Olá, Buteco!
Na busca permanente de assuntos para posts, esbarrei, em tempos recentes, num programa da ESPN e num recorte de entrevista do presidente Bap, ambos com algum olhar para a formação de jovens jogadores brasileiros.
Fiz as minhas anotações e programei o uso desses materiais na preparação de um post para este recesso de Data FIFA que estamos vivendo.
Eis que a Dona CBF apareceu com um estudo que estabelece relação de causa e efeito entre o número de jogadores estrangeiros nos elencos dos clubes brasileiros e a redução de minutagem dos nossos jovens jogadores nos elencos principais desses clubes.
O estudo da CBF foi apresentado aos quarenta clubes das séries A e B e, por 37 votos a 3, foi decidida a redução gradual de jogadores estrangeiros nas competições nacionais, no ciclo 2027-2030, decisão que gerou forte questionamento de muita gente do meio.
Como disse no Buteco há poucos dias, ainda estou me concedendo o direito à perplexidade (por isso e também pela MP das Bets), razão pela qual não me obrigarei a ser conclusivo na análise do tema, permitindo-me apenas apresentar ideias que colhi no programa da ESPN e na entrevista do presidente Bap, para que vocês se sirvam desses ingredientes e façam suas reflexões.
Quando muito, poderei dar uma ou outra opinião, mas meu principal propósito é apresentar o cardápio de ideias, para que elas sejam objeto de reflexão e debate.
Cardápio do Post:
Futuro em Jogo – Programa da ESPN
Entrevista do Bap ao Canal Market Makers
E o Flamengo nisso?
Futuro em Jogo
O programa já havia começado quando eu sintonizei a ESPN: comando do Paulo Calçade e o título do programa era “Futuro em Jogo”.
O tema era o futuro do futebol brasileiro, reflexão sobre as seis copas seguidas em que a seleção brasileira não chegou a uma final.
No estúdio com o Calçade, dois participantes:
Alcides Scaglia, mestre em Pedagogia do Movimento, coordenador do Laboratório de Estudos Aplicados em Pedagogia do Esporte e docente do curso de Ciências do Esporte na Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp.
Marcelo Massa, ex-atleta profissional de futebol, professor associado e pesquisador da Universidade de São Paulo, reconhecido como especialista em educação física, desenvolvimento motor e formação de talentos no futebol de base.
Futebol de base? Sim, o tema era o futuro do futebol brasileiro, mas o debate estava focado na formação de jogadores que possam, nas futuras copas, recuperar e reapresentar ao mundo a identidade do nosso futebol.
Além deles, alguns convidados com participação remota.
Consegui anotar o nome de dois deles:
Gibson Moreira Praça, Doutor em Ciências do Esporte. Professor Adjunto do Departamento de Esportes da Universidade Federal de Minas Gerais. Coordenador do Centro de Estudos de Cognição e Ação. Desenvolve estudos relacionados ao processo de Ensino-Aprendizagem-Treinamento.
André Jardine, treinador de futebol, com longa passagem no futebol de base e campeão olímpico com a seleção brasileira, na “Rio 2016”. Muito bem-sucedido num ciclo de três anos à frente do elenco principal do América do México, segue trabalhando no exterior com elencos adultos.
Destaco, dessa conversa, os seguintes comentários:
O diferencial do Brasil era o garoto jogar, até 12, 13, com liberdade, desenvolvendo a espontaneidade. O oposto disso é a especialização precoce (muito cedo o garoto é encaminhado para a especialização em determinada posição).
A fase infantil deve servir ao desenvolvimento de repertório motor, com menos competição entre clubes e, idealmente, com a disputa de torneios internos, mais lúdicos, em que todo mundo joga e onde, inclusive, se admite maior mistura entre idades e desenvolvimento físico dos participantes.
Quando se falou em repertório motor e em mistura de idade e desenvolvimento físico, lembrei-me do Natanzinho, projeto de craque da nossa base, exercitando gingas e dribles contra garotos de mesma idade, mas muito maiores do que ele.
A liberdade vivenciada por ele no jogo que vi do Sub-9 é compatível com a receita dada pelos especialistas, mas a competição entre clubes nessa idade não é.
A velha queixa da grande redução da quantidade de campos de pelada, onde espontaneidade, liberdade e mistura de idades era o mais comum.
De fato, a pelada raiz expunha cada garoto ao jogo contra jogadores de todos os tamanhos e à não especialização (jogava-se na vaga que houvesse, não necessariamente numa posição de “especialista”).
Por outro lado, me perguntei até que ponto isso ainda pode ser a fórmula e até que ponto é nostalgia de um tempo cuja repetição não é mais viável?
E aí, veio uma ponderação do Jardine:
As fontes são a rua e o futsal. Como temos menos rua, talvez precisemos enfatizar mais o futsal (Bap também já falou em maior aproveitamento do futsal como fonte de revelação de jogadores para o campo).
Market Makers: “Bap explica o que está errado no futebol brasileiro.”
Acho péssimo esse título, porque coloca o presidente numa excessiva posição de gato-mestre.
Não que ele fuja desse jeitão, porque dá muitas entrevistas, nas quais apresenta conceitos, críticas e opiniões sobre tudo que envolve o futebol.
Só que, apesar de um possível exagero na sua exposição à mídia, Bap faz boas análises, razão pela qual achei cabível compilar as ideias e opiniões que expressou, porque explicam algumas coisas relacionadas com a formação de jovens pelo Flamengo e porque os temas que tratou “conversam” com o debate apresentado na ESPN.
Apresento a seguir a transcrição de parte das falas do Bap, desculpando-me pelo ritmo um tanto caótico da transcrição, mas achei importante tentar ser fiel ao que ele disse.
A gente acabou de participar de mais uma Copa do Mundo e não chegar nem perto de nada.
A Copa escancara que nós temos que fazer uma reflexão profunda sobre futebol brasileiro.
Por que a gente não forma mais os jogadores que a gente formava?
Eu venho de mídia, de comunicação, pelo menos nos vinte últimos anos do meu trabalho como executivo.
A pauta número zero das mesas de resenha esportiva de quaisquer convocações era a dos injustiçados.
Fazia-se outra seleção que poderia ter ido à Copa do Mundo, coitado do João, do Pedro, do Antônio, como é que eles ficaram fora?
Nós temos craques extraordinários que jamais foram a uma Copa do Mundo: Evaristo de Macedo, Djalminha, Romário só foi a uma, Alex, Ademir da Guia foi em 1974, mas jogou duas partidas. Ademir era um monstro, não foi jogador de seleção porque havia outros monstros.
Então, quando a gente olha o futebol brasileiro, desse caldo histórico que a gente tinha para o futebol de hoje, se o futebol fosse uma fábrica, uma fazenda que tivesse a produção de alguma coisa, a produção é muito fraca, qualitativa e quantitativamente.
Por que é assim?
Porque os jogadores ficam pouco tempo aqui, vão embora logo, porque a gente educa os garotos para irem para a Europa e porque jogar no time de cima do Palmeiras ou do Flamengo é um meio para que atinjam um objetivo maior, o sonho deles é ir embora daqui.
Entendo que a Lei Pelé (1998), que virou a Lei Geral do Esporte vinte anos depois, claro que coalhada de boas intenções (porque os clubes eram senhores de engenho, escravocratas, e viraram barriga de aluguel), deveria ser ajustada.
Quem ganha dinheiro com o futebol nos últimos vinte anos?
Os agentes ganharam muito dinheiro, todos eles ficaram milionários porque, ou ele ganha zero, ou ele ganha muito dinheiro.
Imagina você comprar um imóvel, pagar dez milhões de dólares por ele e, em cinco anos, ele não é seu. Desvalorizou.
E é assim: quem chegar aqui e pagar qualquer coisa por ele, ele não é seu, a gente troca de dono.
Qual é o negócio cujo retorno pode cobrir o impacto disso?
Você compra um jogador pro Flamengo e paga vinte milhões, a cada ano ele vale quatro milhões a menos.
Imagina teu patrimônio, a cada quatro anos você ter que comprar um novo e, dependendo das condições, você ter que comprar outro durante o tempo em que você está com o primeiro imóvel, como é o caso da maior parte, do Palmeiras, do Flamengo, pra você se manter competitivo.
É um modelo muito intensivo em capital, nós faturamos em reais, pagamos esses grandes jogadores em moeda forte, temos que vender jogadores muito cedo aqui, então temos um modelo aqui que é anacrônico em relação ao que está acontecendo no mundo.
A legislação brasileira deveria proteger os clubes brasileiros, ela tem que ser ajustada.
Esse é um assunto que eu acho que o Congresso deveria olhar, pra gente discutir ajustes na Lei Geral do Esporte, para que, de alguma maneira, façam com que as Holandas, Franças, Portugal, Espanha de vinte anos atrás estejam aqui no Brasil.
Jogador (precisa) ter idade pra ir embora, não pode ir embora antes de tanto tempo... (Não sei se isso é viável e se é legítimo, mas destaco, por ser a posição de quem vive o problema.)
Eu não posso assinar contrato com um garoto de doze anos, mas o Barcelona veio e contratou o pai do Messi e levou para a Espanha.
Você acha que eles estavam preocupados com o pai do Messi?
Lá, não trataram isso como trabalho escravo, como exploração de menor.
E isso acontece toda hora, enquanto a gente está falando aqui.
Outro dia saiu um vídeo de um garoto que joga lá no salão do Flamengo, no Sub-9, ele faz um gol sensacional e já tá cheio de gringo querendo falar com o pai, com a mãe.
Qual é o impeditivo que eu tenho de alguém convencer o pai a ir trabalhar na Espanha? O pai vai e leva o filho que é menor.
A gente deveria escondê-lo, pra proteger um ativo que é nosso. (De novo: É viável? É legítimo?)
Chega na França, por exemplo: Tenta exportar trigo pra França. Liberté, Fraternité, Egalité. Pros outros, né? Pro deles, o leite deles é protegido, o trigo deles é protegido.
Por quê? Porque é um produto importante da agricultura francesa.
Analogamente, o Brasil devia proteger seus produtos.
Na hora em que a gente fizer isso e que a gente voltar a formar garotos pra serem o que, na essência, era o futebol-arte brasileiro, a gente vai ter um produto melhor.
Então, é um conjunto de fatores.
Tem uma parte que é legislativa, tem uma parte que é política e tem uma parte que é você poder flexibilizar algumas relações.
Outro exemplo é o seguinte: muita gente pergunta por que não tentamos os jogadores africanos. Eles são fortes, por que a gente não traz eles pra cá? Porque você não pode trazer um menor pra trabalhar no Brasil. Na Europa, pode.
Aí você pega um Kanté, um Embolo, eles estavam lá desde os quinze, dezesseis anos.
Pro Brasil, ele não poderia vir. Por que não poderia? É só um questionamento.
Então, o mundo foi se movendo muito rapidamente, uma camada política, tecnológica, defendendo seus interesses.
A Europa defende seus interesses como se fosse uma jarda do futebol americano, enquanto o Brasil fica politizando algumas coisas (isto é a minha opinião, só a minha opinião) e não tem uma visão clara de chegar e dizer:
Olha, vamos traçar uma linha aqui e separar o que é interesse nacional e o que é princípio.
Então, nós acabamos sendo muito flexíveis e muito tolerantes com a ganância estrangeira em relação a produtos nacionais.
Não é só no futebol, mas vamos ficar no futebol: Isso afeta o nosso futebol.
Nunca é uma coisa só.
Então tem que ter todo o arcabouço de governança que você tem que ter nos clubes, não acho que tem que ser obrigação você ser SAF, mas a gente deve conviver e o arcabouço regulatório é absolutamente fundamental para que o Brasil possa voltar a sonhar em disputar alguma coisa relevante, senão nós vamos virar, com todo o respeito, um Uruguai, uma Itália.
O Brasil tem esse desafio.
E tem uma coisa que é pior: essa geração que tá vindo aí atrás acha que torcer pela seleção nacional não é relevante.
Isso é um sinal de quão mal a gente está tratando do nosso produto e vai bater no desafio de fazer uma liga, nunca é uma coisa só, isolada.
Acho que a gente precisa fazer um dever de casa importante de mudar algumas coisas aqui enquanto a gente tem tempo.
E o Flamengo nisso?
Não tenho a resposta, mas vou tentar alinhavar algumas ideias.
Em primeiro lugar, acho que a crise da seleção brasileira tem muitas causas não relacionadas com o Flamengo, mas percebo que há convergência de pensamentos de muitos players do mundo do futebol: quando eles tentam fazer diagnósticos e propor soluções para a recuperação do futebol de seleção, focam principalmente na base, na formação de jogadores e, no caso da CBF e do Bap, na tentativa de fixação de jovens talentosos no Brasil por mais tempo.
Os participantes do programa Futuro em Jogo focaram mais no berço dos craques, defendendo que os meninos e meninas (eles também falaram delas) sejam protegidos da especialização precoce e, durante os primeiros anos da prática de futebol, experimentem muita liberdade, desenvolvam espontaneidade e repertório motor e tenham a oportunidade de vivenciarem maior mistura entre idades e entre diferentes desenvolvimentos físicos dos participantes, sem tanta segmentação por idades.
Para tanto, recomendam menos torneios entre clubes e maior valorização de torneios internos, mais lúdicos (Natanzinho disputa competições Sub-9 entre clubes).
A CBF direciona sua tentativa de solução para a maior fixação de jovens no Brasil, mas faz isto defendendo a redução de estrangeiros e medidas que podem resultar apenas paliativas, como a imposição de uma lista de jogadores Sub-23 no elenco inscrito no Brasileirão (o Flamengo tem elenco curto de jogadores adultos, mas nem assim usa os garotos).
Bap também vai na direção da fixação de jovens no Brasil, mas acredita que isso deve ser tentado por meio de uma revisão do arcabouço legal, para que os jovens talentos não saiam tão cedo do país.
É cabível pensarmos em maior fixação de jovens no Brasil, mas não sei se haverá sucesso na tentativa, porque o mercado brasileiro da bola continua convivendo com a Lei Bosman, com a força financeira do futebol europeu e com a atratividade da Europa para as famílias dos garotos brasileiros.
Como os instrumentos de poder do futebol europeu não serão revogados, acredito que os nossos jovens mais talentosos não estarão aqui para engordar a lista Sub-23 determinada pela CBF e que, com a redução de estrangeiros e o aumento gradual de jogadores Sub-23 nos elencos, poderá haver uma piora da qualidade do futebol praticado no país.
E o Flamengo?
Vejo um trabalho em duas frentes e acho que o presidente Bap tenta cumprir seu papel nas duas:
** Há uma frente interna ao clube, uma frente orgânica. Nela, o Flamengo deve, com a consciência de que se trata de um trabalho permanente e de resultados de longo prazo, focar em aperfeiçoamento permanente de captação e preparação de jovens e em transição para o futebol adulto. Para tanto, é fundamental a formação de uma equipe altamente qualificada para o trabalho com a base em todas as etapas e uma integração de esforços com a comissão técnica do elenco adulto.
** Há uma frente externa, institucional, de tentativa de influência para que o ambiente do futebol de base favoreça a formação dos jovens e sua integração aos elencos profissionais dos clubes.
Nesse sentido, gosto da ideia de valorização da categoria Sub-23, algo que, a meu ver, deveria incluir a criação de campeonatos para essa faixa etária, para que, ao estourar a idade Sub-20, os garotos não vendidos para o exterior tivessem oportunidade de completar aqui o seu amadurecimento, mas é preciso que haja viabilidade para isso ou que, por meio de alguma intervenção estrutural comandada pela CBF e apoiada pelos clubes, tal viabilidade seja criada.
Pedindo desculpas pelo textão, fico por aqui, porque o assunto é complexo e não posso ter a pretensão de esgotá-lo.
Saudações Rubro-Negras!!!
Carlos César Ribeiro Batista