O Flamengo que deixou o Maracanã sob o som de vaias e o gosto amargo do vice-campeonato na Recopa Sul-Americana. De tudo que aconteceu até aqui em 2026, o mais relevante foi a noite de ontem.
Se na semana passada o tom era de urgência, hoje a sobriedade me obriga a perguntar: o trabalho de Filipe Luís ainda tem capacidade de correção ou já entramos em uma ladeira sem retorno? A derrota para o Lanús coroou a reedição do roteiro de 2023, com o agravante de já termos três rodadas do Brasileiro comprometidas.
Ao final, Filipe Luís afirmou na coletiva que "fizemos um grande jogo". É uma leitura que ignora a realidade dos fatos. Ele sabe que não. E o pior, essa frase carrega o mesmo peso semântico e o mesmo descolamento da realidade do fatídico "foi lindo" de Abel Braga. Dizer que uma derrota em casa, perdendo o título para um adversário tecnicamente limitado, foi um "grande jogo" soa como um insulto à inteligência de quem assistiu os cento e tantos minutos de jogo.
O desajuste entre o discurso e a prática foi tão latente que a zona mista parecia uma procissão de culpados. Em uma dinâmica comum, normalmente dois ou três atletas dão a cara. Ontem, vimos quase meio elenco descer para os microfones. Foi um "sincericídio" coletivo: Léo Ortiz admitindo a má fase, Ayrton Lucas assumindo o erro fatal e, para coroar o caos, Cebolinha anunciando sua saída do clube em pleno mês de fevereiro. Essa exposição em massa soou como uma tentativa desesperada de dividir o fardo, mas quem não viu, sugiro procurar no YouTube. Ninguém ali tava falando em grande jogo, ou perder no detalhe.
Uma das coisas que mais gosto dessa nova fase do Flamengo, é que morreu aquele negócio de mudar meio elenco toda janela. O time hoje é cheio de jogadores com quatro, ou cinco temporadas, e por isso dá tempo de conhecer. A sensação que eu tive vendo as entrevistas, é que o Ayrton Lucas por exemplo, foi praticamente coagido a falar. O cara sequer olhou pro microfone. Muitos deles se seguraram muito pra escolher as palavras que iam dizer.
Filipe sempre se orgulhou de ser um estudioso, uma esponja que sugou o conhecimento de grandes mentores. Mas a dúvida que fica: Será Que essa esponja não absorveu também vícios de quem o antecedeu?
Será que a retórica das coletivas, repleta de advérbios de intensidade e adjetivos dantescos não é uma herança de Tite para mascarar um campo que não corresponde ao discurso?
O protecionismo a certos jogadores que NADA correspondem, deixando no banco quem mostrou pelo menos um lampejo (afinal não tem ninguém em grande fase), não guardaria semelhanças com o abraço paternalista de Renato Gaúcho?
E a manutenção de um esquema rígido, ignorando que as peças atuais não o sustentam, não lembraria a teimosia tática de Paulo Sousa? A chegada de um jogador do quilate de Lucas Paquetá, somada à péssima fase técnica de quase todos os pontas do elenco, deveria sugerir uma mudança na estrutura do time. Eu pelo menos, penso assim.
Insistir em um esquema que depende de amplitude e velocidade pelos lados, quando o brilho hoje está na construção central, é ignorar o material humano em mãos. Ele insistiu num esquema que depende de intensidade, sabendo das limitações físicas da falta de pré-temporada. Não seria o caso de simplificar? Se preservar com resultados, e com o tempo ir voltando ao que ele sonha como ideal? Baixa as linhas e sai na velocidade. Bola longa nosso time tem, inclusive ontem tentaram mais do que qualquer outro jogo do ano.
Em meio ao deserto criativo, a liderança de Danilo surge como um ponto de sobriedade nas entrelinhas. Pessoalmente eu dava muito valor a ter o David Luís no elenco. Ele fez o Pedro, o Rodinei e o Michael serem suas melhores versões, ditos pelos próprios ajudados. O Danilo ocupa, com uma lucidez rara, o papel de mentor deixado pelo calvo cabeludo, sendo a voz coerente inclusive em temas sensíveis, como o recente episódio de racismo contra Vini Jr. Acredito que Danilo tem sido o pilar que tenta segurar um elenco taticamente à deriva e emocionalmente exposto. Ele vem assumindo um papel de protagonista, e diria que a postura vai indicando insatisfação com o trabalho do Felipe, sutilmente. Felipe provando do próprio veneno, quem diria.
Mas hoje, vale uma crítica até pra arquibancada. A paciência da Nação está no limite, mas vaiar aos 22 minutos do primeiro tempo é burrice. O Maracanã torna-se um campo neutro e hostil ao próprio Flamengo, jogando contra atletas que já lidam com o desgaste os erros. Mesmo que emocionalmente o Ayrton Lucas e o Lino fossem blindados emocionalmente. A vaia não vai fazer o cara ter mais chance de acertar o próximo lance, só vai diminuir. E eu credito parte da responsabilidade na torcida, no primeiro gol deles. O Ayrton já tava sendo vaiado antes do erro fatal!
A sensação, a cada sexta feira é que venho sendo mensageiro do caos, ao escrever. Aguardo ansiosamente uma semana em que o jogo seja ao menos na quarta-feira, pra dar tempo de mastigar e engolir a jurubeba, antes de vir ao teclado. Ou que o time comece a render, o que confesso, estou pouco esperançoso.
Resta agora ao clube o silêncio do CT para lamber as feridas. Mas o Flamengo precisa entender que lamber as feridas só faz sentido se for para cicatrizar os erros e levantar com uma postura diferente. Se o tempo for gasto apenas para lamentar o calendário ou justificar o injustificável com frases feitas, as feridas continuarão abertas, e o próximo tombo na ladeira será fatal para o projeto de 2026.
Coincidência ou não, o Léo Jardim (o careca, não o frangueiro) avisou, como quem não quer nada, que o "problema familiar gravíssimo" de dezembro já foi resolvido, e que pretende voltar a trabalhar em março. Será que o problema era a sogra?
Que a próxima semana traga mais sossego. Bom final de semana a todos, senta aí e vamos tomar só a saideira.