domingo, 19 de maio de 2013

Alfarrábios do Melo



Saudações flamengas a todos.

Essa semana repito uma fórmula que agradou há algumas semanas, contando um rumoroso episódio acontecido nos bastidores flamengos. Caberá aos colegas descobrirem a época e as personagens. Boa leitura.

Dezembro.

Confortavelmente recostado em sua cadeira de praia, o treinador se permite um raro momento de indolência. A expressão amena em seu rosto quase denuncia um sorriso de alívio, é o final de uma temporada tensa e desgastante, onde glórias e decepções se mesclaram com intensidades variáveis. Sim, valeu a pena. Mas outro ano está por vir, desafios ainda maiores o aguardam, é necessário burilar e ajustar a rota de um grupo vencedor.

Beberica um suco de laranja, aspira o revigorante e salgado perfume da maresia costeira de quase verão, vislumbra em seu horizonte apenas relaxamento e descanso. Nada de problemas. Mordisca languidamente um pedaço de queijo e abre o jornal.

Estaca, lívido. Arregala os olhos, as veias saltam. Inevitável conter o xingamento.

A página de esportes algo maltratada agora repousa no chão, segregada ao ostracismo reservado aos arautos das más novas. Lá está a fria nota, que menciona assim, por acaso, uma lista, uma relação de jogadores a serem dispensados, trocados, negociados, descartados, criteriosamente preparada por ele, o treinador. Jogadores titulares, reservas, jovens, experientes, ídolos. Uma revelação com alto teor explosivo, bombástica, escandalosa.

O telefone começa a tocar. O treinador recusa-se a atender, ainda aturdido.

Busca manter-se calmo. Procura relembrar os fatos, recompor a história em sua cabeça. Foi em Porto Alegre, antes do amistoso contra o Grêmio. Havia se reunido no vestiário com o restante da comissão técnica e um ou outro diretor, uma conversa rápida, um esboço, um rascunho. Recebera uma listagem com todo o elenco, e foi abordando rapidamente caso a caso, marcando um “x” em nomes eventualmente negociáveis, ou no mínimo discutíveis. Outros receberam um “?”, indicando situação em aberto. Lembra que havia defendido emprestar alguns nomes inativos para ganhar cancha. Reservas que, em sua visão, ainda não disporiam de oportunidades mais efetivas, e que, caso permanecessem no elenco, estariam desmotivados e subaproveitados. Recorda ainda que o assunto esteve longe de se exaurir, aquela havia sido uma conversa preliminar e nada conclusiva.

E agora, a lista está nos jornais. A barca, as dispensas, os jogadores que serão descartados, dizem.

Ainda irritado, o treinador pragueja. Tenso, não demora a perceber que suas férias foram irremediavelmente para o espaço. Insulta-se, não admite ter-se permitido a discutir um assunto tão traiçoeiro em um ambiente aberto, de vestiário, com ouvidos sensíveis sempre à espreita. Agora não interessa se a conversa foi casual, não adianta argumentar ter apenas ocorrido um bate-papo. O vírus da desconfiança, sabe, está definitivamente inoculado.

Claro, as eleições. A Gávea segue dividida politicamente, haverá eleições semana que vem. Os dois candidatos sinalizaram mantê-lo, mas o mundo do futebol é fluido, suscetível a fatos novos. E, pela matéria, tudo indica que o próprio candidato da situação, o favorito, ajudou a vazar a informação, sabe-se lá por qual motivo. Fala demais o dirigente, sempre falou.

Isso não interessa agora. O treinador precisa pensar. Sua cabeça ferve.

* * *
Passam-se alguns dias.

Ainda recolhido em seu refúgio, o treinador começa a sinalizar sua decisão. Gostaria de permanecer mais um ano, encerrar seu ciclo, finalizar o trabalho iniciado com o alcance da tão sonhada meta, mas entende ser difícil. Nenhum dirigente o defendeu abertamente, falam apenas em “conversar para saber o que o levou a tomar tal atitude”. O (agora eleito) presidente chegou a telefonar justificando “eu tive que transferir a responsabilidade pra você, você entende, eleições, a situação era delicada, a lista ia vazar pelo outro lado”, sim, essas coisas de política que pouco interessam ao treinador.

E há os jogadores. Certamente alguns daqueles nomes irão entender, até porque haviam sinalizado a intenção de sair. Mas outros atletas sequer haviam tido sua situação discutida, e evidente que seria a intenção do treinador conversar, olhos nos olhos, como sempre fora de seu feitio, antes de tomar uma decisão. Alguns já manifestaram nos jornais estranheza, decepção. É um ambiente potencialmente complicado.

Valorizado no mercado, o treinador não teria dificuldade de encontrar novo clube. Propostas já vieram em bom número, inclusive do exterior. Desgastado e cansado, o treinador aceita agendar uma reunião de trabalho com o novo presidente, que tem buscado colocar panos quentes, apaziguar, minimizar o episódio. As bases salariais não são o problema. Mas seu ânimo é mesmo de deixar o clube.

* * *

Assim tem início a temporada. O treinador realmente se vai, entende que o episódio o faria perder o grupo. Da lista de onze jogadores, apenas dois deixam o Flamengo. Mas vários deles manifestarão insatisfação e pressionarão o novo treinador, insatisfeitos com a reserva ou com a posição improvisada. Os maus resultados logo aparecerão, e a crise ensaiada apenas se mostrará adiada, estourando em definitivo dali a alguns meses. Visivelmente abalada, a diretoria falará em reformulação total e a lista será relembrada, com a intenção de ser aplicada. Treinadores serão carbonizados e a torcida explodirá em ódio, enfurecida.

Os jornais exultarão diante do farto material, já antevendo o fracasso e a decadência que se anunciam. E, com efeito, todos os indícios apontam para uma temporada fadada a um estrondoso fiasco.

Em tese. 


Mas o futebol nem sempre se presta a referendar teses.