segunda-feira, 20 de abril de 2015

O Espetáculo do Fracasso

Salve, Buteco! Começo esse texto abordando logo de uma vez o assunto menos importante da eliminação de ontem, que é a arbitragem. Até as pedras sabiam que poderia acontecer. Seja pelos pênaltis desproporcionalmente assinalados em favor do adversário, seja pelas suspensões aplicadas ao nosso treinador e a um atleta adversário, seja pela atuação da arbitragem, seja pela postura da FERJ, ninguém pode se dizer surpreso. "A pedra estava cantada". Então, não serve de desculpa e nem mesmo de atenuante, principalmente para quem tem mais elenco e muito mais pompa.

Foi pênalti no Pará? Foi "bem mais pênalti" do que o assinalado contra o Flamengo? Dois pesos e duas medidas? O Gilberto deveria ter sido expulso? O árbitro perseguiu o Pará desde o início da partida? O árbitro marcou todas as faltas de meio de campo e intermediária em favor do Vasco, evitando ao máximo a fluência do jogo do Flamengo e assim mantendo a bola em nossa defesa? Eduardo da Silva estava em condições legais no perigoso lance de contra-ataque no final da partida no qual foi assinalado impedimento?

A resposta a todas essas perguntas é afirmativa, mas nada disso impediu o Flamengo de colocar a bola no chão no primeiro tempo, criar as melhores oportunidades de gol e envolver o Vasco da Gama com melhor futebol, assim como não obrigava o treinador a mexer no time como fez no intervalo.

Foi o Flamengo que transformou a partida em um terreno propício para o que todo mundo temia acontecer. Ninguém mais.

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O início de jogo no qual o Vasco da Gama pressionou o Flamengo lembrou vários momentos da partida de domingo retrasado e trouxe alguma inquietação. Contudo, como o amigo bem apontou durante os comentários, Luxemburgo posicionou bem o time em duas linhas de quatro, com maior compactação, e logo vimos o Flamengo tomar conta do meio de campo. Ao atacar, tal como em sua partida de estreia na Vila Belmiro (os inesquecíveis 5x4), Luiz Antonio emulou o Willians de 2009, porém com melhor qualidade técnica, sem dúvida a posição em que melhor consegue render. Por sua vez, Everton flutuava buscando espaços na acuada defesa cruzmaltina. Márcio Araújo e Jonas, um pouco mais recuados e guardando posição, garantiam a posse de bola e a permanência do Flamengo a maior parte do tempo no campo do Vasco. E foi assim que boas chances de gol foram criadas, uma concluída para fora por Everton dentro da grande área e outra por Alecsandro, que fez bom primeiro tempo.

A despeito do risco assumido ao escalá-lo de início, dada a sua irregularidade. Luxemburgo apostou no bom histórico de Luiz Antonio em decisões (Copa do Brasil/2013) e na evidente maior qualidade técnica que possui em relação a Márcio Araújo, o que eleva sensivelmente o nível técnico nas articulações de jogadas ofensivas. A decisão poderia perfeitamente ter dado errado, pois não foi uma nem duas vezes que vimos Luiz Antonio ter atuações completamente apagadas e desligadas das partidas. Porém, Luiz Antonio entrou focado e determinado, podendo-se dizer que foi uma das principais peças do time no primeiro tempo e que Luxemburgo conseguiu fazer o Flamengo jogar uma de suas melhores partidas no ano, dados os altos graus de tensão e de disputa envolvidos.

Mas como explicar o que se passa na cabeça de Luxemburgo? Por que aquela pressa para lançar Arthur Maia na partida, tal como fizera no intervalo contra o Botafogo? O padrão é evidente e só não o enxerga quem não quer: contra o Botafogo, o Flamengo tinha dificuldades em penetrar na área adversária, mas conseguia encurralar o adversário dominando amplamente o meio de campo. Ontem, contra o Vasco da Gama, terminou a primeira etapa envolvendo o adversário e criando oportunidades claras de gol. Em ambas as partidas Luxemburgo tirou de campo um jogador que havia feito bom primeiro tempo e sido essencial para o domínio rubro-negro. Contra o Botafogo, Gabriel; contra o Vasco da Gama, Luiz Antonio. Em ambas as partidas, a entrada de Arthur Maia, precipitada e desnecessária, produziu o mesmíssimo efeito: perda de marcação, de volume de jogo e da capacidade de articulação no meio de campo, seguida de domínio adversário.

Quando a torcida achava que não poderia piorar, após o gol cruzmaltino vieram as substituições de Everton e Marcelo Cirino para as entradas de Eduardo da Silva e Gabriel. A formação que dominara o Vasco da Gama nos primeiros 45 minutos estava então desnecessária e inexplicavelmente desfigurada sem ter jogado sequer um minuto no segundo tempo. O Flamengo passou a ter um meio de campo com Jonas, Márcio Araújo e Arthur Maia precisando buscar o resultado, e ainda por cima com Eduardo da Silva e Alecsandro juntos, tornando o ataque pesado e com pouca mobilidade. Obviamente, a estratégia passou a ser alçar bolas na área para Eduardo e Alecsandro, pois a articulação desaparecera. Arthur Maia acertou um passe para uma boa conclusão de Gabriel e de resto os balões sem rumo para a grande área adversária apenas consagraram o zagueiro Rodrigo.

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Para não dizerem que não falei das flores, por mais frustrado e chateado que esteja, não vou passar de uma hora para outra a temer rebaixamento no Brasileiro e achar que o elenco é um dos piores do Brasil. Acredito que esse elenco, em condições normais, tem condições de subir três a quatro posições em relação ao campeonato do ano passado. É claro que não é o bastante sequer para uma Libertadores da América e nem estou afirmando que subir três ou quatro posições seja a meta mais adequada para o ano. 

Também não considero produtivo fechar os olhos para fatores importantes como a estranha e avassaladora sequência de lesões, assim como para o evidente prejuízo por ela impingido ao time em níveis de treinamento, entrosamento, ritmo de jogo, condição física dos atletas e até psicológico (concentração e resistência para enfrentar adversidades).

Apesar disso, indago se é possível não considerar negativo o saldo do primeiro semestre de 2015. Como se não bastassem os pífios resultados, o Flamengo em tese montou um elenco que, longe de ser brilhante, deveria ser homogêneo e por isso mesmo sólido em nível tático, pois afinal de contas temos um treinador experiente e supostamente atento ao que de mais moderno se passa no mundo futebolístico. Ocorre que, mesmo quando encontra algum padrão consistente durante as partidas, é o próprio treinador o primeiro a destruí-lo. No saldo, além de superado por equipes em tese mais fracas no Estadual, o Flamengo não apresentou um futebol minimamente convincente.

Quero deixar claro que, por mais decepcionado que esteja e por mais que minha confiança em seu trabalho tenha se abalado, não estou pregando a demissão de Vanderlei Luxemburgo, pois não creio que seja trocando de treinador a cada semestre que o Flamengo chegará ao lugar que a torcida almeja. Ao mesmo tempo, contudo, começa a apresentar um preocupante padrão a sequência de decisões por ele tomadas em partidas decisivas, concretizadas por substituições incompreensíveis, desastradas e desafiadores do senso comum. Se antes eu achava que era o treinador ideal para enfrentar um 2016 sem Maracanã a maior parte do ano, hoje eu me questiono se a Diretoria tem o direito de ser tão pouco ambiciosa, pois tudo indica que, como os amigos  sempre disseram, é improvável que o Flamengo conquiste os títulos mais altos com Vanderlei Luxemburgo no comando.

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Minhas considerações finais vão para Cirino, Paulinho, Samir e o Departamento de Futebol como um todo.

Começando pelos atletas, parece-me óbvio que algo extracampo está ocorrendo. Não sei se a causa é comum ou tampouco se, para cada um, mostra-se justificável ou não, mas é passada a hora de renderem com mais qualidade, sendo que, nos casos dos dois últimos, também de efetivamente trabalharem com mais frequência.

O time do Flamengo, hoje, não tem alma e nem ambição. É o time com menos inspiração e empolgação que já vi na minha vida de torcedor rubro-negro. Contraditoriamente, tem uma empáfia incompatível com os resultados e atuações dentro de campo.

O fracasso do Departamento de Futebol no primeiro semestre é retumbante e incontestável, seja quanto aos resultados, seja na qualidade do trabalho apresentado.

Como diz aquela propaganda de automóvel, é hora de rever determinados conceitos.

Bom dia e SRN a tod@s.