quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Eu sou o Angelim e o Angelim sou Eu!


Rodrigo Romeiro

Saudações Car@s Butequeir@s Rubro-negr@s. Defendi que o Luxemburgo deveria tratar a Sul-americana de forma secundária e, para manter a coerência, farei o mesmo por aqui. Gostei da alternativa que o Luxemburgo apresentou ontem, escalando poucos titulares e deixando outros no banco. Dessa forma, alguns titulares foram poupados e ao mesmo tiveram que concentrar e ficar longe de eventos e lugares em que o desgaste físico é maior do que dentro do campo. Boa Luxemburgo! No Santos ele já tinha feito isso e vejo como uma boa alternativa.

A vitória por 1 a 0 também foi boa, pois, como já estamos cansados de saber, não tomar gol dentro de casa em competições em que há o gol qualificado fora de casa é sempre meio caminho andado para a classificação.

Porém, hoje, quero falar sobre uma curiosa relação que temos com nossos ídolos. Numa perspectiva existencial e não meramente social. O fato de que todos nós, com certeza, já fomos um deles.

No futebol, os da minha geração quase sempre eram Zico. Quando jogava no gol já fui Fillol. De vez em quando era Adílio ou Tita. Quando marcava um gol de bico era Nunes.

Os mais velhos, com certeza, devem ter sido Dida. Talvez até tenha algum(a) Butequeir@ que tenha sido Valido. Os mais novos devem ter sido Romário; outros, ainda mais novos, podem ter sido Pet e por aí vai. Eu, ultimamente, tenho sido Angelim.

Duas das vezes em que fui Angelim foram marcantes. A primeira delas realizou um sonho de criança e fechou um ciclo que já permite que seja escrito em minha lápide: aqui jaz um homem que foi muito feliz e realizou sonhos.

Foi no inesquecível dia 06 de Dezembro de 2009, em pleno Maracanã. Estava nas cadeiras azuis, depois de quase morrer esmagado na grade de entrada. Cheguei a temer que partiria desse mundo sem realizar um dos meus maiores sonhos: ver o Mengão Campeão Brasileiro dentro do maior estádio do planeta. Depois de muito sufoco, fui cuspido pra dentro do estádio e arrastado pelos braços por dois policiais para além da catraca.

Não ousei caminhar muito e me sentei logo ali atrás do gol. A partida foi dramática, como todos lembram. E aos 24 minutos e 55 segundos do segundo tempo, subi com o Magro de Aço, meti a cabeça na bola e estufei a rede para nos dar o Hexa. Sim, Car@s Butequeir@s, eu subi com o Angelim. Ninguém dentro de campo merecia tanto quanto ele fazer aquele gol. E, presunçosamente, eu acreditava piamente que ninguém nas arquibancadas merecia ser mais o Angelim naquele dia do que eu. Sei muito bem que outros 40 milhões de rubro-negros sentiram a mesma coisa naquele momento, mas quem cabeceou aquela bola com ele fui eu e pronto.

O Magro de Aço é um daqueles ídolos que vale à pena. Sobrevivente da miséria, antes de conseguir uma oportunidade no futebol, seguiu a sina de grande parte dos seus conterrâneos do Cariri no Ceará e migrou pelo Brasil em busca de um lugar à sombra. O nosso herói enfrentou com bravura todas as dificuldades que a vida lhe impôs, subiu com raça milhares de vezes no terceiro andar para estufar as redes das adversidades e deu vida a célebre frase: o sertanejo é antes de tudo um forte. Nasceu com o destino de perder, mas lutou contra tudo e todos e teve uma existência voltada para vencer, vencer, vencer.

Além de forte, e apesar das adversidades, Angelim é cordial, disciplinado e obstinado: vai em cada bola como se fosse a última. Naquele fatídico jogo contra o América do México dava pra ver nos olhos dele o desespero e a vontade de mudar aquele estado de coisas. Não se portou como um moleque assustado e, ao contrário da maioria do time, lutou. Pegava a bola lá atrás e levava com garra e disposição para o ataque numa tentativa suicida e solitária de evitar a consumação daquele vexame. Dava a impressão de que, se necessário fosse, daria a vida por um mero golzinho.

A segunda marcante vez em que fui Angelim foi no começo dessa semana. E, naquele dia, imaginei que ele também esteja sendo eu. Voltei a jogar bola depois de muito tempo parado e senti o peso da idade. Tudo jogava contra: dores, falta de ritmo, falta de fôlego etc. Mas eu resistia bravamente porque pensava: eu sou o Angelim e vou cabecear todas essas dificuldades para o fundo do gol adversário. Lutei o quanto deu e percebi que muitas vezes a paixão e a vontade podem até superar algumas barreiras impostas pelo tempo.

Imaginei que meu herói devia sentir todos os dias o peso da idade. Mas devia olhar para as dificuldades impostas pelo tempo, sorrir e dizer: depois de tudo que passei, meu caro, tiro você de letra.

Se depender da garra e da paixão o Magro de Aço só pára quando sucumbir dentro de campo. E eu, aqui do meu sofá, ou da arquibancada, ficarei desejando: continue aí meu velho, pois pularei com você em todas as bolas e vamos enganar esse chato chamado tempo. Angelim tem sido bravo, tem enganado o tempo, tem jogado bem e por tudo que representa é titular desse time até o Heptacampeonato. Figura admirável dentro e fora de campo. Como alguém com muita felicidade definiu, esse é o Ronaldo que importa. Terá sempre uma Nação aos seus pés.

Eu fui e serei Angelim ainda por muitas vezes. Na vida e no futebol. E você, meu Car@ Butequeir@ Rubro-negr@, quem você já foi nas peladas dos gramados ou da vida?