domingo, 18 de maio de 2014

Alfarrábios do Melo


A solidão da derrota.

Há algo de intimista na forma como se saboreia o amargo acepipe do revés. O insucesso sorvido em silêncio, em retiro, a brisa que desalinha os ralos fios de um cabelo a cada dia mais encanecido. O ciciar macio de alguns pássaros que ajuda a entregar uma paz acima de tudo melancólica.

Carlinhos apostou tudo. E perdeu.

Mas, enquanto vai bebericando os ásperos goles de uma cerveja já beirando a tepidez, o treinador segue convicto de ter optado pela alternativa correta. Sabia que a lenta zaga da equipe não era mais páreo para ataques velozes, e essa realidade já lhe vinha sendo sistematicamente exposta desde as duras derrotas para os uruguaios do Nacional. Tinha a convicção de que Leandro, o gênio, craque Leandro, a despeito de seu enorme talento e incomparável técnica, não mais reunia condições de, sem uma intervenção cirúrgica, jogar futebol em alto nível. Mas a barração de um titular tido como absoluto e um dos líderes do elenco, em um ambiente coberto de proteções e melindres, tinha que ser operada de forma cautelosa. Houve a falha decisiva e comprometedora no primeiro jogo da final. O título virtualmente perdido. A necessidade de ações mais agressivas. E Carlinhos viu sua oportunidade. Agiu. Mas o fez no apagar das luzes, na preleção de vestiário. Não havia outra forma. Se fizesse antes o mundo lhe iria à cabeça, a polêmica nos jornais destruiria o já frágil ambiente do elenco. E Leandro foi barrado. E entrou Aldair. Os jogadores mais experientes chiaram, reclamaram, xingaram. Porém o time melhorou dramaticamente.

Mas perdeu. Perdeu injustamente, mas perdeu. Carlinhos perdeu o jogo. O título. E o grupo.

A cerveja, já quente, é expelida do copo e ganha a relva. O gole, agora agradavelmente gelado, relaxa mas não tira de Carlinhos a certeza de que seu trabalho no Flamengo acabou. Jogador de tantos anos, sabe como a coisa funciona no mundo da bola. Sem o apoio dos líderes do elenco (apenas Zico o defende), destroçado pela imprensa (que o acusa de despreparo) e alvo dos dirigentes (que anseiam por uma cabeça), o treinador sabe que sua saída é questão de horas. Provavelmente já tenha inclusive sido decidida.

Carlinhos termina sua cerveja. Acende um cigarro. Lê alguma coisa. E depois vai dormir.

A Gávea está incandescente. Jornalistas, dirigentes, torcedores e curiosos em geral vão se esbarrando pelos corredores, zunindo rumores e fofocas que torpedeiam alvos a granel, ao sabor das preferências de quem os cria. Há uma percepção quase unânime de que Carlinhos será demitido e haverá uma reformulação geral da comissão técnica, aproveitando a saída do preparador físico Lancetta, que irá para o mundo árabe. Alguns dos jogadores mais experientes do elenco douram os microfones com macios afagos a Carlinhos, mas no recôndito de sua privacidade não perdoam a “deslealdade” com Leandro. A diretoria não se pronuncia, vários dirigentes sabem que também estão com seus cargos expostos. Apenas o presidente Márcio Braga laconicamente elogia Carlinhos. “Tem feito um bom trabalho, com resultados”.

Ainda distante, desfrutando o recesso relativamente longo imposto pela diretoria a todo o Departamento de Futebol, Carlinhos vai acompanhando o desenrolar dos acontecimentos. Quer continuar, mas sabe ser difícil, não se apega ao cargo. Vai rechaçando sistematicamente os jornalistas que lhe batem à porta, provavelmente em busca de alguma fagulha, algum combustível que ajude a explodir o já tenso ambiente na Gávea. Não se importa com as críticas exageradas e as bobagens dos comentaristas de VT. Sorri diante dos rumores de que o time, na verdade, é armado por Andrade. Diverte-se com os veredictos de que recebeu o “time pronto” de Antônio Lopes. Dá de ombros aos que o chamam de “banana”, “sem pulso” e outros adjetivos pouco recomendáveis. “Há seis meses, esses mesmos me chamavam de moderno, bruxo, estrategista”. O resultado. O verdadeiro diretor, comandante, gestor, é o resultado. O resultado promove, contrata, demite, elogia, critica. O deus da bola é o resultado.

Agenda-se uma reunião em que, segundo a imprensa, “a cabeça de Carlinhos enfim será entregue”. O Flamengo sonda o Atlético-MG sobre uma possível liberação de Telê, que já dá alguns sinais de cansaço no clube. Com a negativa dos mineiros, vai atrás de Renê Simões, técnico tido como promissor. Renê recebe a sondagem com entusiasmo e declara-se “ansioso” pela confirmação do convite. Mas há outras sondagens, como Valdir Espinoza, que não consegue a liberação do Cerro Porteño-PAR.

Carlinhos segue se negando a comentar na imprensa esses rumores ou qualquer outro assunto.

Chega o dia da tal reunião. O clube, imerso em uma colossal bagunça, só consegue definir a substituição do vice-presidente do futebol. Assumirá uma raposa, daquelas felpudas, ex-presidente. Como esperado, a decisão envolve um arranjo político. Nenhuma decisão sobre o treinador é anunciada oficialmente.

O recesso termina, Carlinhos volta a comandar normalmente os treinamentos na Gávea. Nada de reuniões, nada de discussões. Um trabalho regular, corriqueiro. Ao final, enfim o treinador resolve falar aos jornais. Mas decepciona os que querem sangue. “Sou funcionário do clube, enquanto assim o for trabalharei normalmente”. “Não me falaram nada”. “Os rumores são perfeitamente normais, afinal perdemos um título”, “Não tenho nenhum motivo para pedir demissão”, entre outras amenidades.

“Carlinhos já está demitido, e vai ser comunicado disso assim que eu assumir. Ele sai por causa do péssimo ambiente com os jogadores.”

A declaração é daquelas de bastidores, com gravador desligado. E sai justamente da boca do novo VP de futebol. É a flama, o combustível que se precisava para detonar de vez a crise institucional no clube. As reações são passionais, a reprovação universal. Diretores criticam a falta de equilíbrio do dirigente, jornalistas se dividem entre muxoxos contra a “deselegância” da declaração e mais argumentos desqualificando o trabalho de Carlinhos. Andrade toma as dores do elenco e não aceita o peso da demissão. “Estão colocando nas nossas costas algo que não é correto. A demissão do Carlinhos já estava definida antes mesmo do episódio do Leandro”. As reuniões, discussões, bate-bocas seguem intermináveis. Jogadores e treinadores são oferecidos, expostos à venda como naqueles mercadões abertos orientais. O Flamengo vira uma babel.

A confusão enfim provoca efeitos em Carlinhos. Chateado e visivelmente abatido, confessa a amigos estar desapontado com a forma como seu nome está sendo exposto. Mas, diante dos microfones que lhe pululam como moscas ao rosto, não sai uma palavra que lhe desvie do equilíbrio. “Sigo meu trabalho”, “Quem me emprega e demite é o Flamengo, não os jornais”, “nenhum treinador é eterno, claro que posso sair a qualquer hora”. E continua trabalhando, comandando os treinos, escolhendo (cauteloso, sem divulgar) os jogadores que viajarão para a excursão que o clube fará pelo país em poucos dias. “Não posso definir quem vai viajar, se eu não sei nem mesmo se eu estarei nessa viagem”, é o máximo de “polêmica” que Carlinhos dá à crônica.

Enfim, depois de uma novela de quase 10 dias, e quase na véspera da viagem do Flamengo a Ilhéus-BA, o novo VP de Futebol chama Carlinhos e, em uma conversa curta, de vinte minutos, agradece a colaboração, o esforço, os resultados e o informa da demissão. “Muito obrigado, mas você está fora.”

Na saída da sala, Carlinhos é abordado por um séquito aparelhado das mais diversas ferramentas de mídia. Um bando sôfrego, ávido, que se lhe aboleta à frente. Notícias, novidades, fatos. A ansiedade é eloquente, insofismável. Ansiedade por notícias. Por fogo. Por sangue. O calor do momento pode fazer história.

O treinador estaca, suspira fundo e devagar e, eivado de desconcertante dignidade, esboça um pálido sorriso e, com um olhar tão tímido quando profundo, anuncia: “Acabou. Não sou mais o treinador do Flamengo. Só tenho a agradecer pela oportunidade. Agora por favor me deem licença”.

Alguns jornalistas ainda tentam segui-lo, mas Carlinhos, a partir de agora, não é mais notícia. Passa a pertencer ao passado, nessa alucinada farândula de acontecimentos que move o mundo do futebol. Os alvos agora serão dirigentes, conselheiros, sócios, amigos de reis, gente capaz de alimentar as páginas dos periódicos com rumores, ruídos, fofocas, gente que vem, gente que vai. O pacato treinador agora será, enfim, deixado em paz. Tornou-se pauta morta.

Carlinhos se despede rapidamente dos jogadores, agradece a colaboração, deseja sorte ao grupo, e discretamente sai de cena. Voltará à sua vida simples, reservada, ao seu dominó, seu cigarrinho, enquanto pensará em seu futuro. Carlinhos não está preocupado com o que lhe espera. Inteligente e vivido, não manifesta a menor pressa, sabe que crises, confusões e turbulências são tão efêmeras quanto a glória de uma taça erguida ao firmamento. E, se hoje é descartado, amanhã será imprescindível. E a maneira como se lida com a dinâmica desses acontecimentos é o que define se portas seguirão abertas ou cerradas. Sereno, tem a absoluta convicção de que tornará a ser chamado, o Flamengo atrai e se alimenta de vitórias, de vencedores. E um vencedor não se define apenas pelos troféus que conquista, mas pela maneira como lida com os diversos obstáculos que se erguem em sua trajetória. Um vencedor é identificado principalmente nas derrotas.

Carlinhos abre uma cerveja. Acende um cigarro. Lê alguma coisa. E vai dormir.

* * *

Carlinhos ainda foi chamado mais quatro vezes para dirigir o Flamengo. Um dos mais vitoriosos profissionais da história do rubro-negro, é considerado de forma quase unânime um dos maiores treinadores que trabalharam no clube.