quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Alfarrábios do Melo


Saudações flamengas a todos.

Quando o Flamengo sofreu o primeiro gol do Bangu domingo passado, certa sensação de déjà-vu me passou pela cabeça. Algo como: “já vi esse filme antes”. Com efeito, após o final da partida fui consultar meus alfarrábios e constatei que minha memória não me havia traído. Pois. O enredo usual dos encontros entre Flamengo e Bangu tem sido marcado por um favoritismo claro dos nossos e a expectativa de um placar elástico sempre quebrada por aquele golzinho inoportuno, que ao menos é incapaz de evitar o final feliz. E nisso lá vai 2-1 pra lá e pra cá. Nada, nada, ao menos ano que vem, quando de novo encontro entre as duas equipes, os que apreciam apostar em bolões e quetais já dispõem de um bom palpite.

Segue breve histórico da saga.

* * *


BANGU 1-2 FLAMENGO, 2009
Raulino de Oliveira, Volta Redonda-RJ

Partida válida pela segunda rodada da Taça Guanabara. O Flamengo busca nova trajetória após o traumático desfecho da temporada anterior. E, ainda assimilando a forma de jogo do novo treinador Cuca, o rubro-negro quase se trai pelos nervos diante do frágil Bangu (recém-promovido da Série B). Diante de uma torcida ainda ressentida das frustrações de 2008, e por isso mesmo já disposta a vaiar qualquer lance errado, o time, nervoso, constroi e desperdiça inúmeras oportunidades de gol, especialmente com Obina, que, visivelmente fora de condições atléticas, não consegue dar sequência aos lances. Ainda assim, o baiano protagoniza o principal lance da primeira etapa, ao acertar um belo chapéu em um zagueiro e emendar pela linha de fundo. No entanto, Obina enfurece o torcedor ao mandar na trave uma cobrança de pênalti. Na volta do intervalo, o Flamengo aperta a pressão, mas quando o gol parece iminente o Bangu, num contragolpe, abre o marcador, por meio de Rafael Soeiro, aproveitando um rebote que espirra ainda no atacante Somália (em impedimento). O revés descontrola a equipe, que passa a pressionar de forma desgovernada. No fim, quando a partida parece caminhar para um desastre, Maxi saracoteia na frente de um zagueiro e é derrubado. Pênalti, que o controverso Marcelinho Paraíba (que contesta o clube por atrasos de salários e já entra em rota de colisão com Cuca, que o barra) cobra com categoria e empata. E Marcelinho, que entrara no jogo na segunda etapa, cobra escanteio na cabeça de Ronaldo Angelim, que manda no canto, sem defesa para o arqueiro Diogo. Aos 45 da segunda etapa, o Flamengo vira para 2-1 e se livra da primeira crise do ano. Mas não irá demorar.



BANGU 1-2 FLAMENGO, 2010
Engenhão-RJ

Terceira rodada da Taça Guanabara. O Flamengo vive dias de festa, ainda na ressaca do Hexacampeonato conquistado pouco mais de um mês antes. E, como se não bastasse, celebra a chegada do atacante Vágner Love que, hostilizado pela torcida palmeirense após a perda do Brasileiro, tem seu empréstimo junto ao CSKA-RUS repassado ao rubro-negro. A expectativa pela formação de um ataque devastador com Adriano faz o torcedor sonhar com a conquista da Libertadores e do Mundial. Surge o Império do Amor. No entanto, a realidade mostra uma equipe desfigurada em relação à que conquistou o Brasileiro. Com jogadores negociados, devolvidos ou lesionados, e repostos por outros reforços de nível duvidoso, um Flamengo bastante diferente daquele que povoa o imaginário inicia sua caminhada na temporada. Após duas vitórias mais difíceis que o esperado, o rubro-negro alinha para enfrentar o Bangu, na estreia do seu poderoso ataque. E Vágner Love não decepciona. Mostrando muita raça e uma genuína vontade de defender o rubro-negro, o novo Camisa 9 é, com sobras, o melhor em campo. O Bangu (lanterna da competição) começa assustando, mas o Flamengo, comandado por Love e Adriano, logo passa a controlar as ações. E, num chute de Fernando que o goleiro Marcos Leandro solta, Vágner Love leva ao delírio os 15 mil torcedores presentes no Engenhão, abrindo o marcador. Embalado, o Flamengo ainda pressiona, acerta várias vezes a trave do Bangu e chega ao segundo gol já aos 46 da primeira etapa, quando Adriano ganha uma disputa pelo alto e na sobra um Vágner Love completamente sozinho apenas tem o trabalho de se livrar do goleiro e empurrar para o gol vazio. No entanto, o que parecia desaguar em uma goleada tem seu curso mudado ainda nos descontos do primeiro tempo, quando um esbaforido Vinícius Pacheco derruba o banguense Abílio dentro da área. Pênalti, que Tiano converte, trazendo indesejáveis momentos de sufoco e apreensão na segunda etapa, em que o goleiro Bruno é forçado a intervir para garantir a estreia vitoriosa do Império do Amor. Mais uma vez, o Flamengo vence, mas não convence. O desequilíbrio da equipe cobrará seu preço mais tarde.


BANGU 1-2 FLAMENGO, 2011
Cláudio Moacyr, Macaé-RJ

Taça Rio, segunda rodada. O Flamengo, no embalo da conquista da Taça Guanabara, enfrenta o Bangu buscando consolidar a liderança de seu grupo também no Returno do Estadual. A equipe comandada por Ronaldinho Gaúcho começa a mostrar um futebol competitivo e eficiente. E que sufoca o adversário nos primeiros quinze minutos. Mas o gol não sai, por conta dos erros de finalização (efeito colateral de não contar com um atacante de referência, em função do deslocamento de Ronaldinho para a posição de “falso nove”). O Bangu, espremido, tem seu desafogo no inusitado atacante Pipico, que começa a infernizar a defesa rubro-negra, levando à loucura o (criticado) zagueiro Wellinton. Mas a primeira palavra é mesmo do Flamengo. Aos 24, Léo Moura (em grande atuação) arranca pela direita e se trança dentro da área com o lateral Fabiano Silva. O árbitro Djalma Beltrami assinala o duvidoso pênalti, que Ronaldinho converte com precisão. Gol e Bonde do Mengão Sem Freio, para festa da torcida. Mas não dá para comemorar muito. Dois minutos depois, Pipico, sempre ele, saracoteia na frente de Wellinton e se esbarra nas pernas do zagueiro. O árbitro, para “compensar”, também marca o pênalti inexistente. Pipico, o nome da noite, cobra e empata. O gol desnorteia o Flamengo, que somente se reencontra na segunda etapa. O treinador Vanderlei Luxemburgo coloca os atacantes Diego Maurício e Wanderley (o amuleto da equipe) em campo, mas o Flamengo não consegue transpor a defesa banguense. Acerta a trave, faz o goleiro Thiago Leal trabalhar com grandes defesas, mas o tempo vai passando e o 1-1 resiste teimosamente no placar. Para piorar, Pipico segue encontrando espaços e levando perigo em contragolpes mortais. É somente nos descontos que o Flamengo consegue exercer uma pressão insana, ao limite do insuportável. Cria e empilha uma chance de gol atrás de outra. E, aos 50 minutos, tem enfim seu esforço recompensado, quando Diego Maurício, após cobrança de escanteio, consegue mergulhar de cabeça para o gol, soltando o grito que estava entalado na garganta do torcedor. O Flamengo mostra estrela, vence mais uma partida nos minutos finais e segue sua caminhada para o título que conquistará invicto.


FLAMENGO 2-1 BANGU, 2012
Cláudio Moacyr, Macaé-RJ

Sexta rodada, Taça Rio. O início de 2012 é envolto em crise e turbulência. A demissão de Vanderlei Luxemburgo, as revelações sobre o comportamento extracampo de Ronaldinho Gaúcho, a contratação de Joel Santana, que jamais conta com o apoio de uma torcida de redes sociais cada vez mais estridente, a corrosão do prestígio da Diretoria e, principalmente, os resultados erráticos dentro de campo fazem o Flamengo viver algo semelhante a um inferno astral. E é assim que o rubro-negro vai a Macaé enfrentar o Bangu. O ambiente é tenso. A derrota para o Olimpia-PAR, na quarta-feira anterior, torna real o risco de eliminação da Libertadores ainda na Primeira Fase. Mas o time de Moça Bonita, que briga contra o rebaixamento, parece o adversário ideal para uma reabilitação. Espaçado e lento, o alvirrubro concede ao Flamengo os espaços suculentos para as evoluções de Ronaldinho, Deivid e Vágner Love. E as chances se multiplicam. Aos 16 minutos, após belíssima tabela com Ronaldinho, Vágner Love abre o marcador. O Flamengo segue pressionando e perdendo uma chance atrás da outra (numa delas, Ronaldinho, sem goleiro, escora sobre o gol), mas chega aos 2-0 num contragolpe em que Deivid serve Vágner Love. O goleador das tranças anota seu segundo tento e a goleada parece iminente. Mas a displicência nas finalizações impede que o placar seja alterado. Na segunda etapa, o Flamengo, preocupado com a viagem para o jogo crucial de Guayaquil, reduz o ritmo e com isso um desesperado Bangu avança suas linhas e começa a pressionar. Dá certo. Após algumas defesas espetaculares de Felipe, o alvirrubro enfim chega a seu gol, quando Sérgio Júnior sobe mais que Gonzalez e cabeceia para as redes. Os últimos quinze minutos são de um jogo franco, em que o empate chega a se tornar palpável. Mas o Flamengo (que também desperdiça inúmeras chances de ampliar), consegue manter os 2-1 que lhe alçam à liderança de sua chave. A tormenta parece debelada. Mas logo voltará. Ainda mais forte.


BANGU 1-2 FLAMENGO, 2013
Raulino de Oliveira, Volta Redonda-RJ

Taça Rio, terceira rodada. Vivendo forte crise, o Flamengo precisa desesperadamente de uma vitória que traga paz ao trabalho do novo treinador Jorginho. Mas, sofrendo com desfalques, Jorginho é obrigado a improvisar o volante Luiz Antonio na lateral-direita. E justamente Luiz Antonio, aos três minutos de jogo, chega atrasado na marcação ao atacante Sérgio Júnior, que escora um cruzamento rasteiro e abre o marcador para o Bangu. O gol prematuro esfacela o controle mental do rubro-negro, que não consegue criar rigorosamente nada. Apenas o meia Gabriel mostra alguma movimentação, mas em duas oportunidades desperdiça a chance do empate com finalizações erradas. O primeiro tempo termina com o placar adverso e o Flamengo descendo para o vestiário ostensivamente vaiado pelos 1.600 espectadores, que escolhem o apático e desinteressado Carlos Eduardo como seu alvo principal. Jorginho saca Carlos Eduardo e Luiz Antônio, desloca o volante Elias para a lateral-direita e manda o jovem Rodolfo a campo. Rodolfo, egresso do Madureira, muda radicalmente os rumos da partida. Mostrando mobilidade, dinâmica e um jogo curto, faz o Flamengo amassar o Bangu em seu campo e enfim impor um futebol superior. Aos 20, recebe de Rafinha e acerta um chute espetacular no ângulo de Getúlio Vargas, um golaço sensacional que empata a partida. O Flamengo se anima e passa a acossar a meta adversária, mas somente chega à vitória aos 42 minutos, numa cobrança de falta de João Paulo que atravessa toda a área, resvala num zagueiro e vai às redes. Esse jogo marcará uma espécie de relação platônica entre a torcida e Rodolfo, que jamais voltará a atuar nesse nível. Por fim, os 2-1 trarão um breve hiato de alívio, logo sobreposto por dias difíceis. São tempos difíceis.


FLAMENGO 2-1 BANGU, 2015
Maracanã-RJ

Taça Guanabara, 12ª rodada. O Flamengo de Vanderlei Luxemburgo segue buscando encaixar suas peças. Mas, em um Maracanã para 6 mil presentes, o rubro-negro segue encontrando dificuldades para fazer seu jogo fluir. Numa primeira etapa de nível técnico muito baixo, onde são dignos de registro apenas duas bolas mandadas na trave pelos flamengos e um gol do Bangu corretamente anulado, o 0-0 maltrata os olhos dos espectadores. Na segunda etapa, Luxemburgo promove a entrada do jovem lateral-esquerdo Jorge, em substituição ao inoperante Thalyson. Mas é pela direita que o Flamengo consegue imprimir uma blitz que resulta em dois gols relâmpago, ambos protagonizado por boas jogadas de Marcelo Cirino. Na primeira, o atacante encontra Alecsandro livre dentro da área, aos 6 minutos. E, aos 8, Cirino aciona Pará, que invade a área e coloca na saída do goleiro Márcio. Mas o Bangu não desiste e, comandado pelo experiente meia Almir, começa a explorar os espaços deixados por Jorge. Num desses lances, Almir recebe na esquerda, corta pro meio e manda rasteiro, diminuindo a desvantagem. Mas o alvirrubro sente o desgaste e não consegue pressionar. O Flamengo cadencia o jogo e mantém a vitória sem dificuldades. A atuação de Almir lhe renderá uma (contestada) contratação pelo Flamengo. Luxemburgo, por sua vez, jamais conseguirá dar o desejado padrão à equipe, e será tragado pelo desfecho do semestre. E sairá atirando.