou nos seduzir pela facilidade. Afinal, com 200 milhões era fácil. Ele chegou à Gávea com o discurso de que o Flamengo se resolvia no carisma, no futevôlei e na base do "bola no Michael, dois Pai Nosso e vamuláporra". Por um tempo, as goleadas por quatro ou cinco gols mascararam a falta de repertório, mas a conta chegou no momento mais cruel da temporada. O castelo de cartas começou a ruir quando o Athletico-PR, provou que o talento individual sem um plano coletivo é apenas um alvo fácil.
A sequência de outubro foi o retrato de um time que perdeu o rumo e a alegria ao mesmo tempo. O empate insosso com o Cuiabá e a derrota no clássico para o Fluminense foram os avisos ignorados de que o motor havia fundido. O ápice da humilhação ocorreu na semifinal da Copa do Brasil: um 0 a 3 impiedoso dentro de um Maracanã lotado que esperava uma festa e encontrou um sepultamento.
Nos minutos finais daquela eliminação, o Maracanã protagonizou uma das cenas mais fortes da nossa história moderna. A torcida, ferida em seu orgulho, entoou um coro ensurdecedor de "Olê, Olê, Olê, Olê... Mister, Mister!" ecoou por quase cinco minutos, como um pedido de socorro e um exorcismo da figura de Renato.
À beira do gramado, o técnico estava petrificado. Ele exibia a mesma expressão de vazio que nós inauguramos ao aplicar o 5 a 0 no Grêmio dele em 2019 . Renato Gaúcho se tornou um "zumbi " naquela noite. Ele só não foi demitido ali porque Marcos Braz, em um movimento covarde de autopreservação, não quis carregar a responsabilidade de trocar o comando a poucas semanas da final da Libertadores. O Flamengo viajou para Montevidéu com um "corpo presente" no banco, em uma sobrevida artificial que só serviu para tornar a queda final ainda mais dolorosa.
2022: O Brilho das Copas e o Estelionato de Fim de Ano
Para o observador distraído, 2022 foi um ano de glórias inquestionáveis. E, justiça seja feita, o Flamengo de Dorival Júnior teve momentos de um futebol vistoso, resgatando a alegria de um elenco que estava sufocado. Mas a verdade é que as taças da Copa do Brasil e da Libertadores vieram com um custo emocional e nossas fraquezas escancaradas. Mesmo com o título, o futebol que encantou no início do trabalho minguou. O time passou a caminhar no fio da navalha, dependendo mais da hierarquia dos seus craques do que de novas soluções táticas. A falta de repertório começou a dar as caras: quando o adversário encaixava a marcação, o Flamengo travava.
O que se seguiu à glória eterna em Guayaquil, porém, foi um verdadeiro estelionato com o torcedor. O Flamengo resolveu "largar" o Campeonato Brasileiro de uma forma que beirou o descaso, achando que o peso dos troféus servia de salvo-conduto para a mediocridade em campo.
A sequência final foi uma ofensa à inteligência da Nação. Perder para um Avaí já rebaixado, dentro de um Maracanã com mais de 60 mil pessoas, sob a desculpa esfarrapada de que "devemos ser apenas gratos pelas taças". Gratidão não é cheque em branco para o desleixo.
Ver o time ser caridoso com o Z4 foi o ponto de ruptura. Ficou claro que, naquele modelo, dali não sairia mais nada. O trabalho de Dorival tinha atingido seu teto de vidro: o elenco estava desmobilizado e a tática, antes fluida, havia se tornado manjada. A diretoria, percebendo que o título mascarou um cansaço de ideias, usou esse desinteresse explícito das últimas rodadas como o álibi perfeito. Dorival caiu no auge, não por falta de taças, mas por provar que o seu Flamengo tinha perdido o fôlego e a capacidade de se reinventar.
2023: Vestiário ou Ringue?
Se em 2022 o futebol minguou por saciedade, em 2023 o Flamengo viveu o caos da desintegração. A passagem de Jorge Sampaoli foi uma "crônica de uma morte anunciada". O soco de Pablo Fernández no rosto de Pedro não foi um evento isolado, mas o sintoma final de uma desconexão absoluta. Sampaoli tratava o elenco como peças de um xadrez que ele jogava sozinho; o soco apenas rompeu o último fio de pacto que ainda restava no vestiário.
A sequência de setembro foi o retrato de um time em greve de zelo. Entramos na final da Copa do Brasil contra o São Paulo como quem cumpre aviso prévio: sem plano e sem brio. Os números não mentem: o time mudava a escalação a cada jogo (foram 39 variações em 39 partidas), destruindo qualquer química coletiva.
Sampaoli, o técnico que mal cumprimentava os seguranças, já estava sentenciado pela própria arrogância tática. Os resultados ruins foram a formalidade para chutar quem já não tinha o comando. No Morumbi, o apito final trouxe libertação: o Flamengo de Sampaoli morrera meses antes, engolido pela maior folha salarial do país.
2024: Tite e o Burocracídio
Tite chegou à Gávea com o verniz de quem traria a ordem ao caos, mas acabou entregando uma pasmaceira que sufocou a essência do clube. O "equilíbrio" prometido virou uma amarra; o Flamengo deixou de ser um time de futebol para se tornar uma repartição pública, onde cada passe precisava de três carimbos e duas autorizações antes de chegar ao ataque. A paciência da Nação, que já vinha sendo testada por vitórias magras e um futebol de "arame liso", evaporou quando a teoria professoral de Tite colidiu com uma suposta parede de concreto chamada Peñarol.
O problema não foi a derrota em si, mas a sensação de impotência tática. O Flamengo de Tite parecia jogar com o regulamento debaixo do braço mesmo quando o relógio era o carrasco e o placar era o inimigo. Era um time robotizado, castrado, que trocava passes laterais até a exaustão enquanto o torcedor, na arquibancada, sentia o tédio virar desespero.
O ponto de ruptura foi a soberba da promessa vazia. Após ser engolido taticamente no Maracanã, Tite olhou para as câmeras e, com a dicção perfeita de quem ensina um dogma, garantiu: "”Vai ter gol (no jogo de volta), podem me cobrar.". Foi o seu maior erro. No Uruguai, o que vimos foi um crime contra a tradição rubro-negra: um time com 80% de posse de bola estéril, incapaz de dar um chute que fizesse o goleiro adversário suar.
A eliminação melancólica com um 0 a 0 foi a prova de que a filosofia de Tite havia atingido o estágio terminal. Ele tentou convencer o Flamengo de que o controle era mais importante que a agressividade, e o futebol deu a resposta: dali não sairia mais nada. O Titebol morreu de inanição criativa, provando que na Gávea, quando a prancheta tenta calar o grito de "gol", quem acaba em silêncio é o treinador. Tite caiu porque tentou ser maior que o DNA do clube, transformando o "Manto" em um terno apertado demais para quem nasceu para ser livre.
2026: Felipe Luís pela primeira vez contra a parede
E chegamos ao agora. Filipe Luís está diante do mesmo espelho quebrado de seus antecessores. Se a torcida ainda não pediu em coro a sua cabeça, não é por satisfação, mas por uma rara compreensão das particularidades deste momento e, claro, pelo peso da sua história. Se no banco estivesse uma figura menos popular, um técnico qualquer, a sentença já estaria assinada e o caminho para a Place de la Concorde estaria pavimentado pela fúria da flamengada.
A verdade nua e crua, que o carinho tenta esconder, é que o futebol apresentado é pobre. Mais do que os resultados, o estilo de jogo não agrada e não comunica com a arquibancada. Puxem na memória: com que frequência você viu o Flamengo de Filipe Luís encerrar 45 minutos sem uma única finalização?
Não se trata de iniciar uma caça às bruxas. Até porque, olhamos para o mercado e não vemos um único nome que anime ou que prometa a cura para os nossos males. Mas o alerta precisa ser feito: todas as vezes, sem exceção, que o Flamengo atingiu esse retrospecto negativo pós-2019, o ciclo terminou em demissão.
Filipe Luís não pode continuar abusando da sorte e, muito menos, da paciência de uma torcida que já derrubou gente maior. Se ele precisa de um exemplo, basta olhar para o lado: Gabigol era muito mais ídolo, tinha um protagonismo maior, e conseguiu se inviabilizar. No Flamengo, o amor é eterno, mas o crédito é rotativo.
A história avisa que a fumaça preta já subiu na Gávea; e há quem escolha acreditar que uma diretoria que se diz profissional não vá repetir os erros de avaliação do mamífero africano de grandes proporções que ocupou o cargo anteriormente. A volta dos titulares contra o Vasco, tá aí pra provar que a influência da torcida ainda existe e pesa nas decisões tomadas lá dentro.
Hoje é dia de tomar uma pra esquecer! Puxa uma cadeira e bora prosear.