domingo, 17 de agosto de 2014

Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos.

Vários tipos de jogadores ajudaram a construir e a escrever a história do Flamengo. Heróis, ídolos, semideuses, vilões.

Mas há uma categoria de jogadores particularmente interessantes. Os anti-heróis. Jogadores que tinham tudo para serem idolatrados, reverenciados, mas por algum motivo a coisa desandou. Abro essa semana uma série falando de alguns desses jogadores, e já inicio com um dos mais polêmicos. Recomendo o vídeo no final do texto, contendo uma pequena amostra de imagens, algumas raras. Boa leitura.

OS ANTI-HERÓIS, PARTE I – RENATO GAÚCHO

1 – PRIMEIRA PASSAGEM (1987 – 1988)
O time misto do Flamengo vai sendo derrotado pelo Santa Cruz no Maracanã (0-1), em partida válida pela última rodada do Brasileiro de 1986 (que transborda para o ano seguinte, coisas da Era Nabi). Mas ninguém se importa, seja pelo Flamengo já estar classificado, seja pela bomba que explode, a contratação de Renato Gaúcho, sonho antigo do rubro-negro (que andava atrás do atacante ao menos desde 1986) e última operação da Estrutural de Rogério Steinberg (que ajudara a repatriar Zico e Sócrates algum tempo antes).

A identificação de Renato com o Flamengo é intensa e imediata. O atacante estréia em um amistoso contra o Uberlândia, no Parque do Sabiá (2-2) e marca seu primeiro gol pelo clube em Florianópolis (2-1 sobre o Avaí, outro amistoso). Já se destaca nas primeiras partidas da Taça Guanabara quando sofre séria lesão na planta do pé, ao chutar a sola de um zagueiro adversário no lance em que marcou um dos gols flamengos na vitória sobre a Portuguesa da Ilha (2-0). Ainda tenta retornar de forma precipitada, o que atrasa ainda mais sua recuperação. Jogador conhecido pela dificuldade em entrar em forma, usa as últimas partidas do Estadual para ganhar ritmo de jogo, e chega voando fisicamente ao Brasileiro. Idolatrado e extremamente motivado, é o motor e o trator da equipe que conquista o tetracampeonato. Renato marca gols decisivos, acumula assistências e é premiado, de forma justa, como o melhor jogador da competição. Vive o auge de sua popularidade no Flamengo.

Com o prestígio nas alturas, torna-se símbolo sexual, acumula casos amorosos e é uma das celebridades do verão de 1988. No embalo do título brasileiro, Renato comanda o Flamengo à conquista da Taça Guanabara, com destaque para o jogo decisivo contra o América (2-1), em que revive Garrincha e protagoniza uma das maiores atuações individuais da história do Maracanã.

Mas nenhuma árvore crescerá a ponto de tocar os céus. Poucos dias depois, é caçado criminosamente em uma partida contra o mesmo América e lesiona o joelho (que a partir daí sempre atormentará sua carreira). Retorna cerca de 30 dias depois, fora de forma e totalmente atordoado pela idéia de se transferir para a Roma-ITA, que o assedia quase diariamente. O Flamengo perde rendimento, Renato não é sombra do jogador do primeiro turno, e a torcida não o perdoa, associando os jogos pálidos ao processo de sua negociação (a transação chega a ser fechada antes do fim do campeonato). As vaias se sucedem, Renato ameaça não disputar as partidas finais mas recua, o que não impede a perda do Estadual e a amarga despedida, repleta de declarações magoadas e fortes.

2 – SEGUNDA PASSAGEM (1989 – 1990)
Sua chegada, após apagada passagem pela Roma, já é marcada por várias polêmicas. Vários conselheiros questionam o valor da compra, que poderia ser usado para a renovação do contrato de Bebeto (evitando o trauma da perda do jogador para o rival Vasco), outros veem perspectivas de sérios problemas de convivência do astro com o treinador Telê Santana, antigo desafeto. E, com efeito, a relação entre Renato e o treinador dura apenas três jogos, implodindo após Telê tirar o atacante no meio de uma partida contra o Corinthians (0-1), crise que redunda na saída do técnico.

Mas a “vitória” no embate não melhora muito o rendimento de Renato, que faz um Brasileiro apagado, mesmo sob o comando de seu amigo Valdir Espinoza. Em 1990 o craque, mais motivado e buscando vaga na Seleção que irá ao Mundial, torna-se rapidamente o líder e a referência da equipe, sendo um dos poucos a se salvarem na pífia campanha do Estadual (o que lhe valeu a ansiada convocação). Polêmico, suscita reações diversas, ao ajudar a decidir partidas e ao atrapalhar provocando em demasia os adversários, especialmente em clássicos.

A péssima campanha no Estadual provoca reformulações, e Francisco Horta (ex-presidente do Fluminense) é contratado para a direção do futebol. Rapidamente a relação entre Renato e Horta se deteriora, com trocas públicas de farpas (“Renato é o nosso Frank Sinatra, mas ele está rouco”), e o dirigente tenta incluir o atacante em trocas com o São Paulo (por Raí) e até o Vasco (por Bebeto), sem sucesso. Renato ainda é o craque do time, mas cai de produção, voltando “instantaneamente” a atuar em alto nível após a demissão de Horta, depois de uma sequência de maus resultados no Brasileiro. No restante do ano, Renato coleciona atuações de gala (como nos 2-0 contra a Portuguesa, no Canindé), protagoniza com o amigo Gaúcho um ataque devastador, e, dividindo a liderança da equipe com o craque Júnior (que enfim conquista o merecido espaço), faz do Flamengo Campeão da Copa do Brasil. Mas, ao tempo que é novamente destaque em um título nacional, torna-se vilão ao perder um pênalti contra o Grêmio em Juiz de Fora, na derrota (0-1) que praticamente cravou a eliminação flamenga do Brasileiro (faltaram dois pontos para a vaga).

Ao final do ano, a diretoria do Flamengo é trocada, e o novo presidente, alegando questões financeiras, não faz questão de cobrir a proposta do Botafogo, e Renato se muda, no início de 1991, para General Severiano (o que necessariamente não desagrada alguns jogadores do elenco). Em sua passagem pelo alvinegro, várias vezes comete “atos falhos” exaltando a grandeza do Flamengo.

TERCEIRA PASSAGEM (1993)
Após atuar por Botafogo e Grêmio, Renato se reencontra no Cruzeiro, terminando 1992 como o melhor atacante brasileiro em atividade, empilhando gols e jogadas mortais, conquistando a Supercopa Libertadores e voltando a atuar no nível de 1987. A excepcional fase do jogador chama a atenção da nova diretoria do Flamengo, e a proposta rubro-negra entusiasma Renato, que ignora as melhores ofertas do Santos e do próprio Cruzeiro e retorna à Gávea.

Mas a terceira passagem do craque pelo Flamengo é marcada por confusões e contratempos. Após estreia discreta em festivo amistoso contra o Cruzeiro e alguns poucos jogos (destaca-se na vitória contra o Nacional-COL, onde marca o único gol do jogo ao roubar a bola do folclórico Higuita), Renato volta a sofrer séria lesão no joelho e perde praticamente o primeiro semestre. Retorna na reta final do Estadual, é criticado por seu individualismo, arruma confusão com o atacante Nilson (a ponto de baterem boca em público), e o estopim é a partida contra o Itaperuna, que vai se arrastando em um empate (1-1) que praticamente elimina o time do Estadual. Nos minutos finais, pênalti. Renato toma a bola das mãos de Nilson (o cobrador oficial) e isola a bola e as chances rubro-negras.

Alguns dias depois, já pelo Torneio Rio-SP, Renato, que nunca manteve boa relação com os jovens da base, reclama do posicionamento de Djalminha, que retruca, a discussão se torna áspera e degenera para a troca de sopapos. O incidente encerra a passagem do garoto pelo Flamengo, mas Renato sofre apenas leve punição.

No Brasileiro e na Supercopa, Renato volta a atuar em bom nível, formando perigosa dupla de ataque com Casagrande. O Flamengo cresce e chega às finais das duas competições. Mas as confusões não cessam. Renato marca vários gols importantes, mas comete um pênalti infantil contra o Vitória, na Fonte Nova, já pela Fase Final, lance que sela uma derrota decisiva e acende nova crise de relacionamento, agora com Júnior Baiano. O Flamengo não resiste aos problemas de convivência e ao estafante calendário, encerrando o ano de forma frustrante.

Em 1994, novamente Renato é negociado sob o pretexto de “dificuldades financeiras”, e se transfere para o Atlético-MG. Aparentemente, é o início da linha descendente na carreira do atacante.

QUARTA PASSAGEM (1997-1998)
Quando o Flamengo repatria Romário em 1995, um entusiasmado Renato se oferece para retornar ao rubro-negro. Pretensão enxotada, o atacante encontra abrigo no rival Fluminense, onde, motivado, torna-se ídolo e referência. No entanto, volta a se lesionar seriamente no joelho e é relegado a segundo plano nas Laranjeiras. Magoado, aceita a oferta de tornar a vestir a camisa do Flamengo, mesmo longe de suas melhores condições físicas. Agora atuando como homem de área, mostra instinto goleador, marcando alguns gols importantes e fazendo a diferença nos poucos momentos em que consegue entrar em campo. A experiência não dura muito tempo, e Renato é enfim derrotado por suas limitações físicas (ironia, já que a capacidade física sempre foi seu diferencial).

Sai de cena o jogador, entra a personagem polêmica e irreverente, capaz de suscitar as mais exaltadas reações. Pode-se idolatrar, admirar, odiar, rejeitar. Mas Renato Portaluppi jamais terá convivido com a indiferença. Porque, com seu temperamento sanguíneo e pulsante, soube cultivar na sua relação flamenga, o mais visceral dos sentimentos. O mais ardente. O mais Flamengo.

A paixão.

“Esse Internacional só tem o goleiro, o lateral-direito e o 10. Precisa de meio time pra pensar em título brasileiro” (na semana da decisão do Brasileiro de 1987);

“Convoco a torcida do Botafogo a comparecer em peso ao Maracanã. Venham todos, porque assim meu bicho será maior” (na véspera de um Flamengo x Botafogo. O bicho por vitória na época era uma percentagem da renda);

“A torcida do Flamengo é um espetáculo. Dá vontade de parar pra ficar olhando. Bem diferente da nossa.” (durante um Flamengo x Botafogo, em 1991, em que Renato atuou pelo Botafogo);

“Sempre tive o Fluminense como time pequeno. Joga como pequeno, tem jogadores de time pequeno. Minha expectativa contra eles é sempre dar uma goleada. Aliás, se jogarem abertos, é isso o que vai acontecer.” (antes de um Fla-Flu, em 1990);


“Às vezes o pequeno ganha. Não deixa de ser pequeno por isso.” (depois de perder um Fla-Flu).

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