Salve, Buteco! Nas profundezas da Data FIFA, estamos começando o procedimento de descompressão e subida à superfície. Mesmo assim, ainda está cedo para voltar a falar sobre o time. Por enquanto, apenas notícias de treinamentos e de atuações dos jogadores rubro-negros convocados para seleções e nada mais.
Lembrando do caso do centroavante Nilson, cuja breve passagem pela Gávea eu lamentei no post de sábado, resolvi destacar quatro casos de jogadores que jogaram bem com a camisa do Flamengo, mas tiveram passagens curtas.
O último caso é de um jogador que jogou pouco e não rendeu, mas entrou na lista pela magnitude do talento. É bem provável que vocês concordem comigo neste ponto.
Vamos aos nomes.
1) Sérgio Araújo: 39j; 22v, 11e e 6d. 8 gols.
Pouco se fala na passagem do ponta direita pelo Flamengo. Eram tempos de vacas magras, marcadas pelo declínio não só do Flamengo da Geração Zico, como também do Fluminense tricampeão carioca e campeão brasileiro, e, em contrapartida, de ascensão, primeiramente, do Vasco da Gama do vice-presidente de futebol Eurico Miranda e, depois, do Botafogo de Emil Pinheiro, notório "banqueiro do jogo do bicho".
O jogador havia se destacado no Atlético Mineiro, principalmente sob o comando de Telê Santana, que passaria a comandar o escrete rubro-negro logo após sua chegada, precisamente 3 jogos depois. Destacou-se em um Flamengo de perfil ofensivo, que jogava muito bonito, mas que acabou não conquistando nenhum título. A discussão sobre o quanto tempo deveria ter permanecido se mistura com a do próprio treinador.
O certo é que Sérgio Araújo disputou sua última partida pelo Flamengo num jogo que ficou marcado por ser até hoje um dos mais constrangedores da História do clube: a goleada por 1x6 para o Grêmio, no Estádio Olímpico, no jogo de volta pelas semifinais da Copa do Brasil/1989. Telê cairia três jogos depois...
Apesar disso, prefiro valorizar os melhores momentos e alguns deles estão registrados neste pequeno vídeo compilado por Vinícius Freitas no YouTube (link, pois o tamanho excede os limites permitidos pelo Blogger).
Os Deuses do Futebol escrevem certo por linhas tortas? A carreira de Sérgio Araújo não teve momentos de maior destaque após a sua saída do Flamengo. Para o seu lugar chegaria Renato Gaúcho e, para a surpresa de exatamente zero pessoas, demorou precisos 3 jogos para cair o treinador Telê Santana, seu antigo desafeto. Pouco tempo depois, começaria no Flamengo a efêmera era Valdyr Espinoza, parceiro de Renight, marcada por pouquíssimas boas lembranças.
No ano seguinte, sob o comando de Jair Pereira, o Rei da Resenha ("maré-maré, jacaré-jacaré"), e praticando a famosa tática do SCO - Simples, Certo e Objetivo, o Mais Querido conquistaria a sua primeira Copa do Brasil, com Renato vestindo a histórica camisa 7.
2) Charles Baiano: 30j; 18v; 6e e 6d. 18 gols.
Taí um centroavante que, nos dias de hoje, sobraria pela alta qualidade técnica, pelo faro de gols e pela mobilidade. Não teria dificuldades para exercer o "pressing" e nem para ajudar na recomposição, e teria ido bem cedo para o futebol europeu. Quem viveu essa época se recorda da performance em altíssima qualidade no Bahia (Campeão Brasileiro/1988) e pelo Cruzeiro (Supercopa da Libertadores/1991). Meu amigo Eduardo, cruzeirense visceral, contava-me à época que o histórico locutor da Rádio Itatiaia, Alberto Rodrigues, iniciava os programas de domingo dizendo "bom dia! Hoje tem jogo do Cruzeiro, hoje tem gol de Charles".
Qual não foi a minha animação quando ele veio para o Flamengo? O problema é que, quando Diego Armando Maradona comprou seu passe e o levou para o Boca Juniors, Charles teve problemas de contusão na Argentina e já não era o mesmo jogador quando chegou à Gávea. Ainda assim, acho possível dizer que o Flamengo conseguiu extrair o resto de futebol em alta performance que ele podia entregar. No Campeonato Carioca de 1994, cujo título acabou não indo para as mãos do Flamengo por conta das manobras extracampo de Eurico Miranda (inversão de tabela, etc.), Charles acabou sendo o grande destaque e o artilheiro da competição, com 14 gols.
Neste link, você assiste a um compacto, preparado pelo canal VegetaTV no YouTube, da grande atuação do camisa 9 contra o Vasco da Gama (2x1), nas finais. Para muitos, a melhor atuação dele com o Manto Sagrado.
Vejam uma compilação (de gols) feita pelo saudoso Bruno Lucena, também no YouTube:
Destaque, também, para a sua presença na vitória sobre o Bayern de Munique (3x1), que marcou a conquista do título do Torneio de Kuala Lumpur. Contudo, uma séria contusão sofrida no joelho abreviou não apenas a sua passagem pelo clube, como a própria carreira. Tanto que, em 1995, inexistem registros de atuação do jogador, que retornaria aos gramados pelo Bahia, em 1996, mas infelizmente, daí por diante, sem conseguir ser o mesmo jogador.
O centroavante guarda boas lembranças de seus tempos de Flamengo:
"Foi uma experiência maravilhosa. Foi uma trajetória, apesar de curta, muito bonita. Eu fui artilheiro do Campeonato Carioca com 14 gols. Só não foi melhor porque sofri minha contusão mais séria. Mas tenho consciência de que, quando forem olhar a história do Campeonato Carioca de 1994, meu nome estará na história. Joguei 29 partidas e fiz 18 gols naquele primeiro semestre, então foi uma passagem que me deixou muito orgulhoso. Jogar no Flamengo não é para qualquer um. Muitos ídolos, muitos craques, jogadores que fazem parte da história, passaram e ainda passam por lá, então foi um grande momento. Jogar no clube mais querido do Brasil, de maior torcida, realmente foi um momento especial."
3) Marcos Assunção: 42j; 18v, 14e e 10d. 7 gols.
O pacotão de reforços do Flamengo de Paulo Autuori para o ano de 1998 teve uma série de jogadores, muitos de grife: Clemer, Zé Roberto, Cleisson, Marcos Assunção, Palhinha, Arinélson, Caio Ribeiro e Rodrigo Fabri. Dentre eles, repeito a passagem do Caio, mas o único que para mim deixou saudades foi o volante paulistano, que estreou no dia 1º de abril, jogou um futebol de verdade e deixou o clube em dezembro. Eram tempos nos quais o clube era absolutamente incapaz de se planejar sequer por uma temporada inteira, quanto mais por 3, 4 ou 5 anos.
Jogador de Seleção Brasileira, do Flamengo Assunção foi para a Roma, onde jogou por três temporadas, e depois para o Real Bétis, onde jogou por mais cinco. No Flamengo de hoje, é possível que tivesse esticado por uns bons anos a sua passagem pelo Rio de Janeiro. Fico imaginando como teria contribuído para o tricampeonato carioca, para a Mercosul/1999 ou mesmo na final de 2001 (finalíssima em janeiro/2022), nas cobranças de pênaltis, pela mesma competição...
É de Bruno Lucena a compilação de gols do habilidoso volante com o Manto Sagrado. O destaque, é óbvio, fica para as magistrais cobranças de falta:
4) Gamarra: 30j, 15v, 4e e 11d. 1 gol.
De todos os jogadores da lista, este talvez seja o jogador de passagem mais notória, né, Pessoal? Pelo nome que já havia construído pela Seleção do Paraguai e pelo Corinthians, e pelo futebol mostrado com o Manto Sagrado e, ainda, pela presença na final do tricampeonato carioca, em 2021, a do famoso gol do Pet. Formou com então jovem cria Juan uma zaga histórica, porém percebam, pelo alto número de derrotas, como eram tempos turbulentos e ciclotímicos do Flamengo dentro das quatro linhas. Imaginem se não fosse ele... Ou melhor, dá para imaginar, pois a campanha no Campeonato Brasileiro simplesmente inaugurou os "Anos de Chumbo", ou seja, aqueles de fuga desesperada da temida e, na época, íntima Zona do Rebaixamento.
A ausência do paraguaio foi causa determinante para a fraca campanha no Brasileirão. Com toda a razão, processou o clube por conta do atraso de salários, deixando a Gávea pouco mais de um semestre após sua chegada. Não chegou sequer a completar 7 meses. Apesar disso, o jogador não parece guardar mágoas e sempre se refere à torcida com carinho, dizendo sentir saudades.
Neste vídeo você vê o único gol marcado pelo paraguaio com o Manto Sagrado:
Vocês podem conferir natureza extraclasse do zagueiro em compactos de jogos do Flamengo, naquele ano, contra Fluminense (link 1), Santos (link 2) e Cruzeiro (link 3), todos disponíveis no YouTube. O primeiro é do canal Jogava Demais, o segundo do VegetaTV e o terceiro de Vinicius Freitas 1895. Outro compacto interessante, também do canal VegetaTV, é o da atuação da dupla Juan e Gamarra contra o Vélez Sarsfield no José Amalfitani (link 4).
Ainda que seja um exercício puramente fantasioso, é possível imaginar que Gamarra, assim como Marcos Assunção, teria composto a espinha dorsal de um time multicampeão, tal como feito em 2019 e, quem sabe, também a partir de 2025, com a gestão atual.
5) Alex: 12j; 3v, 1e 8d. 3 gols.
| "Não recebi e saí pagando ainda por cima" |
Dois meses e poucos dias. Esse foi o efêmero período do Cabeção vestindo o Manto Sagrado. Uma pena... Que desperdício! Neste vídeo do canal Charla Podcast no YouTube vocês podem conferir o que ele fala sobre esse bimestre no caos do Flamengo de Edmundo Santos Silva, em 2000. Nesta reportagem do Lance! também. Mas o que eu queria mesmo é a opinião de vocês sobre essa espinha dorsal imaginária que eu idealizei. Gamarra, Assunção, Alex... E aí? O Cabeção num time como o de 2019 ou o atual, como se sairia?
A resposta é fácil, né? Fã do Zico, esse cracaço (aço, aço) é o meu último da lista numa vibe totalmente Neymar frasista, tipo saudade do que nunca vivemos. Teve só um gostinho que dá para sentir brevemente, na atuação contra o Corinthians no Pacaembu, e no jogo de despedida, contra o Vitória, no Maracanã.
Gente boa que só, o Cabeção é outro que não guarda mágoa e, no vídeo do Charla, inclusive fala sobre a satisfação que sentiu ao vestir o Manto Sagrado.
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Se vocês tivessem que ampliar essa lista, quem incluiriam?
A palavra, como sempre, está com vocês.
Uma semana abençoada pra gente.
Bom dia e SRN a tod@s.
