segunda-feira, 13 de maio de 2013

1979


1979, tão distante, um ano que demorou para acabar na mente de um garoto de, então, 10 (dez) anos de idade recém completados. O Regime Militar que então governava o país fez com que seu pai o criasse distante de qualquer discussão política, uma forma de manter a família protegida dos horrores das torturas e mortes tão comuns no início da década. O presidente da República que assumiu o poder aos 15 de março, João Baptista de Figueiredo, seria o último daquele regime, o que permitiria a transição para a tão sonhada abertura, tanto que, em 28 de agosto, promulgou a Lei da Anistia. Era uma fase de transformações. Em 14 de fevereiro a Embaixada dos EUA foi atacada em Bagdá e em 1º de abril ocorre a revolução islâmica no Irã; o Aiatolá Ruhollah Khomeini estava de volta ao país que o Xá Rheza Pahlevi deixava, fugido. No Iraque, o vice-presidente Saddam Hussein assumia a Presidência no lugar de Hasan al-Bakr. Era uma fase de transição. A década de 80, que estava por se iniciar, mudaria em muito a vida do país e do mundo. O garoto, porém, na Brasília do Regime Militar, pensava apenas em futebol e no time do Flamengo que então se formava. Olimpíadas? Não, nada disso. Aquele exótico evento trazia uma mistura de uns homens estranhos com sacos na cabeça (terroristas do Setembro Negro  sequestrando e matando atletas israelenses) e do Emerson, Lake & Palmer tocando Fanfare For The Common Man no Olympic Stadium em Montreal. A música era, e é, até muito bacana, mas o que importava era o Flamengo.

Aquele Flamengo, a propósito, era um verdadeiro esquadrão que fechou o ano com 82 (oitenta e dois) jogos, 62 (sessenta e duas) vitórias, 13 (treze) empates e 7 (sete) derrotas, com 205 (duzentos e cinco) gols marcados e 60 (sessenta) sofridos. Seus ídolos eram Zico, Júnior, Toninho e Cláudio Adão. O garoto, então, entusiasmado, como não poderia deixar de ser, perturbava o pai diariamente como questionamentos do tipo por que tanta dificuldade para ganhar do Londrina? É verdade que o Ademir Vicente anula o Zico? Por que o Zico deixou o Pelé jogar com a 10? Esse Paris Saint-Germain é bom? Então como pôde ganhar de 3x1? Coisas do gênero... Após ver o épico gol do Rondinelli e haver "gravado" o som da transmissão com um rádio-gravador "National", o ano seguinte, surpreendentemente fácil, atropelando os adversários em dois Estaduais, pois outro precisou ser criado para ser ganho novamente pelo Flamengo, 1979 marcava o início do desejo do garoto em ver o Flamengo ganhando campeonatos maiores e não apenas aqueles estaduais batidos, mas terminaria com uma bizarra derrota para o Palmeiras por 1x4 no Maracanã, com direito a dancinha de Carlos Aberto Seixas (quem?). O Palmeiras não tinha absolutamente ninguém de destaque em campo, mas apenas no banco, um tal de Telê Santana. Foi difícil ver os ídolos sucumbirem daquela forma no último jogo do ano, em dezembro.

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1979 só acabou para mim no dia 13 de abril de 1980, precisamente quando o meu ídolo, Antônio Dias dos Santos, vulgo "Toninho Baiano", o dono da camisa 2, deu um dos chutes mais violentos que já vi em toda a minha vida e mandou a bola para o fundo das redes do Palmeiras. Foi bacana ver o Tita dando tchauzinho para a torcida do Palmeiras a cada gol, mas eu só consegui virar a página após o gol do Toninho. Aliás, quando o Flamengo veio a Brasília em 1979 para jogar contra o Gama pelo Campeonato Brasileiro, minha mãe me levou ao Aeroporto para buscar o meu pai, que viajara ao Rio a trabalho. Grata surpresa: regressou com a delegação do Flamengo. Teve autógrafo e tudo. Um curioso encontro do lado de fora foi marcante. Na última janela do ônibus, olhando para fora, estava um sujeito de olhos grandes, profundos, esquisitos, e eu perguntei quem era. "Esse é o Leandro", disse meu pai. "Joga mais do que o Toninho". Pra que ele foi dizer aquilo? Demorei a aceitar o coitado do Peixe-Frito. A saída de Toninho do Flamengo foi um dos episódios que me deixou mais triste no futebol. Ainda bem que, com o tempo, o Leandro mostrou quem era... Mas Toninho jogava muito. Lateral da seleção brasileira na Copa de 1978, a ponto de deixar Nelinho no banco, Toninho foi o titular nas conquistas do Tri Estadual de 1979 (2) e do primeiro Campeonato Brasileiro, em 1980. Que Deus o tenha, onde quer que esteja, Toninho, e obrigado por tudo. Você foi um grande ídolo na minha infância.

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1979 também marcou a última temporada de Cláudio Adão pelo Flamengo, mais um ídolo que se foi, mais um fato que custei a aceitar como torcedor. Outro que penou para "ser aceito" no meu rígido e exigente coração de torcedor foi o Nunes. Mas antes de me condenarem, por favor deem uma olhada nas estatísticas do Cláudio Adão no Flamengo e parem para refletir um pouquinho... Até hoje, à exceção do Romário, e talvez do Bebeto, não vi centroavante tão técnico com a camisa do Flamengo. Nem o Adriano. O nosso "João Danado" precisou decidir o maior jogo de futebol da história do Flamengo, na minha opinião (os 3x2 de 1980), para conquistar minha eterna confiança. Naquele 1º de junho de 1980, o Brasil parou. Não digo que foi o título mais importante da história, pois outros do mesmo tamanho vieram, mas foi o jogo mais nervoso e difícil que já vi o Flamengo disputar. Nenhum outro foi tão grande como aquele. O Atlético/MG era um time gigantescamente bom e Reinaldo transcende qualquer tentativa de explicação para o tamanho do seu talento e o medo que despertava. Lamento pelos que não haviam nascido ou não puderam assistir aquela partida. O videotape não consegue refletir a grandeza descomunal do evento.

Às vezes paro para me perguntar o que teria ocorrido se Cláudio Adão não tivesse deixado o Flamengo. Teríamos ganhado tudo de  modo mais fácil ou sido derrotados? Bem, São Judas Tadeu e os Deuses do Futebol sabem o que fazem. Mas fica aqui também meu agradecimento e a homenagem a Cláudio Adão, um grande ídolo da minha infância.

Bom dia e SRN a todos.