terça-feira, 16 de setembro de 2025

O Estudiantes de La Plata

 

Salve, Buteco! La Plata, 1905, início do Século XX. O governo provincial decide que o Club Gimnasia y Esgrima teria que abandonar o campo da interseção da Avenida 1 com a Rua 47, usado para a prática de futebol. A Direção, desanimada e honrando a origem aristocrática do clube, decidiu descontinuar essa prática desportiva, privilegiando modalidades como a esgrima, esportes de salão e atividades sociais.

Tomado pelos sentimentos de inconformismo e indignação, um grupo de jovens sócios decidiu se desvincular da instituição para fundar o novo clube. Afinal de contas, naqueles tempos o futebol começava a pulsar por via de clubes como o Quilmes, o Argentino de Quilmes, Belgrano Athletic, Lomas Athletic Club, San Isidro Club e o legendário Alumni Athletic Club, de Buenos Aires.

Assim, no dia 4 de agosto, numa sapataria da Avenida 7, nasceu o Club Atlético Estudiantes, apelidado de "León" e "Pincharrata", cujo nome foi escolhido pelo singelo detalhe de seus vinte sócios fundadores serem estudantes universitários. Tal como ocorreu com seis jovens remadores em 1895, no Rio de Janeiro, aqueles jovens talvez não tivessem a dimensão que alcançaria a instituição que acabaram de fundar - uma verdadeira legenda do futebol argentino, sul-americano e mundial.

***

Acessando a primeira divisão em 1911 e conquistando o primeiro título em 1913, a partir de então o Estudiantes conquistou 11 títulos oficiais nacionais e 6 internacionais, além de dezenas de títulos em torneios amistosos. Dentre essas conquistas, destacam-se os 6 títulos argentinos, os 4 da Libertadores (primeiro tricampeão - 1968/1970) e o único Mundial (Intercontinental), conquistado sobre o Manchester United em 1968 (1x0 e 1x1).

Curiosamente, porém, a grandeza do Estudiantes não é uma unanimidade no cenário nacional argentino. Trata-se do debate em torno do chamado "sexto grande", isso porque só são reconhecidos como tais Boca Juniors, River Plate, Independiente, Racing e San Lorenzo. A disputa pelo reconhecimento é acirrada e o Estudiantes tem a concorrência de Vélez Sarsfield, Rosario Central, Newells Old Boys e Huracán.

O rival mais sério, no quesito, é o Vélez, que possui quase o dobro de títulos argentinos. Em compensação, o clube Pincharrata possui mais do que o dobro de copas nacionais e avassadores 4 títulos de Libertadores, contra apenas 1 do escrete de Liniers.

O certo é que, se na Argentina a grandeza do León é questionada, o mesmo não pode ser feito no cenário Sul-Americano, por mais paradoxal que isso possa parecer. 4 títulos são 4 títulos. Mais do que qualquer clube brasileiro conquistou até hoje. O Cruzeiro que o diga, pois caiu para o time dirigido por Alejandro Sabella, com gol de Mauro Boselli, em pleno Mineirão, na final de 2009.

A História desses títulos tem seus momentos de sangue e glória. Os argentinos alegam que, na final de 1968, contra os ingleses do Manchester United, foram alvo de pesadas agressões. Em compensação, como contei no post O Mundial de Clubes - 1ª Parte - O Início da Copa Intercontinental, na final de 1969 a selvageria ficou a cargo dos pincharratas, especialmente contra o ítalo-argentino Néstor Combín, do Milan.

Outro título marcante daquela época foi o da Interamericana de 1969, disputado de maneira ferrenha contra o Toluca, do México. O curioso é que os visitantes venceram os dois confrontos por 2x1, em La Plata e Toluca, forçando um terceiro jogo no Centenário, em Montevidéu, onde o Pincharrata aplicou 3x0 e levou o caneco.

Mais de uma década depois, mas ainda no Século XX, o Estudiantes protagonizou, contra o Grêmio, na edição de 1983 da Libertadores, um dos mais impressionantes episódios da competição, a chamada "Batalha de La Plata", quando os argentinos, na base da pancadaria e da intimidação, empataram, com 4 jogadores a menos, um jogo que perdiam por 3x1 contra o "Imortal" (que quase morreu, literalmente, naquela noite).

Enfim, em se tratando do cenário internacional, seja na bola, seja na pancadaria, o Estudiantes é um gigante e merece o nosso respeito. Disputa a sua 18ª edição da Libertadores, com até aqui 79 vitórias, 28 empates e 42 derrotas em 235 jogos, com 197 gols marcados e 131 sofridos (66 de saldo).

***

O Estudiantes manda seus jogos no Estádio Jorge Luis Hirschi, de muita História, mas sobre o qual deixarei para falar no Esquenta do jogo de La Plata.

Para fechar este post, creio ser mais importante lembrar que o Estudiantes venceu o seu grupo, deixando o Botafogo em segundo lugar. Na Fase de Grupos, foi melhor visitante do que mandante, mas como já frisei há algumas semanas, pareceu-me um time sem muita desenvoltura ofensiva.

Organizado, que gosta da bola, que tem o toque de bola (toca y me voy) típico argentino, mas sem dúvida nem tanto efetivo, com uma tendência ao arame-liso. Arrisco dizer que a chave do confronto é a vitória no Maracanã. Vencendo o Mais Querido, as chances de voltar de La Plata com a vaga serão consideráveis (sem menosprezo).

***

É curioso observar que Flamengo e Estudiantes já se enfrentaram por 8 ocasiões, todos jogos oficiais da Conmebol, porém apenas em diferentes edições da extinta Super Copa dos Campeões da Libertadores. Foram ao todo 3 vitórias, 4 empates e apenas 1 derrota.

Pela Libertadores "autêntica", os clubes se enfretarão pela primeira vez, quando uma nova História começará a ser escrita.

***

A gente volta a se falar na quinta-feira, no Esquenta.

Fiquem com Deus.

Bom diSRN a tod@s.